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Porto Alegre, sexta-feira, 24 de julho de 2020.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sexta-feira, 24 de julho de 2020.
Notícia da edição impressa de 30/10/2019.
Alterada em 29/10 às 21h38min

Trezentos anos de bolha

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Nesta semana completaram-se 90 anos do crash de 1929 da Bolsa de Nova York, que deu início ao período denominado de Grande Depressão. Há muito que aprender com as causas do episódio, mas narrarei outro ainda mais instrutivo.
Na França, há exatos 300 anos, em novembro de 1719, a primeira bolha de ações da história se aproximava do espantoso pico que alcançaria em poucas semanas. Desde janeiro daquele ano, o preço das ações da Companhia das Índias, o "índice Bovespa" de sua época, havia subido 20 vezes!
Excetuando-se alguns pormenores, tais como a intensidade e velocidade de seu desdobramento, é aterradora a semelhança entre o atual contexto do mercado financeiro internacional e o que ocorreu então.
Luís 14, o Rei Sol, morrera quatro anos antes deixando uma dívida impagável de 3 bilhões de livres. O regente durante a minoridade de Luís 15, o duque de Órleans, herdara o desafio de equacionar os imensos juros da dívida: 200 milhões de livres contra uma arrecadação total de apenas 145 milhões.
As tentativas anteriores de diminuir o conteúdo de metal precioso nas moedas e de aumentar os impostos geraram indignação no povo. Era preciso algo novo.
Para o sagaz jogador escocês John Law, foragido da Inglaterra após condenação por homicídio em um duelo a respeito de uma moça, a economia monetária da França em 1715 era inocente e medieval, sem papel-moeda ou negociação de ações de companhias. Era a oportunidade ideal para experimentar suas ideias inflacionistas. Em muitos aspectos, Law catapultou a economia monetária francesa diretamente ao século 21.
Em seu épico "Fausto - Parte 2" (1832), Goethe deixou uma mensagem para as futuras gerações a respeito da natureza da alquimia monetária. Mefistófeles, agente do diabo infiltrado como bobo da corte, induz o imperador falido a assinar um certificado lastreado em ouro subterrâneo, não minerado e incerto. Durante a noite, multiplica os certificados e os repassa como papel-moeda. O imperador, surpreso, se admira com a pronta aceitação e com o efeito riqueza que se dissemina por seu reino, sem prever a guerra civil que viria após os súditos perceberem o truque.
Similarmente, John Law fizera um pacto diabólico com o regente francês. Em troca de empréstimos a juros mais baixos ao tesouro, Law obteve o controle de um banco com status de banco central bem como o controle da Companhia das Índias; em dezembro de 1718 deixou de honrar o resgate das notas em ouro, criando a primeira moeda "fiat" do mundo. Com capital inicial integralizado de menos de 1 milhão de livres, Law criou até o fim de 1719 mais de 1 bilhão de livres.
Como hoje, a expansão desenfreada dos ativos financeiros criados pelo banco de Law não gerou inicialmente inflação de preços, mas de ativos. Como hoje, Law controlava um banco cujo "lastro" era um recebível de impostos futuros, incerto como o ouro subterrâneo em "Fausto". Como os bancos centrais de hoje, Law comprava títulos do governo.
Os bancos centrais atuais têm criado bolhas desde 1995 usando política monetária idêntica à de Law; reduzindo juros e induzindo endividamento e alavancagem que inflam os preços de ações e títulos.
Desde 2009, a bolsa americana subiu 350%, inflada pela política monetária. Do mesmo modo, os títulos de 30 anos zero-cupom do governo dos EUA têm sido invariavelmente o melhor investimento há décadas.
Como outrora, aqueles que primeiro têm acesso à liquidez mefistofélica lucram, e os mais pobres sofrem com preços de imóveis cada vez mais altos e maior endividamento.
Sinto dizer que a maior conta vem depois, quando se percebe o truque. O colapso na França ocorreu em 1720. Boa sorte, 2020.
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