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Porto Alegre, sexta-feira, 14 de maio de 2021.
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Notícia da edição impressa de 14/05/2021.
Alterada em 14/05 às 03h00min

Vetos e mutilações

Numa época em temores renascem e ameaças surgem no horizonte, parece interessante rememorar o que aconteceu com o cinema há algumas décadas, sem esquecer que ele não foi a única vítima do atraso e do autoritarismo. Mas foi no cinema que a ira dos que chegaram a transformar a produção de Hollywood e revistas americanas no que então era chamada de conspiração comunista contra a democracia ocidental foi maior.
Numa época em temores renascem e ameaças surgem no horizonte, parece interessante rememorar o que aconteceu com o cinema há algumas décadas, sem esquecer que ele não foi a única vítima do atraso e do autoritarismo. Mas foi no cinema que a ira dos que chegaram a transformar a produção de Hollywood e revistas americanas no que então era chamada de conspiração comunista contra a democracia ocidental foi maior.
A lista de filmes então proibidas foi extensa e quase sempre marcada pelo ridículo, como a proibição de uma comédia de Claude Lelouch, só porque nos créditos finais aparecia o nome de Pelé entre as futuras vítimas de um atrapalhado grupo de sequestradores. Os alvos mais célebres da engrenagem em funcionamento foram Michelangelo Antonioni, Stanley Kubrick, Bernardo Bertolucci e Woody Allen. E mesmo depois que foi iniciada a abertura "lenta, gradual e segura", em 1974, quando logo no início foram liberados Bananas, de Allen, e A aventura é uma aventura, de Lelouch, alguns filmes enfrentaram dificuldades para ser exibidos, entre eles Casanova, de Federico Fellini, e Pra Frente Brasil, de Roberto Farias.
Esses métodos começaram a ser extintos quando foi criado o Conselho Superior de Censura, que tinha o poder de revisar atos proibitivos e permitir a exibição de filmes em determinadas salas. Com a Constituição de 1988, a censura foi transformada em ente apenas classificatório.
Essa espécie de temor diante de imaginário perigo que o cinema pode causar à sociedade não é privilégio de uma época ou de um país. Retrocedendo no tempo não é preciso ir longe para constatar tal fato. Em setembro de 1953, o cinema Central começava a exibir Essas mulheres, uma comédia de Christian Jacques. Era um grande sucesso de bilheteria, tendo permanecido meses em cartaz em Rio e São Paulo. Mas aqui o mesmo não aconteceu. Embora prestigiado pelo público, o filme despertou a ira de alguns e até mereceu discursos na Assembleia. O resultado é que a empresa distribuidora teve de retirar o filme de cartaz. Alguns anos mais tarde, retornou a ser exibido sem causar problema algum. Atualmente não passa de uma comédia a ser exibida na televisão em qualquer horário. Esse episódio revela de maneira eloquente como o passar do tempo coloca em posição desconfortável todos aqueles que em determinada época adotam a proibição de obras como recurso para impedir que o mundo e os costumes se transformem. A nova geração de espectadores tem também o privilégio de poder assistir a filmes sem cortes, o que era bastante comum antes, seja com a retirada de algumas imagens, como é mostrado em Cinema paradiso, de Giuseppe Tornatore, seja com a não tradução de alguns diálogos e até mesmo com alterações nos títulos, como aconteceu com o filme Che, uma produção da Fox realizada em 1969 e dirigida por Richard Fleischer, só liberada quando o título foi trocado para Causa perdida.
Ampliando o quadro, a História do Cinema registra cortes e proibições totais, ora por ordem de governos, ora por produtores, isso desde Outubro, de Serguei Eisenstein até A glória de um covarde, de John Huston. O primeiro teve todas cenas em que aparecia Leon Trotski suprimidas na sala de montagem por ordem do governo stalinista. O segundo, perdeu quase a metade do tempo de projeção, para que o público não percebesse as hesitações e o temor de um soldado norte-americano. Executivos da Metro, anos mais tarde, tentaram remontar o filme na forma original, mas os negativos das cenas cortadas nunca mais foram encontrados.
E há o caso de Soberba, de Orson Welles, vítima de produtores da RKO que exigiram uma cena final não filmada pelo diretor, além de diversos cortes, aproveitando a ausência do cineasta que se encontrava no Brasil. Vendo hoje o que sobrou, é possível imaginar o que seria o filme verdadeiro, não faltando quem veja no material sobrevivente os sinais da perdida maior obra do cinema-americano. O index cinematográfico é muito mais amplo e deixa explícito como, através dos tempos, certas imagens abalaram a cidadela da incultura e foram apagadas ou deformadas por ações de vândalos disfarçados de defensores da civilização.
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