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Porto Alegre, domingo, 26 de julho de 2020.
Dia dos Avós.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
domingo, 26 de julho de 2020.
Notícia da edição impressa de 13/09/2019.
Alterada em 12/09 às 21h17min

Crônicas, vida, livros, cinema e música

O jornalista, cronista, cartunista e YouTuber Yuri Al'Hanati, nascido em Angra dos Reis em 1986, que comanda o canal Livrada!, dedicado aos livros, acaba de lançar a coletânea de crônicas Bula para uma vida inadequada (Dublinense, 160 páginas).
O jornalista, cronista, cartunista e YouTuber Yuri Al'Hanati, nascido em Angra dos Reis em 1986, que comanda o canal Livrada!, dedicado aos livros, acaba de lançar a coletânea de crônicas Bula para uma vida inadequada (Dublinense, 160 páginas).
Yuri estudou Comunicação Social e Filosofia na UFPR, colaborou para diversos veículos impressos e online e atualmente escreve crônicas para o portal A Escotilha. Em 2010 criou o Livrada!, plataforma multimídia que experimenta abordagens leves na crítica literária e que é considerado um dos melhores canais do YouTube sobre livros.
Yuri fala dos replicantes de K.Dick, o homem das ruínas circulares de Borges, um sujeito camusiano que digladia contra uma central de telemarketing, de Ana Martins Marques, Lêdo Ivo, Ferreira Gullar e a arte porque a vida não basta. O cronista fala de Michel Houllebecq e a arte por estar cansado da vida, fala de Emmanuel Carrère, Gógol, Elena Ferrante e um certo Kafka do século XXI.
Além da vastidão de suas referências literárias, Yuri comenta sobre o vendedor de abacaxi, a máquina de pinball, viagens, cinema e música. O cronista se pergunta sobre o que leva multidões a urrarem em estádios e porque nos sujeitamos a botecos toscos por um simples copo de cerveja. Cervejas, torcidas, melhor pensar sobre isso num boteco perto do Morumbi ou do Maracanã, na visão de Yuri.
Luís Henrique Pellanda, na apresentação do título, escreveu: "Antes uma maldição formadora de párias, o deslocamento social é, hoje, o aspecto mais democrático da pós-modernidade. O estar fora de lugar é o tema destas crônicas. O flagrante cotidiano, usual do gênero, deixa um pouco de lado a perversão do voyeurismo para esboçar uma filosofia do estranhamento que, acima de tudo, celebra a solidão e a diferença. As crônicas formam uma bula: descrevem e prescrevem a vida inadequada, constroem com cenas o contraste entre a vontade de estar junto e a realidade de estar só e tateiam, junto ao leitor, um entendimento comum sobre o fenômeno. Uma ponte levadiça, erguida quando a distância é conveniente, baixada quando a vida urge comunhão".
 

Lançamentos

Não encontrei o passado, tenho que voltar (Octavo, 240 páginas), de José Carlos Mello, engenheiro e escritor, nascido em Salvador e desde os quatro anos radicado em Porto Alegre, narra em forma de romance o encontro do professor aposentado Archibaldo com o irmão Adamastor. Depois de anos os dois se encontram no Hotel Versailles, em meio a hóspedes bizarros.
Quando eu fiz 69 (Farol 3 Editores, 224 páginas), do consagrado jornalista Flávio Dutra, mais de quarenta anos de profissão em jornais e órgãos públicos, como a Secretaria de Comunicação do Governo do RS, traz crônicas bem escritas e bem-humoradas sobre bares, amores, nostalgia, imprensa, maturidade e uma lista do que deseja aprender ao chegar aos 69 anos.
A Porta do Chapéu - Crônicas em Paris (Class, 240 páginas), do consagrado médico, professor e escritor Celso Gutfreind, traz dezenas de densas e bem elaboradas crônicas sobre Paris, onde Celso viveu, estudou e trabalhou por muitos anos. Encontros, metro, o jeito de ser dos parisienses, restaurantes, baguete, música e muito mais estão nos textos, plenas de leveza, erudição e amor pela cidade-luz.
 

