Corrigir texto

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Porto Alegre, quinta-feira, 24 de dezembro de 2020.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
quinta-feira, 24 de dezembro de 2020.
Notícia da edição impressa de 24/12/2020.
Alterada em 23/12 às 21h18min

O outro Mank

Entre os motivos que fazem de Mank, o filme de David Fincher, um trabalho portador de vários elementos de interesse, está o de colocar perante o público o trabalho de criação de um roteirista. Mesmo que seja possível constatar que o cineasta não desenvolveu apropriadamente o tema, principalmente por não abordar a realização de Cidadão Kane, quando então seria possível constatar a elaboração que, partindo da palavra escrita chega ao visual, algo que deixaria explícito o papel preponderante do realizador cinematográfico. Nunca deveria ser diminuída a importância de um roteirista na elaboração de um filme, mas não parece haver dúvida de que um inepto, um medíocre ou mesmo um diretor pressionado por interesses distanciados da criação artística transformariam qualquer roteiro em matéria desprovida de méritos. A polêmica que procurou destacar o papel de Herman Mankiewicz na realização do primeiro filme de Welles não tinha o objetivo de destacar a importância do roteiro, algo que nunca foi esquecido, desde os créditos até premiações, mas sim tentar diminuir o papel do realizador do filme. Mankiewicz, por sua vez, nunca mais se destacou, ao contrário de Welles que, mesmo enfrenando uma série de dificuldades, deixou sua marca na História do Cinema.
Entre os motivos que fazem de Mank, o filme de David Fincher, um trabalho portador de vários elementos de interesse, está o de colocar perante o público o trabalho de criação de um roteirista. Mesmo que seja possível constatar que o cineasta não desenvolveu apropriadamente o tema, principalmente por não abordar a realização de Cidadão Kane, quando então seria possível constatar a elaboração que, partindo da palavra escrita chega ao visual, algo que deixaria explícito o papel preponderante do realizador cinematográfico. Nunca deveria ser diminuída a importância de um roteirista na elaboração de um filme, mas não parece haver dúvida de que um inepto, um medíocre ou mesmo um diretor pressionado por interesses distanciados da criação artística transformariam qualquer roteiro em matéria desprovida de méritos. A polêmica que procurou destacar o papel de Herman Mankiewicz na realização do primeiro filme de Welles não tinha o objetivo de destacar a importância do roteiro, algo que nunca foi esquecido, desde os créditos até premiações, mas sim tentar diminuir o papel do realizador do filme. Mankiewicz, por sua vez, nunca mais se destacou, ao contrário de Welles que, mesmo enfrenando uma série de dificuldades, deixou sua marca na História do Cinema.
O filme de Fincher tem entre os pontos que merecem destaque a presença, mesmo que em papel secundário, de Joseph L. Mankiewicz, irmão de Herman, e, este sim, um dos maiores nomes do cinema e que por sua fixação na palavra e mesmo no teatro soube transformar em imagens aquilo que um texto original propõe, enquanto espera sua transformação em imagens. Este outro Mankiewicz viveu entre 1909 e 1993. Sua primeira ligação com o cinema data da década de 1920, quando ele, ainda bem jovem vivia em Berlim, escrevendo as legendas de filmes silenciosos norte-americanos que eram exibidos na Alemanha. Para ele, esta foi a primeira constatação das dificuldades criadas pela ligação entre palavra e imagem. Isso porque, a tradução para a escrita que era possível ler na tela, também era uma síntese de diálogos não ouvidos e que necessitavam ser resumidos, sem que sua essência fosse alterada. Mas Mankiewicz não se limitava a tal tarefa. Dedicou também muita atenção ao teatro de Erwin Piscator e Bertolt Brecht. Mais tarde, como cineasta, a partir dos anos 1940, em Hollywood, ele nunca escondeu seu interesse pelo teatro, sempre fez filmes que evidenciavam suas ligações com a palavra, mas nunca realizou trabalhos submissos ao teatro. Homenageou em sua obra a teatralidade aproximando-a daquele realismo cênico típico do cinema. De certa maneira, ele esteve próximo a Kazan, Visconti e Bergman, nomes que também tiveram o teatro como base e souberam enriquecer o cinema ao medirem com segurança e lucidez as diferenças entre as duas formas de expressão, ao contrário dos que violam o teatro com artifícios permitidos por uma montagem artificial de planos.
O filme mais famoso de Mankiewicz é A malvada, produzido em 1950, que, não por coincidência, tem como protagonistas autores, atores, atrizes e diretores de teatro, não faltando mesmo um crítico que é o narrador da história. Geralmente é apontado como o melhor de sua filmografia, mas há quem prefira Dizem que é pecado, realizado um ano depois e tendo como base uma peça e um filme (outra ligação) de Curt Goetz. E sua versão de Júlio César, de Shakespeare, realizada em 1953, é outro notável exemplo de como transformar teatro em cinema. O realizador, ao substituir Rubem Mamoulian na realização de Cleópatra, terminou por ver frustrada sua intenção de homenagear Shakespeare, num filme dividido em duas partes, com um total de seis horas separadamente. Do filme mutilado em três horas pela Fox, muitas cenas não tiveram seu impacto anulado, entre elas o extraordinário movimento que afasta a câmera de Marco Antônio, impedindo que as palavra do discurso fúnebre cheguem ao púbico e que culmina na figura de um mudo. A palavra anulada pelo que é escondido pela retórica. Uma outra obra-prima é o opus derradeiro, Jogo mortal, produzido em 1973, versão de uma peça de Anthony Shaffer. Só dois atores em cena, vivendo vários papéis, exaltação da arte de interpretar e derradeira homenagem ao teatro, que não apenas num palco se concretiza.
 
Comentários CORRIGIR TEXTO
Hélio Nascimento
Hélio Nascimento
Um dos mais respeitados críticos de cinema em atividade, Hélio Nascimento analisa os melhores filmes em cartaz todas as sextas-feiras no Jornal do Comércio.