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Porto Alegre, sexta-feira, 24 de julho de 2020.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sexta-feira, 24 de julho de 2020.
Notícia da edição impressa de 24/07/2020.
Alterada em 24/07 às 03h00min

Censura

Há alguns anos, a Screen Digest, uma publicação londrina especializada em dados estatísticos, publicou uma lista dos filmes que obtiveram o maior público em toda a História do Cinema. O critério utilizado não levou em consideração os valores recentemente divulgados e sim o número de ingressos vendidos. No primeiro lugar da lista apareceu o filme E o vento levou, que, como se sabe, foi assinado por Victor Fleming e também teve cenas dirigidas por George Cukor, Sam Wood e William Cameron Menzies. No seu Dicionário de cinema, Jean Tulard, que escreve palavras simpáticas a Fleming por causa de outros trabalhos, diz que a produção de David O'Zelznick é o pior filme do cineasta. É uma opinião, com a qual o público não concorda. De certa forma ela é injusta por não levar em consideração que Fleming não dirigiu todo o filme e que o produtor também foi responsável por algumas cenas e até pela edição final.
Há alguns anos, a Screen Digest, uma publicação londrina especializada em dados estatísticos, publicou uma lista dos filmes que obtiveram o maior público em toda a História do Cinema. O critério utilizado não levou em consideração os valores recentemente divulgados e sim o número de ingressos vendidos. No primeiro lugar da lista apareceu o filme E o vento levou, que, como se sabe, foi assinado por Victor Fleming e também teve cenas dirigidas por George Cukor, Sam Wood e William Cameron Menzies. No seu Dicionário de cinema, Jean Tulard, que escreve palavras simpáticas a Fleming por causa de outros trabalhos, diz que a produção de David O'Zelznick é o pior filme do cineasta. É uma opinião, com a qual o público não concorda. De certa forma ela é injusta por não levar em consideração que Fleming não dirigiu todo o filme e que o produtor também foi responsável por algumas cenas e até pela edição final.
O filme, que na semana passada foi exibido pela televisão da Ufrgs, talvez tenha sido o mais reprisado pela Metro, que também foi sua produtora, distribuidora e exibidora, pois a companhia controlava a programação de centenas de cinemas em todo o mundo, inclusive aqui em Porto Alegre, onde seus filmes eram exibidos pelo Avenida e pelo Colombo. Desde suas primeiras exibições, mesmo ressaltando seus inegáveis méritos de produção e valores espalhados por toda a narrativa, muitos críticos têm apontado no filme a criação de um mundo irreal e mesmo a caricatura nas ligações entre personagens. E todos sabem que uma de suas intérpretes, Hattie McDaniel, que iria receber o Oscar de coadjuvante, não pode comparecer, por ser negra, à estreia do filme em Atlanta.
As imagens do assassinato de um homem negro por um policial branco vistas em todo o mundo deram origem a protestos e a rituais de iconoclastia justificáveis, mas também trouxe de volta um fantasma diante do qual devem se erguer todos aqueles que sempre combateram a censura. É que na onda de indignação criada pela barbárie vista pela televisão surgiram reações dirigidas contra aquela produção realizada no ano de 1939. A empresa que atualmente detém os direitos de exibição por streaming retirou o filme de seu catálogo e depois, certamente alertada por reações negativas, anunciou que o recolocaria na lista acompanhado de uma apresentação elucidativa. Diante de tal fato é necessário destacar que o recurso de impedir a exibição de qualquer obra cinematográfica sempre revela o medo de que espetadores sejam transformados em personagens negativos ou tenham sua personalidade modificada por supostas mensagens contidas nas imagens e situações de algum filme.
Na verdade, o que existe é uma dificuldade de discernir entre causa e efeito, pois não são certos filmes que criaram o racismo e se eles não forem vistos uma das faces do preconceito será ignorada. É preciso ressaltar que são as reações em sentido contrário que precisam ser conhecidas e valorizadas, como as expressas em filmes como A luz é para todos, de Elia Kazan; O ódio é cego, de Joseph L. Mankiewicz; Acorrentados, de Stanley Kramer. Vale mais valorizar certos filmes do que retirar obras de qualquer tela.
Aqui no Brasil episódios lamentáveis foram registrados numa época em que espectadores adultos eram impedidos de ver obras que em outros países famílias viam em companhia de seus filhos. Um desses filmes foi A aventura é uma aventura, de Claude Lelouch, que integrou uma lista de 10 proibições em 1973. O motivo? O filme, que era uma comédia, tinha como personagens atrapalhados especialistas em sequestros. E nos créditos finais, vistos por poucos, aparecia uma lista de futuros visados pelo grupo, entre eles Pelé. Liberado no ano seguinte, depois da troca do governo, o filme foi exibido regularmente e não há notícia de que algum mal tenha sido por ele causado. Gravuras de Picasso e cartas de James Joyce fizeram companhia a filmes de Stanley Kubrick, Bernardo Bertolucci, Michelangelo Antonioni e muitos outros. O cenário era vergonhoso. Mais do que importante é essencial que, seja qual for o pretexto, ele não se repita.
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