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Porto Alegre, sexta-feira, 06 de agosto de 2021.
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Notícia da edição impressa de 06/08/2021.
Alterada em 06/08 às 03h00min

Duas mulheres, tensão e mistério no Pós-Guerra

EDITORA INTRÍNSECA/DIVULGAÇÃO/JC
A Porta (Editora Intrínseca, 255 pág., R$ 44,90, e-book R$ 29,90), da grande e premiada escritora húngara Magda Szabó (1917-2007), é, antes de tudo e em síntese, o relato pungente de uma relação tensa e misteriosa entre duas mulheres no pós-Segunda Guerra Mundial.
A Porta (Editora Intrínseca, 255 pág., R$ 44,90, e-book R$ 29,90), da grande e premiada escritora húngara Magda Szabó (1917-2007), é, antes de tudo e em síntese, o relato pungente de uma relação tensa e misteriosa entre duas mulheres no pós-Segunda Guerra Mundial.
Magda foi descoberta tardiamente fora de seu país e tornou-se uma das mais importantes vozes da literatura europeia do século XX. O romance A Porta, sua obra-prima, lançado agora no Brasil com tradução direta do original por Edith Elek, foi publicado inicialmente em 1987 e, lançado nos Estados Unidos em 2015, entrou na lista dos melhores do ano do The New York Times Book Review.
A narrativa conduzida pela protagonista, que retoma sua carreira de escritora após a repressão cultural imposta pelo regime comunista húngaro, revela importantes traços autobiográficos. O livro venceu o troféu francês Femina em 2003 como melhor romance estrangeiro. Em 1949 a autora, que foi professora , escritora e poeta, recebeu o Prêmio Baumgarten. A Porta foi traduzido para mais de trinta idiomas e recebeu vários prêmios internacionais.
Na trama, uma escritora culta contrata Emerenc, uma camponesa analfabeta, impassível, bruta e de idade indefinida, para ser sua governanta. Emerenc mora sozinha numa casa onde ninguém entra, nem os parentes mais próximos. Ao assumir o controle da casa da patroa, a empregada torna-se indispensável e experimenta um tipo de amor - pelo menos até o desejado sucesso da escritora trazer à tona uma revelação devastadora.
A tensa relação de dependência entre as duas mulheres vai apresentar dúvidas e mistérios sobre a personalidade daquela que personifica um país que não existe mais. A cada nova informação sobre a excêntrica governanta, emerge o cenário de uma Hungria ocupada e dividida.
Dinâmica de classe, amizade feminina, o poder da vontade e a origem dos bens de Emerenc são apresentados e questionados na sombria narrativa, que era inédita no Brasil.

Lançamentos

Do Estetoscópio à Compreensão da Vida - Aventuras e Inquietações (Editora AGE, 216 pág, R$ 44,10) do médico Marcelino Poli, traz crônicas e pensamentos divididos em três momentos: lembranças, devaneios e relatos. Armindo Trevisan, na apresentação, ressalta o humanismo dos textos. Poli fala de Rita Lee, 1968, fé e ciência, entre outros tópicos essenciais.
A saga dos intelectuais franceses 1944-1989 - Volume I - À Prova da História 1944-1968 (Estação Liberdade, 701 pág, R$ 129,00) do historiador François Dosse, é a historiografia comentada da intelligentsia francesa da segunda metade do século XX, desde o pós-Segunda Guerra até 1989. Neste primeiro volume, Sartre, Camus, Beauvoir e o comunismo são abordados.
Lembranças de Eufrásio - Eufrasios Erinnerungen (Editora do Pampa, 162 pág, R$ 40,00) de José Felipe Ledur, desembargador aposentado da Justiça do Trabalho, em português e alemão, traz contos sobre a infância e a adolescência do autor, nascido em Bom Princípio. Obra rara, trata da imigração alemã no Estado, iniciada em 1824. Apresentação de Alcy Cheuíche.