Boas maneiras

Alguém tem encontrado por aí o Senhor Boas Maneiras e a Dona Etiqueta? Alguém tem visto o Dr. Boa Educação, o Tio Desculpe, a Tia Obrigada e o Vovô com licença? Ah, alguém tem cruzado com o Sr. Fala Mansa e com a Dona Voz Baixa? E o primo Paciência, alguém tem encontrado na Padre Chagas, junto com a prima Elegância? Me avisem, onde eles estão, pois faz tempo que não os encontro e até estou com saudades.

Antigamente, lá por 1936, tínhamos livros de boas maneiras como o da Carmen D'Avila, por exemplo. Décadas depois Célia Ribeiro, Gloria Kalil, Danuza Leão, Cláudia Matarazzo e outros escreveram sobre como conviver melhor, com mais educação, delicadeza e elegância. Faz tempo. Afora alguns lançamentos de livros para crianças sobre o tema, não tenho visto obras sobre regras de bom relacionamento por aí. Já não falo nas nossas atuais listas dos mais vendidos, onde na seção de não ficção predominam títulos tipo "Vencer a qualquer custo", "F..da-se todo mundo", etc.

Não tenho nada contra palavrão, informalidade, etiqueta sem frescura, espontaneidade, bermuda, biquíni, bom humor e objetividade. Só acho que, especialmente em redes sociais, está baixo e brabo o nível. No final ninguém sai lá muito beneficiado ou apenas alguns que pensam que podem tirar partido da linguagem desabusada, da falta de modos e da agressividade de tamanho amazônico que anda por aí.

Como disse a minha irmã Jussara, hoje em dia seria bom poder agir como Bartleby, o escriturário, personagem da imortal novela de Herman Melville, que simplesmente dizia "prefiro não fazer" quando lhe solicitavam alguma tarefa. Pois é, pensando bem eu preferia nem estar escrevendo estas coisas sobre as "relações humanas" atuais. Mas não sou o Bartleby - ainda -, hoje é segunda-feira e preciso cumprir minha missão de preencher este espaço para gáudio de meus nove leitores.

Me consolo pensando que ainda tem gente fina, elegante e sincera por aí que não fala aos gritos, pede por favor, diz com licença e agradece até por pequenas coisas cotidianas e se desculpa quando é o caso. Nem tudo e nem todos estão perdidos. Dona Gentileza agradece. Mesmo entre amigos íntimos - ainda existem - não custa pegar leve, escutar (que é mais que só ouvir), ter paciência e conviver de modo mais afetivo e educado. O abraço e o aperto de mão silenciosos ainda podem muito, acho, numa época sem livros de boas maneiras e etiqueta.

Fico feliz sabendo que há muitos livros sobre boas maneiras para crianças. Educando os pequenos, o futuro ficará melhor. Esses dias, vi na televisão um menino "normal" dando atenção para seu colega de aula autista. Sala de aula sem bullying, alunos se matando e agredindo professores é uma visão que dá esperança.

Violência gera violência, falta de educação e de delicadeza geram maus modos e indelicadezas e, no final do jogo, todo mundo saí perdendo, mesmo os que "se acham" e pensam que ganharam, falaram por último e humilharam os outros. No fim do jogo de xadrez, rei, rainha, bispos, cavalos, torres e peões vão para a mesma caixa.

A propósito...

Sei que num mundo rápido, globalizado, barulhento, superlotado, competitivo e desigual, não dá para imaginar que as pessoas andem por aí com rendinhas nos pulsos e gestos lentos, compassados e gentis como nos tempos em que não era preciso levantar a voz para ser ouvido. Mas deixar que as relações humanas familiares, sociais, profissionais e internacionais descambem para a barbárie verbal e física não é uma boa. Nunca foi. Babel eletrônica é ruim. Se estou exagerando, com licença, me desculpe e muitíssimo obrigado pela atenção dispensada. Como dizia o outro, em sociedade tudo se sabe e gente fina é outra coisa.
 
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