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Cinema

- Publicada em 20/05/2022 às 03h00min.

Imagens reveladoras

Hélio Nascimento
Para os que defendem a tese de que o documentário é o verdadeiro cinema, Funeral de estado, de Sergei Loznitsa, aparece como uma poderosa demonstração de que sua preferência é a correta, ou pelo menos representa uma tentativa de exaltar tal gênero, raramente ocupando espaço nas telas de cinema. Podendo ser visto em algumas plataformas, foi possível vê-lo no YouTube em sua versão integral. O filme, que foi exibido nos festivais de Veneza e Nova York, como convidado especial, também chegou ao Brasil nas telas apropriadas na mostra dedicada ao documentário em São Paulo, e também no Festival do Rio de Janeiro. Loznitsa, nascido em Belarus e integrado ao cinema da Ucrânia, tem se dedicado a realizar filmes a partir de material já existente, geralmente depositado em arquivos e praticamente esquecido. Em sua filmografia há um outro trabalho que focaliza, utilizando material de época, os infames processos realizados na década de 1930, quando, como realça Isaac Deutscher em sua Trilogia do profeta, foi morta toda a liderança da Revolução de 1917, com exceção de Lenin, falecido em 1924, e Trotski, assassinado depois no México em 1940, um episódio revelador e reconstituído em livros como A segunda morte de Ramon Mercader, de Jorge Semprún, e O Homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura, e também no filme O assassinato de Trotski, de Joseph Losey. O diretor costuma trabalhar com material original sem alterar nada, evitando comentários e deixando para o espectador as conclusões. Isto fica bem claro em Funeral de estado, um filme de duas horas e vinte minutos de projeção que permite ao espectador uma volta ao passado, através de imagens e sons. Nele é possível ouvir os alto-falantes colocados nas ruas de Moscou, durante as cerimônias fúnebres de Josef Stalin, e por meio dos quais não cessa a propaganda oficial, que inclusive define o morto como o maior gênio produzido pela Humanidade.
Para os que defendem a tese de que o documentário é o verdadeiro cinema, Funeral de estado, de Sergei Loznitsa, aparece como uma poderosa demonstração de que sua preferência é a correta, ou pelo menos representa uma tentativa de exaltar tal gênero, raramente ocupando espaço nas telas de cinema. Podendo ser visto em algumas plataformas, foi possível vê-lo no YouTube em sua versão integral. O filme, que foi exibido nos festivais de Veneza e Nova York, como convidado especial, também chegou ao Brasil nas telas apropriadas na mostra dedicada ao documentário em São Paulo, e também no Festival do Rio de Janeiro. Loznitsa, nascido em Belarus e integrado ao cinema da Ucrânia, tem se dedicado a realizar filmes a partir de material já existente, geralmente depositado em arquivos e praticamente esquecido. Em sua filmografia há um outro trabalho que focaliza, utilizando material de época, os infames processos realizados na década de 1930, quando, como realça Isaac Deutscher em sua Trilogia do profeta, foi morta toda a liderança da Revolução de 1917, com exceção de Lenin, falecido em 1924, e Trotski, assassinado depois no México em 1940, um episódio revelador e reconstituído em livros como A segunda morte de Ramon Mercader, de Jorge Semprún, e O Homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura, e também no filme O assassinato de Trotski, de Joseph Losey. O diretor costuma trabalhar com material original sem alterar nada, evitando comentários e deixando para o espectador as conclusões. Isto fica bem claro em Funeral de estado, um filme de duas horas e vinte minutos de projeção que permite ao espectador uma volta ao passado, através de imagens e sons. Nele é possível ouvir os alto-falantes colocados nas ruas de Moscou, durante as cerimônias fúnebres de Josef Stalin, e por meio dos quais não cessa a propaganda oficial, que inclusive define o morto como o maior gênio produzido pela Humanidade.
O material utilizado por Loznitsa estava depositado, e muito bem conservado como o espectador de hoje pode constatar, no Arquivo Estatal Russo do Cinema Documentário e Fotografia, localizado, em Krasnogorsk, uma cidade perto de Moscou. Tal fato deixa bem clara a importância das cinematecas e arquivos de conservação e certamente faz pensar no descaso com que tal patrimônio é aqui tratado e as dificuldades encontrados pelos interessados em conservá-lo. As imagens do filme são arrasadoras. Não deixam dúvida alguma sobe os resultados do culto à personalidade, ao focalizar multidões participando de um ritual que, mais do que ressaltar a figura do morto, tem o claro objetivo de exaltar o regime. E aí reside a maior curiosidade do filme. Tais imagens deveriam engrandecer o sistema comandado pelo chamado por seus seguidores em todo mundo de "guia genial dos povos".
Foi o tempo, bastante curto, aliás, que desmascarou tudo. Stalin morreu em 1953 e três anos depois, Nikita Khrushev, então secretário geral do partido comunista, em discurso pronunciado durante uma sessão do Politburo, denunciou os crimes praticados pelo ditador. E, sem dúvida, a presença de tal personagem como uma espécie de mestre de cerimônia durante os atos fúnebres confere uma certa ironia a tudo o que está sendo, hoje, mostrado. Observações feitas por alguns ressaltam que isso seria um problema no filme, pois exigiria do espectador conhecimento sobre o que aconteceu na então URSS. Loznoitsa responde a tais críticas com o texto que encerra o filme - a única intervenção do cineasta, e mesmo assim depois do material original ser utilizado - e no qual são citados os crimes de Stalin, entre os quais os milhões que morreram de fome na Ucrânia durante o Holodomor.
O cinema é importante por permitir, através da imagem, parte expressiva do processo destinado a definir e explicar um determinado período. Funeral de estado é um trabalho fascinante não apenas por reconstituir um passado e de certa maneira clarificar o que estava acontecendo: uma farsa destinada a manter um povo submisso e distante de certas verdades. O tempo terminou por desfazer todo um aparato, destinado a esconder o horror oculto pela propaganda oficial - a única permitida - e também diminuir a força da ingenuidade, tão aproveitada pelas diversas formas de autoritarismo.
 
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