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Porto Alegre, quinta-feira, 04 de fevereiro de 2021.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
quinta-feira, 04 de fevereiro de 2021.
Notícia da edição impressa de 04/02/2021.
Alterada em 03/02 às 21h48min

Não salvem os tubarões

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Engenheiro com especialização em finanças e MBA na Universidade Columbia, é presidente do Instituto Mises Brasil
A fantasia mais suculenta que empolga o operador de mercado é a de aplicar um "corner", ou seja, emparedar os demais traders que negociam um ativo pouco líquido. Ao tomar ciência que traders montaram posições que os obrigará a comprar uma vultosa quantidade do ativo no futuro próximo, o operador do corner se adianta e compra uma porção significativa do estoque total do ativo. Este controle amplo do estoque total provoca uma escassez que força o trader (contratualmente obrigado a comprar o ativo) a pagar muito mais do que o preço de mercado até então vigente.
É oferta e demanda: o futuro próximo chegou e o sujeito precisa comprar, mas o operador do corner está sentado no estoque. O preço dispara. O operador do corner, no entanto, só lucra caso seja capaz de desmontar sua enorme posição antes que o preço volte à normalidade.
Foi o que ocorreu na semana passada com as ações da varejista de consoles de videogame americana, a GameStop (GME:NYSE), que atingiu valores espantosamente altos, em uma saga fascinante, cujo corner já parece estar se desfazendo. No momento em que escrevo a ação já caiu mais de 2/3 em relação à semana passada, mas permanece seis vezes mais cara que há um mês.
O mercado financeiro se assombrou. Milhares de pequenos investidores amadores apostaram pesado e aplicaram uma custosa lição em dois enormes hedge funds, o Melvin Capital e o Citron Capital, que detinham posições de aposta na queda das ações da GameStop. Até a sexta-feira passada, inacreditáveis US$ 20 bilhões de dólares saíram das mãos dos que apostavam na queda às dos que apostavam na alta.
O corner e o "short squeeze" (emparedamento dos que apostam na queda) são eventos extremamente raros, usualmente se desfazem rapidamente, e muitas vezes são induzidos por motivos mais nobres do que uma mera ganância de um operador.
Em 1980, os irmãos Hunt do Texas, tradicionais investidores de prata como proteção contra a inflação galopante, foram acusados de manipular os preços do metal em um "short squeeze" intencional. Investidores bem conectados que apostavam na baixa vinham perdendo muito dinheiro, mas tiveram "sorte" quando as bolsas alteraram as regras de negociação e margem, o preço cedeu e o squeeze se desfez, resultando em prejuízo de mais de US$3 bilhões aos Hunt, a preços de hoje.
Durante o pico da crise de 2008, as ações da Volkswagen atingiram níveis estratosféricos (a montadora se tornou momentaneamente a companhia mais valiosa do mundo) pois a Porsche vinha comprando as ações para obter o controle acionário. Desavisados, os fundos de arbitragem apostaram pesado na baixa, e se enfiaram em um corner asfixiante.
O caso GameStop é distinto. Milhares (agora milhões) de sardinhas, pequenos investidores, muitos amadores e alguns sofisticados, discutiram a tese de investimento ao longo de vários meses no Reddit (r/wallstreetbets) e montaram suas posições. O idealizador original (u/Jeffamazon) desenhou a tese em um post brilhante há cinco meses. Percebeu que a posição vendida dos hedge funds era maior do que o total de ações negociadas, tornando a GameStop perfeita para um corner. Não fizeram nada de errado: discutiram uma tese de investimento, identificaram um erro na estratégia gananciosa dos hedge funds e apostaram individualmente.
Com uma forcinha dos tubarões e sardinhas que tiveram prejuízo, pode ser que o xerife do mercado, a SEC, declare que houve manipulação ilegal. Se porventura agirem para proteger os investidores de seus próprios excessos, ficará mais difícil para as sardinhas operarem, especialmente opções e futuros, que trazem liquidez e benefício a todo o mercado. Seria um erro e uma grande covardia: mercado sem perdas é como catolicismo sem inferno.
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Opinião Econômica
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Abre espaço para a opinião qualificada sobre temas da área econômica e política, como juros, inflação, finanças pessoais, mercado de capitais e gestão, entre outros. Entre os articulistas, estão Nizan Guanaes, Samuel Pessoa, Márcia Dessem, Solange Srour e Nelson Barbosa.