Meu pai

As pessoas não morrem, ficam encantadas. Na parede da minha sala está o retrato de meu pai com 24 anos, em 1944, pintado por um amigo. Alguns anos antes a família, na Itália, passara por enormes dificuldades e ele fora trabalhar como auxiliar de operário na Alfa Romeo. Quatro décadas depois, após muita luta, no Brasil, ele se tornou proprietário de um automóvel Alfa Romeo.
No retrato da parede, que é não é apenas um retrato, apesar dos horrores da Segunda Guerra, na qual foi soldado do "comediante" Mussolini e das dificuldades familiares sofridas, o pai está com olhar confiante atrás da mesa de trabalho, onde estava um maço de cigarro e um livro aberto, como que apontando para o futuro.
Cinco anos depois, em 1949, o pai veio com a mãe e meu irmão de cinco meses, de navio, para viver e trabalhar em Nova Prata, interior de nosso Estado. Em 1953 a família foi para Bento Gonçalves, onde eu nasci em 1954.
Numa tarde de 1987, aos 67 anos, depois de cinquenta e três de trabalho, o pai nos deixou, repentinamente. No local onde escrevo agora, tenho um retrato dele aos sessenta e dois anos, pintado pelo mesmo amigo que pintou o de 1944. Neste retrato o olhar demonstra certo cansaço, e o rosto, as marcas de uma vida com muitas batalhas, alegrias, tristezas, ganhos e perdas.
O pai falava e escrevia bem, mas, como costuma acontecer, o bom exemplo e suas boas ações falam mais alto e permanecem. Ele me ensinou que a verdade quase sempre está no meio, no equilíbrio, e que nada em exagero realmente vale a pena. Socrático, mesmo depois de muitas vivências e estradas, me mostrava que, no fundo, a gente só sabia que nada sabia ou que sempre tinha muito por aprender. Vida curta, arte longa. O pai não gostava de extremismos de qualquer tipo e buscava caminhos democráticos.
O pai me disse: trata todas as pessoas igualmente bem, desde um mendigo até o Presidente da República. Todos merecem consideração. "Importa mais com quem tu comes, do que o quê tu comes", me disse uma vez, depois de comer uns figos, umas uvas e um queijinho, acompanhados de um vinho simples, com um velho e querido amigo, debaixo do parreiral do anfitrião.
O velho me explicou que era razoável pensar que o dia tinha 8 horas de descanso, oito de trabalho e oito de lazer, bem como pensavam os operários ingleses da revolução industrial. O pai me ensinou que o amor, a família e os amigos eram as essências da vida, assim como trabalho.
Me orientou a, na medida do possível, não entrar em bancos para pedir empréstimo e, também, me ensinou que é melhor comprar à vista, depois de pedir um cabível desconto, claro. Hoje as administradoras de cartões não dão desconto à vista, infelizmente. O pai me ensinou a economizar, pensar no futuro, mas tentando evitar os excessos de economia...
As pessoas somente se vão realmente depois que ninguém mais lembra delas. A lembrança de meu pai é frequente e muitas vezes fico pensando em como ele pensaria, agiria ou decidiria antes de eu decidir algo. O pai vive.
 

a propósito...

Hoje meu pai está dentro de mim, meu pai sou eu, que tenho duas queridas filhas, Laura e Marina, de 31 e 26 anos. Procuro passar o melhor possível para elas, lembrando das lições do meu pai e também da minha mãe, que está viva entre nós, aos noventa e três anos. Como disse o Quintana, o tempo é só um ponto de vista dos relógios e a vida segue, com o sol acordando pontualmente todas as manhãs. Segue a vida com seus ganhos e suas perdas, com momentos que se tornam eternos e com outros que ficam escondidos nos cantos das gavetas da memória, até a gente procurar por eles e entender mais uma vez e sempre que a memória é onde as coisas acontecem muitas vezes, de forma verdadeira ou inventada. (Jaime Cimenti)
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