Corrigir texto

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Porto Alegre, sexta-feira, 12 de março de 2021.
Dia do Bibliotecário.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sexta-feira, 12 de março de 2021.
Notícia da edição impressa de 12/03/2021.
Alterada em 12/03 às 03h00min

Italianos esquecidos

Terminada a Segunda Guerra Mundial, o cinema italiano foi aquele que se destacou ao propor o que se chamou de neorrealismo. A queda do fascismo marcou também o fim do chamado ciclo do telefone branco, formado por filmes ambientados em locais luxuosos, cujos cenários eram sempre marcados por aqueles aparelhos, então um privilégio das classes mais abastadas. Os filmes tinham então objetivo de afastar o espectador da realidade. Porém, embora predominantes, eles não eram os únicos.
Terminada a Segunda Guerra Mundial, o cinema italiano foi aquele que se destacou ao propor o que se chamou de neorrealismo. A queda do fascismo marcou também o fim do chamado ciclo do telefone branco, formado por filmes ambientados em locais luxuosos, cujos cenários eram sempre marcados por aqueles aparelhos, então um privilégio das classes mais abastadas. Os filmes tinham então objetivo de afastar o espectador da realidade. Porém, embora predominantes, eles não eram os únicos.
Na época, como cantor, ator e também diretor, Vittorio de Sica já estava atuante, mesmo que realizando e interpretando filmes adaptados às circunstâncias, Roberto Rossellini dava os primeiros passos, e Luchino Visconti realizava em 1942 o filme que é tido como o primeiro neorrealista, Obsessão. Historiadores, no entanto, apontam outro filme, Sperduti nel buio, realizado em 1914 por Nino Martoglio, como o marco inicial da escola neorrealista.
Importante é lembrar que há uma corrente que aponta um filme francês, Toni, de Jean Renoir, realizado em 1934, como o verdadeiro precursor. Só Visconti, que foi assistente de Renoir na década de 1930, conhecia tal filme entre os italianos, o que o transforma assim no introdutor de tal método na Itália. Renoir chegou a falar, a propósito de Toni, num filme que passasse ao espectador a sensação de que não havia qualquer instrumento registrando as imagens e que ele estava contemplando a realidade. Terminada a guerra, a cinematografia italiana se impôs através de filmes hoje clássicos, como Ladrões de bicicletas, A terra treme, Roma, cidade aberta e muitos outros.
Porém, ao mesmo tempo em que colocava na tela temas antes não abordados, com a intenção de trazer para o cinema os problemas enfrentados pelos italianos no após-guerra, o cinema italiano também abriu espaço para uma outra corrente, hoje praticamente esquecida e integrada por nomes que preferiram outros caminhos, explorando as possibilidades de gêneros como o terror, o suspense, o policial e as narrativas inspiradas na mitologia. O western veio depois e até produziu um filme magnífico, Era uma vez no Oeste, de Sergio Leone, o mesmo que enriqueceria o cinema norte-americano com uma obra-prima do porte de Era uma vez na América. Uma curiosidade é que Leone, jovem e ainda magro, aparece numa ponta em Ladrões de bicicletas. É ele um dos padres que se abriga da chuva, junto com o protagonista e seu filho.
Além de Leone, que é um caso diferente, três nomes se destacaram por se afastarem do neorrealismo e com isso se tornado vítimas dos ataques dos entusiastas daquela escola: Riccardo Freda (1909-1999), Vittorio Cottafavi (1914-1998) e Duccio Tessari (1926-1994). Freda, que nasceu em Alexandria, realizou um filme no Brasil, O caçula do barulho, em 1949 e que tinha no elenco Anselmo Duarte, o futuro diretor de O pagador de promessas. Ele realizou em 1964, uma versão de Romeu e Julieta e um de seus filmes, O magnífico aventureiro, tinha como personagem principal Benvenuto Cellini. Cottafavi, que na televisão encenou peças de Sófocles, Ibsen e Pirandello, tem em sua filmografia uma versão de A dama das camélias, de Alexandre Dumas Filho, para a qual ele deu o título de La Traviata, o mesmo que Giuseppe Verdi escolheu para sua ópera baseada na mesma peça.
Os filmes desses realizadores nem eram abordados por críticos e um deles chegou a chamar Cottafavi de um dos cineastas misteriosos descobertos e elogiados por revistas francesas. Tal tendência da crítica fascinada pelos neorrealistas começou a mudar quando Tessari, em 1962, iniciou sua carreira com um filme divertido e inteligente, Os filhos do trovão, que chegou a ser incluído em listas de melhores do ano. Tessari, que havia trabalhado como jornalista esportivo e também atuado como assistente de Visconti e Cottafavi, realizou com este primeiro trabalho, uma divertida paródia dos filmes do gênero, mesclando figuras mitológicas com citações a fatos e personagens contemporâneos, ao mesmo tempo em que narrava uma história que tinha como tema central a luta contra a tiraria em diversos níveis. E para lembrar que aqui havia interesse por tais realizadores, deve ser registrado que O magnífico aventureiro e Os filhos do trovão foram exibidos pelo Clube de Cinema de Porto Alegre.
 
Comentários CORRIGIR TEXTO