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Porto Alegre, sexta-feira, 18 de setembro de 2020.
Dia Nacional da Televisão.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sexta-feira, 18 de setembro de 2020.
Notícia da edição impressa de 18/09/2020.
Alterada em 18/09 às 03h00min

Correções e mutilações

O diretor Francis Ford Coppola anunciou há pouco que pretende lançar brevemente uma nova versão da terceira parte da trilogia exibida no Brasil com o título de O poderoso chefão. O fecho de tal trilogia, realizado em 1990, é visto por alguns como o mais fraco dos filmes que a integram. Tal posicionamento de vários críticos é certamente injusta ou então derivada de uma visão que costuma dividir filmes vistos como dotados de sequências boas e más, como se um relato cinematográfico pudesse ser julgado em partes e não como um todo no qual se refletisse uma visão da realidade. Porém, há os que defendem ardorosamente o capítulo final. Na verdade, a saga narrada por Coppola deve ser vista como um painel sobre as engrenagens que movem o mundo e certamente terá o poder de permitir a quem o vê atualmente como um poderoso instrumento destinado a iluminar um cenário dominado pela corrupção e a violência.
O diretor Francis Ford Coppola anunciou há pouco que pretende lançar brevemente uma nova versão da terceira parte da trilogia exibida no Brasil com o título de O poderoso chefão. O fecho de tal trilogia, realizado em 1990, é visto por alguns como o mais fraco dos filmes que a integram. Tal posicionamento de vários críticos é certamente injusta ou então derivada de uma visão que costuma dividir filmes vistos como dotados de sequências boas e más, como se um relato cinematográfico pudesse ser julgado em partes e não como um todo no qual se refletisse uma visão da realidade. Porém, há os que defendem ardorosamente o capítulo final. Na verdade, a saga narrada por Coppola deve ser vista como um painel sobre as engrenagens que movem o mundo e certamente terá o poder de permitir a quem o vê atualmente como um poderoso instrumento destinado a iluminar um cenário dominado pela corrupção e a violência.
Não é a primeira vez que Coppola apresenta ao público uma obra por ele mesmo alterada, através de uma nova montagem ou a inclusão de cenas antes suprimidas. Já havia feito isso com Apocalipse Now, produzido em 1979, para a insatisfação dos que haviam saudado como perfeita sua primeira visão da guerra do Vietnam, a partir de seu fascínio por Joseph Conrad. Ele tem direito a uma work in progress, mas certamente não serão unânimes as reações a mais esta alteração a um filme de valor incontestável.
No caso de Coppola o surgimento não decorre de uma ação do realizador em apresentar sua versão, alterada no lançamento por interesses dos produtores. Ridley Scott, por exemplo, alguns anos depois do lançamento de Blade Runner, em 1981, conseguiu que fosse exibida nos cinemas a versão original do filme. Na ocasião, o cineasta declarou que não renegava a versão anterior, mas que desejava que o público também conhecesse o que o havia impulsionado a realizar o filme.
Há casos semelhantes, mas nos quais o realizador não poderia, pela inevitável ação do tempo, participar da correção. Em A marca da maldade, de 1958, Orson Welles abria o filme com um notável plano-sequência na fronteira entre México e Estados Unidos, que na versão lançada na época vinha acompanhada pelos créditos. Welles, que na sua versão radiofônica de A guerra dos mundos só anunciava os créditos no final da transmissão, o que contribuiu para o pânico gerado, depois iria utilizar tal método também no cinema. Anos depois da estreia do filme no qual o próprio Welles interpretava um dos papéis principais, a empresa produtora editou nova versão com as imagens de abertura vistas integralmente e os créditos colocados no final. A segunda versão de Nasce uma estrela, filmada em 1954, foi lançada com cerca de uma hora cortada pela produtora e só décadas mais tarde o filme de George Cukor chegou aos cinemas numa versão quase completa, pois alguns negativos tinham sido perdidos e algumas cenas foram recolocadas apenas com a utilização de imagens fixas.
Um caso lamentável é o de A glória de um covarde, dirigido por John Huston em 1951. Depois de concluído e exibido em sessões privadas, nas quais foi saudado por alguns outros diretores como uma obra-prima, o filme foi mutilado pela Metro e exibido com cerca de uma hora de projeção. Décadas mais tarde, quando os realizadores passaram a ser valorizados por um público cada vez mais amplo, a empresa produtora resolveu editar a versão completa, destacando o nome de Huston. Mas os negativos haviam sido destruídos e a obra completa passou a integrar o grupo de filmes lendários jamais vistos. E sempre é bom lembrar que dos gênios criadores do cinema, Serguei Eisenstein, teve sua obra mais ambiciosa, Outubro, de 1927, mutilada pela censura soviética, a fim de que fossem retiradas todas as cenas em que aparecia Trotski.
Mais tarde, O prado de Bejin, que estava sendo realizado em 1935, teve as filmagens interrompidas por ordens do partido comunista e os negativos perdidos. Uma versão só com fotografias foi depois exibida com a explicação de que os negativos tinham sido queimados num bombardeio durante a guerra. Mais um filme que nunca será visto.
 
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