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Porto Alegre, terça-feira, 14 de janeiro de 2020.

Jornal do Comércio

Notícia da edição impressa de 14/01/2020.
Alterada em 13/01 às 21h19min
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Competição, bem-estar e desigualdade

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Pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV) e sócio da consultoria Reliance. É doutor em economia pela USP
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Pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV) e sócio da consultoria Reliance. É doutor em economia pela USP
Acaba de ser publicado nos EUA, pela Harvard University Press, "A Grande Reversão: Como os EUA Desistiram da Competição", do francês Thomas Philippon, professor da escola de finanças da Universidade de Nova Iorque.
O livro constata que, nas últimas duas décadas, os mercados se tornaram menos competitivos na economia norte-americana, enquanto o inverso ocorreu na UE (União Europeia).
A redução da competição, medida pela elevação da participação em um mercado das principais empresas, não é necessariamente ruim.
A maior concentração de mercado pode vir acompanhada de ganhos de eficiência, aumento do investimento em capital fixo ou em pesquisa e desenvolvimento, queda do preço para o consumidor e até recuo da lucratividade. Esse foi o caso no setor de varejo nos anos 1990 nos EUA, com a expansão do Walmart. Trata-se da boa concentração de mercado.
Segundo Philippon, não foi o caso nas últimas duas décadas para diversos setores. O livro documenta que os serviços de transporte aéreo, internet e telefonia celular, por exemplo, se tornaram mais caros e hoje o custo é superior ao dos mesmos serviços na Europa. Há duas décadas, era o oposto.
Em seguida, documenta que, de maneira geral, tanto no setor manufatureiro quanto nos serviços, houve aumento da concentração, menos investimento mesmo com lucratividade elevada e crescente, queda da criação e morte de empresas e elevação do preço.
As mesmas estatísticas aplicadas à UE indicam o caminho oposto. As paquidérmicas economias estatais europeias abraçaram os mercados com mais entusiasmo do que a meca do capitalismo. Essa é a grande reversão do título.
O argumento é que o elevado nível de captura das agências de defesa da concorrência pelas empresas nos EUA tem promovido essa queda de competição. A captura ocorre pela atividade de lobby e pela elevação do custo das campanhas eleitorais. Fatos amplamente documentados no volume.
Paradoxalmente, a UE, por ser uma federação de Estados nacionais, portanto uma confederação, dotou seus órgãos de defesa da concorrência de maior autonomia do que seu equivalente na outra margem do Atlântico.
Os políticos desejam ter o poder de interferir nos órgãos de controle, no entanto temem que estes sejam controlados pelos políticos de outros Estados nacionais. O equilíbrio político em uma confederação produz maior autonomia dos órgãos de controle.
A falta de uma instância política centralizada -tanto um Executivo quanto um Legislativo- muito forte, ao nível da confederação, acaba por insular as agências de defesa da concorrência da política. Adicionalmente há muito menos promiscuidade entre os funcionários dos órgãos de controle e os executivos das empresas controladas na UE do que na América.
A maior fraqueza do livro é não explicar em detalhes o que mudou na economia americana para que lobby e financiamento de campanha passassem a ter esses efeitos deletérios sobre a competição nos últimos 20 anos.
Também não nota que, segundo os dados da OCDE, a taxa de crescimento da produtividade do trabalho nas duas décadas foi oito pontos percentuais maior nos EUA do que na UE (34% ante 26%).
O maior problema, portanto, associado ao aumento da concentração, parece ser a piora da desigualdade, fruto da perda de poder de barganha dos trabalhadores, pela redução do número de empresas demandando seus serviços. Fato tratado no final do volume. Esforço de pesquisa recente ainda inconclusivo, apesar de bons indícios.
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