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Porto Alegre, sexta-feira, 19 de março de 2021.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sexta-feira, 19 de março de 2021.
Notícia da edição impressa de 19/03/2021.
Alterada em 18/03 às 21h19min

Listas alteradas

Quando, em setembro de 2012, a revista londrina Sight & Sound, depois de consultas a críticos, historiadores e cineastas de diversos países, como faz de dez em dez anos, publicou a relação dos dez melhores filmes de todos os tempos, o editor daquela publicação confirmou que a grande novidade da relação era uma evidência de que novos conceitos estavam norteando aqueles de uma ou outra forma ligados ao cinema. A lista não é da revista, que, ao contrário de outras publicações, não se limita a consultar seus redatores e ouve um número bem maior de pessoas. A lista na verdade, é integrada por 100 títulos, devidamente relacionados, mas obviamente o destaque é dado aos dez primeiros colocados. Naquele ano o vencedor foi Vertigo, de Alfred Hitchcock, exibido no Brasil com o título de Um corpo que cai. A surpresa é que na nova lista Cidadão Kane, de Orson Welles, passou a ocupar o segundo lugar. Surpresa semelhante deve ter ocorrido quando, numa época anterior, O Encouraçado Potemkin, de Serguei Eisenstein, até então o ocupante do lugar mais destacado, cedeu o posto para o filme de Welles. Atualmente o filme de Eisenstein ocupa o décimo primeiro lugar.
Quando, em setembro de 2012, a revista londrina Sight & Sound, depois de consultas a críticos, historiadores e cineastas de diversos países, como faz de dez em dez anos, publicou a relação dos dez melhores filmes de todos os tempos, o editor daquela publicação confirmou que a grande novidade da relação era uma evidência de que novos conceitos estavam norteando aqueles de uma ou outra forma ligados ao cinema. A lista não é da revista, que, ao contrário de outras publicações, não se limita a consultar seus redatores e ouve um número bem maior de pessoas. A lista na verdade, é integrada por 100 títulos, devidamente relacionados, mas obviamente o destaque é dado aos dez primeiros colocados. Naquele ano o vencedor foi Vertigo, de Alfred Hitchcock, exibido no Brasil com o título de Um corpo que cai. A surpresa é que na nova lista Cidadão Kane, de Orson Welles, passou a ocupar o segundo lugar. Surpresa semelhante deve ter ocorrido quando, numa época anterior, O Encouraçado Potemkin, de Serguei Eisenstein, até então o ocupante do lugar mais destacado, cedeu o posto para o filme de Welles. Atualmente o filme de Eisenstein ocupa o décimo primeiro lugar.
Listas expressam não apenas gostos pessoais, pois devem refletir o resultado de observações e estudos sobre cada obra. A maioria dos espectadores deve ter ficado surpresa com o resultado da consulta, mas não aqueles que há muito tempo vinham acompanhando a obra de Hitchcock e tinham percebido em Vertigo um brilhante ensaio sobre a tentativa de recriar o passado, modelar o presente com material guardado na memória.
O escritor cubano Guillermo Cabrera Infante, que morreu no exílio em Londres, quando ainda estava em Havana exercia a crítica cinematográfica usando o pseudônimo de G. Caim. Quando Vertigo foi lançado em Cuba, ele não teve dúvida em afirmar que a obra de Hitchcock era um marco e o início de uma nova fase na história do cinema. Para quem não concordar com tal afirmação recomenda-se uma revisão de O ano passado em Marienbad, o segundo longa-metragem de Alain Resnais, no qual o mesmo tema, o da procura por uma volta ao anteriormente vivido, é retomado e desenvolvido de forma brilhante. Resnais, por sinal, não tem filme na lista, o que evidencia não apenas uma injustiça, pois também é a prova de que tal tipo de omissão evidencia precariedades no julgamento de muitos e até pode revelar limitações da crítica cinematográfica, que teve peso importante na escolha. Essencialmente, estamos falando de opiniões, sendo até mesmo importante destacar que discussões do gênero nunca terminarão. Porém, numa época em que produções hollywoodianas inexpressivas e que não passam de ampliações de jogos eletrônicos são tratadas como peças relevantes, quando apenas expressam o fascínio exercido por superficialidades, seria importante lembrar as restrições à crítica feitas há muitos anos por cineastas como Ingmar Bergman e pensadores do cinema como Paulo Emílio Salles Gomes.
Um pouco antes de interromper suas atividades devido a reformas no prédio onde está localizada, a Sala P. F. Gastal exibiu um ciclo dedicado ao cineasta Raoul Walsh. Mais ou menos na mesma época, o Centro Cultural do Banco do Brasil, em São Paulo, realizou uma mostra integral dos filmes de Vincente Minnelli. Em outros tempos tais eventos seriam impensáveis, pois tais diretores não estavam entre os cultuados pela crítica tradicional. Mas depois que muitos cineastas americanos foram tratados como mestres pela geração que começou a escrever nos anos de 1960, critérios foram alterados.
Na lista publicada pela Sight & Sound, Resnais e Bergman não aparecem entre os dez primeiros, o que quase desclassifica a relação. Uma outra evidência de que a falta de critério é uma grande ameaça. Mas não há reparação capaz de classificar como injusto o destaque dado a Hitchcock. Ele e outros cineastas subestimados em sua época tiveram de esperar muito tempo para ter seus méritos reconhecidos. Alguns não viram em vida tal reconhecimento. Mas sempre haverá os atentos a novas tendências e propostas inovadoras. E algumas surpresas serão inevitáveis. E espera-se, também, que injustiças sejam reparadas.
 
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