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12/06/2020 - 17h53min. Alterada em 12/06 às 17h53min

Governo do Rio Grande do Sul quer entender destino que será dado à Ceitec

Secretário estadual de Inovação Luiz Lamb destaca importância de manter capital intelectual

Secretário estadual de Inovação Luiz Lamb destaca importância de manter capital intelectual


LUIZA PRADO/JC
Os últimos dias têm sido de muitas conversas por telefone e troca de mensagens entre os personagens que fazem parte do ecossistema que envolve a Ceitec e a própria política de semicondutores no Brasil. A declaração dada na semana passada pela secretária especial de PPI, Martha Sellier, de que será feita uma recomendação ao presidente da República, Jair Bolsonaro, para que seja feita a liquidação da Ceitec, pegou muita gente de surpresa, tanto do governo do Rio Grande do Sul como, segundo informações, da própria direção da empresa.
Os últimos dias têm sido de muitas conversas por telefone e troca de mensagens entre os personagens que fazem parte do ecossistema que envolve a Ceitec e a própria política de semicondutores no Brasil. A declaração dada na semana passada pela secretária especial de PPI, Martha Sellier, de que será feita uma recomendação ao presidente da República, Jair Bolsonaro, para que seja feita a liquidação da Ceitec, pegou muita gente de surpresa, tanto do governo do Rio Grande do Sul como, segundo informações, da própria direção da empresa.
Agora, a expectativa é construir alguma linha de ação por parte do governo estadual para entender exatamente qual destino será dado para a empresa, instalada na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre. “Estamos em contato com o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Não sabíamos que seria tomada essa decisão e nem fomos chamados a Brasília para conversar”, afirma o secretário de Inovação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, Luis Lamb.
Segundo ele, há uma grande preocupação em preservar o capital intelectual gerado pela empresa. “A Ceitec reúne competências e capital intelectual, produz conhecimento em áreas de uma indústria que ainda tem muito a crescer e a contribuir no Brasil. Esperamos que as competências e as atividades-fim da Ceitec, mesmo que num modelo privado, sejam muito bem avaliados e preservados no Estado”, observa.
Para o presidente da Sociedade Brasileira de Microeletrônica (SBMicro), Nilton Itiro Morimoto, um caminho seria o governo federal fazer um edital para ofertar a fábrica ao mercado. “Ouvi rumores de que não houve interessados, mas a verdade é que o governo federal nunca disse oficialmente que a empresa estava a venda. Eu mesmo já conversei com pessoas do Brasil e de fora que têm interesse em adquirir a Ceitec”, conta, destacando que seria vantajoso para Porto Alegre e para o Rio Grande do Sul manter a operação fabril aqui. O mesmo poderia ser feito com o Centro de Design.
Simplesmente acabar com a Ceitec, porém, seria um sinal de fracasso total e um retrocesso de anos. “A extinção pura e simples da Ceitec é um completo descalabro. Vai matar todo esforço que a comunidade de microeletrônica brasileira fez nos últimos anos para o desenvolvimento desta indústria”, alerta.
Sem falar que vai na contramão da tendências de as nações procurarem a independência em segmentos estratégicos. Europa, Japão e Estados Unidos, por exemplo, estão criando fundos de investimentos para a atração de empresas de semicondutores para lá. “Com a pandemia da Covid-19, todos viram que não foi uma estar na mão da China, que concentra muitas coisas nesta área”, analisa.
Outro aspecto que ele comenta é que a extinção representaria prejuízo ao governo federal. “A estimativa é que seria necessário gastar de R$ 200 milhões a R$ 250 milhões para fechar a fábrica de forma segura, já que ela usa no seu processo muitos produtos químicos perigosos”, relata Morimoto, que é doutor em Microeletrônica pela Escola Politécnica da USP.
O diretor regional da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônic (Abinee), Regis Haubert, conta que por diversas ocasiões a entidade tentou alertar o MCTIC para buscar uma alternativa para a operação, já que há tempos o fato dela depender muito do orçamento do governo federal incomodava diversos setores. “Uma forma seria repassar a empresa, mas nada foi feito neste sentido até agora”, comenta.
Ele observa que a demora para a entrada em operação da fábrica fez com que houvesse uma defasagem tecnológica. “Isso fez com que a empresa tivesse que fazer chips de menor necessidade tecnológica e, assim, ficou lutando contra a maré, porque esse perfil de chip já e feito pela China em larga escala”, analisa.
Por outro lado, houve uma grande evolução no desenvolvimento da capacidade intelectual gaúcha e brasileira na área de microeletrônica, o que levou ainda ao surgimento de operações como HT Micron e a Smart Modular TechnologiesSmart, bem como players de design house, como a Santa Maria Design House e a Chipus. “A Ceitec abriu fronteiras para outras empresas e acredito que esse legado vá permanecer”, projeta Haubert.
Transformação em Organização Social é considerada boa alternativa por especialistas
Apesar da apreensão sobre como exatamente será feita a liquidação da Ceitec, parte dos especialistas que acompanha esse mercado de microeletrônica e a própria Ceitec enxerga com bons olhos a transformação em uma Organização Social (OS).
“Acredito que esse modelo permitirá manter o patrimônio físico e intangível, know how técnico e comercial da empresa. É uma opção à gestão de ativos que preserva a visão estratégica de nação”, avalia o professor de microeletrônica do Instituto de Informática da Ufrgs, Sergio Bampi, que acompanhou de perto e participou de vários momentos da criação da empresa.
Para ele, o governo, porém, precisa adotar uma estratégia adequada para a alta tecnologia instalada da Ceitec, visão que é compartilhada com o professor do Instituto de Informática da Ufrgs, Ricardo Reis. “Muitas indústrias nacionais não conseguem mais competir porque as suas concorrentes no exterior colocam toda a eletrônica em um chip e, assim, não vendem o chip e, sim, o equipamento final. Fechar ou reduzir a atuação da Ceitec é um retrocesso nas aspirações da indústria de TI no Brasil”, lamenta. 
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