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Cinema

- Publicada em 15/10/2021 às 03h00min.

Resumo e conclusão

Hélio Nascimento
Ao realizar este Cry macho, Clint Eastwood não apenas acrescenta um título à sua filmografia, uma das mais expressivas do cinema das últimas décadas. Coloca na tela uma espécie de síntese de toda a sua obra de cineasta e também a de ator, pois além de interpretar muitos de seus filmes também considera como seus mestres Sergio Leone e Don Siegel, com os quais certamente muito aprendeu antes de se tornar cineasta. E há também o português Manoel de Oliveira, que, segundo o diretor é também um modelo de apego ao cinema e resistência diante do passar do tempo. Quando realizou o filme atualmente em cartaz, Eastwood se aproximava dos 90 anos e tinha, portanto, todo o direito de nele ver uma espécie de testamento. Mais do que isso o filme confirma, através do retorno a diversos temas, a harmonia existente em toda a sua obra. Aqui estão novamente a presença simbólica de figuras familiares desaparecidas, o retorno de situações antes vividas, compromissos com o passado e a tentativa de voltar a arena onde feitos foram concretizados e uma lenda começou a ser criada. Centralizando seus relatos em figuras humanas, recusando todo e qualquer artificialismo, afastando-se de modismos e poses falsamente revolucionárias, o realizador concretizou uma obra sólida que, ao ser homenageada pelos organizadores do Festival de Cannes, foi classificada como uma mescla criativa de John Ford, Roberto Rossellini, Robert Bresson e Satyajit Ray. Ela não está completa, mas Cry macho, ao tecer esclarecedoras variações sobre temas antes abordados, a torna ainda mais rica.
Ao realizar este Cry macho, Clint Eastwood não apenas acrescenta um título à sua filmografia, uma das mais expressivas do cinema das últimas décadas. Coloca na tela uma espécie de síntese de toda a sua obra de cineasta e também a de ator, pois além de interpretar muitos de seus filmes também considera como seus mestres Sergio Leone e Don Siegel, com os quais certamente muito aprendeu antes de se tornar cineasta. E há também o português Manoel de Oliveira, que, segundo o diretor é também um modelo de apego ao cinema e resistência diante do passar do tempo. Quando realizou o filme atualmente em cartaz, Eastwood se aproximava dos 90 anos e tinha, portanto, todo o direito de nele ver uma espécie de testamento. Mais do que isso o filme confirma, através do retorno a diversos temas, a harmonia existente em toda a sua obra. Aqui estão novamente a presença simbólica de figuras familiares desaparecidas, o retorno de situações antes vividas, compromissos com o passado e a tentativa de voltar a arena onde feitos foram concretizados e uma lenda começou a ser criada. Centralizando seus relatos em figuras humanas, recusando todo e qualquer artificialismo, afastando-se de modismos e poses falsamente revolucionárias, o realizador concretizou uma obra sólida que, ao ser homenageada pelos organizadores do Festival de Cannes, foi classificada como uma mescla criativa de John Ford, Roberto Rossellini, Robert Bresson e Satyajit Ray. Ela não está completa, mas Cry macho, ao tecer esclarecedoras variações sobre temas antes abordados, a torna ainda mais rica.
Em filmes anteriores, como Os imperdoáveis, O mundo perfeito e Menina de ouro, o encontro de gerações diferentes, perdas emocionais e as exigências do passado eram temas predominantes. O terceiro citado, uma das obras-primas do cineasta, reunia todos eles e principalmente o da tentativa de trazer de volta um ser humano afastado do cotidiano do protagonista. O epílogo do filme, dotado de um impacto dramático incomum, não se transformava em punição, mas explicitava a intensidade do sofrimento causado por fatos que haviam condenado o protagonista à solidão. De uma ou outra maneira este é o tema que aparece nos filmes do diretor. Nele se encontra a meditação sobre a questão do assim chamado herói cinematográfico, aquele que investe sobre as imperfeições e age para exterminá-las, a fim de criar o reino do equilíbrio e da harmonia. Esta é a missão dos protagonistas do western clássico: corrigir erros e implantar na sociedade as leis de um paraíso recuperado. Os heróis e suas atuações são assim os agentes da civilização, construtores de sonhos e ao mesmo tempo repressores empenhados em cercar e aprisionar instintos e impulsos.
Todos esses motivos condutores aparecem em Cry macho de uma forma a encaminhar o filme para um final onde o tema da reconstrução da família humana se expande por toda a tela e até pela faixa sonora, infelizmente sonegada ao público no final dos créditos pelo cinema que exibe o filme. A utilização de Sabor a mi, de Álvaro Carrilo, surge como uma espécie de resposta a atitudes recentes destinadas a separar através de muros pessoas e povos. Ao focalizar um par, Eastwood não está apenas construindo um final feliz. Está reunindo o que foi separado e sutilmente mandando um recado aos intolerantes. Este epílogo aparece como uma conclusão lógica de uma série de filmes nos quais a ação nunca escondeu uma atitude destinada a realçar valores e impor a justiça. A queda reconstituída nas cenas iniciais marca o fim de uma carreira, acompanhada por imagens fixas, antes de o filme como um todo acompanhar um retorno que levará o protagonista a um novo ponto no qual outros valores serão defendidos e exaltados. Certamente não é por acaso que a rinha de galos será interrompida no momento da chegada do enviado paterno. E quando o relato se transforma num filme de estrada, a agressividade e o conflito aos poucos serão substituídas pela harmonia e o enriquecimento. É a trajetória no rumo da concretização de algo tão procurado: o fim das carências e dos vazios.
 
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