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Porto Alegre, sexta-feira, 07 de agosto de 2020.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sexta-feira, 07 de agosto de 2020.
Notícia da edição impressa de 07/08/2020.
Alterada em 07/08 às 17h46min

Cenas

Diretor britânico Alan Parker, falecido à semana passada, teve carreira irregular

Diretor britânico Alan Parker, falecido à semana passada, teve carreira irregular


CARL COURT/AFP/JC
O diretor britânico Alan Parker, falecido à semana passada, teve carreira irregular, mas não lhe faltou ousadia. Sua filmografia foi iniciada, em 1976, com uma delas. Embora não original - nos primórdios do cinema foram feitas versões infantis de alguns filmes - Bugsy Malone era um policial interpretado por crianças.
O diretor britânico Alan Parker, falecido à semana passada, teve carreira irregular, mas não lhe faltou ousadia. Sua filmografia foi iniciada, em 1976, com uma delas. Embora não original - nos primórdios do cinema foram feitas versões infantis de alguns filmes - Bugsy Malone era um policial interpretado por crianças.
Ele abordou vários gêneros, entre eles o musical, em três oportunidades, Fama, em 1980; Pink Floyd the Wall, em 1982, e Evita, em 1996. Mas suas duas maiores obras pertencem a outro gênero. Coração satânico, realizado em 1987, e, principalmente, Mississipi em chamas, em 1989. Este é seu melhor filme e bem merecia uma reapresentação numa época em que tanto se debate o tema do racismo. Reconstituindo um fato real, o assassinato de ativistas pelos direitos humanos por racistas, Parker coloca em cena duas ações diferentes durante a investigação, feita por dois agentes do FBI. Um deles é um servo da lei e que procura agir dentre dos limites impostos pelas normas que orientam a ação policial. O outro prefere caminhos diferentes e chega mesmo a organizar um teatro no qual os racistas provam do próprio veneno.
O filme tem sequências notáveis, inclusive aquela no qual, ao ter início a encenação, um dos criminosos se depara com um inimigo inesperado. O filme não recua diante de certas complexidades e expõe, através do cenário, a ruína de uma sociedade, materializada na casa quase destruída. Parker também foi diretor do British Film Institute (BFI), entidade que se dedica a preservar e exibir clássicos do cinema e ultimamente também tem participado da produção de filmes.
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Listas de melhores ou indicação de clássicos nunca serão perfeitas ou completas. Mas nada impede que se procure, pelo acréscimo de alguns títulos, tentar corrigir ou impedir injustiças. Assim, seria interessante acrescentar à lista da semana passada mais alguns títulos que deixaram sua marca no desenvolvimento de nosso cinema e que mereciam ser mais lembrados pelas plataformas de exibição que, nos últimos meses, têm substituído as telas dos cinemas. Se muitos preferem as chanchadas da Atlântida, outros apontam Tudo azul, realizado em 1951 por Moacyr Fenelon, como o melhor do gênero realizado por nosso cinema. Exibido em mostra paralela no Festival de Gramado, o filme despertou o entusiasmo de alguns espectadores e se podia ouvir comentários dos que pediam que o filme fosse exibido na sala principal.
Mesclando fantasia e realidade, o filme atinge a essência do gênero. Competência e segurança narrativa não faltam à obra de Roberto Farias, o realizador de Assalto ao trem pagador e Selva trágica, o primeiro realizado em 1962 e o segundo em 1964. Os dois primeiros filmes de Murilo Salles, Nunca fomos tão felizes e Faca de dois gumes, o primeiro de 1984 e o segundo de 1989, eram exemplos de como a imagem é poderoso elemento revelador de angústias e perplexidades humanas.
Arnaldo Jabor, em 1973, baseado em peça de Nelson Rodrigues, demostrou que é possível falar de repressão tendo o núcleo familiar como cenário. O filme Toda nudez será castigada foi premiado em Gramado e a seguir proibido pela censura.
Luís Sérgio Person com O caso dos Irmãos Naves, realizado em 1967, atualizou fatos ocorridos na ditadura do Estado Novo para estabelecer analogias com a de 1964, corrigindo assim o esquecimento de muitos cuja memória está concentrada na segunda delas. E não pode ser esquecido O cangaceiro, de Lima Barreto, produzido pela Vera Cruz em 1953 e o primeiro filme brasileiro a ser premiado em Cannes, como narrativa de aventura.
Sylvio Back, em 1976, com Aleluia, Gretchen, relevou o fascínio que o Nacional Socialismo dos anos 1930 exercia em setores da nossa sociedade, numa espécie de profecia do que andou sendo revelado há pouco tempo. Quanto a O pagador de promessas, de Anselmo Duarte, vencedor em Cannes no ano de 1962, este tem lugar assegurado entre os momentos mais relevantes de nosso cinema - e não apenas pela Palma de Ouro. Mesmo que a inveja de muitos, na época, tenha sido grande - o júri chegou a ser acusado de demência por um de nossos críticos - o filme ostentava a virtude maior de ser acessível a todos, sem concessões à vulgaridade, algo tão praticado nos dias atuais.
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