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Porto Alegre, sábado, 18 de julho de 2020.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sábado, 18 de julho de 2020.
Notícia da edição impressa de 03/07/2020.
Alterada em 03/07 às 03h00min

O tesouro

Entre um prólogo, no qual se inserem imagens de uma das fases mais dramáticas da história norte-americana, e um epílogo, integrado por cenas nas quais coloca seu protesto e seu desejo por uma civilização na qual predominem valores antes e atualmente ameaçados, o diretor Spike Lee brinda o espectador com um longa-metragem no qual seu talento de encenador é evidente em todas as cenas. São raros os filmes nos quais a dramaticidade se mantém em toda a narrativa, até porque o realizador de Destacamento Blood é daqueles que sabem que são necessárias algumas pausas, a fim de que a monotonia não apareça pelo excesso de ênfases. O importante é que as imagens e as situações focalizadas não afastem a tensão tão necessária a um relato como este. Lee, como se sabe, além de cineasta, é um combatente de uma causa. Mesmo seus admiradores reconhecem que por vezes o diretor se deixa levar pela tentação do discurso e não resiste aos apelos de certas simplificações. Mas sua filmografia registra momentos dos mais respeitáveis, como Malcom X, O verão de Sam e O plano perfeito. Este último merece ser incluído entre os melhores até hoje realizados a partir do tema do assalto, desenvolvido antes por nomes como John Huston, Stanley Kubrick, Jules Dassin e Quentin Tarantino. Seu novo filme, sem exagero algum, mesmo que não seja um relato integralmente dedicado a reconstituir um conflito armado, é um dos melhores até hoje feitos no gênero, pois não é limitado pela reconstituição de fatos e procura, a partir deles, explorar reações humanas reveladoras de causas quase sempre ocultas.
Entre um prólogo, no qual se inserem imagens de uma das fases mais dramáticas da história norte-americana, e um epílogo, integrado por cenas nas quais coloca seu protesto e seu desejo por uma civilização na qual predominem valores antes e atualmente ameaçados, o diretor Spike Lee brinda o espectador com um longa-metragem no qual seu talento de encenador é evidente em todas as cenas. São raros os filmes nos quais a dramaticidade se mantém em toda a narrativa, até porque o realizador de Destacamento Blood é daqueles que sabem que são necessárias algumas pausas, a fim de que a monotonia não apareça pelo excesso de ênfases. O importante é que as imagens e as situações focalizadas não afastem a tensão tão necessária a um relato como este. Lee, como se sabe, além de cineasta, é um combatente de uma causa. Mesmo seus admiradores reconhecem que por vezes o diretor se deixa levar pela tentação do discurso e não resiste aos apelos de certas simplificações. Mas sua filmografia registra momentos dos mais respeitáveis, como Malcom X, O verão de Sam e O plano perfeito. Este último merece ser incluído entre os melhores até hoje realizados a partir do tema do assalto, desenvolvido antes por nomes como John Huston, Stanley Kubrick, Jules Dassin e Quentin Tarantino. Seu novo filme, sem exagero algum, mesmo que não seja um relato integralmente dedicado a reconstituir um conflito armado, é um dos melhores até hoje feitos no gênero, pois não é limitado pela reconstituição de fatos e procura, a partir deles, explorar reações humanas reveladoras de causas quase sempre ocultas.
Destacamento Blood é também, como não poderia deixar de ser ao abordar tal tema, uma crítica a certos filmes populares destinados a criar heróis através dos quais o cinema americano tentou vencer nas telas uma guerra perdida. Mas não foram apenas filmes destinados a um público desatento e desinformado que foram realizados. Alguns abordaram a guerra do Vietnã de forma lúcida e honesta. Entre estes filmes, o maior deles é Apocalypse now, de Francis Ford Coppola, uma obra que serve de base para o trabalho de Lee. Isto fica bem claro até pelo nome do bar visitado pelos amigos e também num plano em que aparece um helicóptero diante do sol. E o cineasta, para reforçar a referência, utiliza a célebre sequência do terceiro ato de A valquíria, a segunda ópera da tetralogia wagneriana iniciada pela que tem o título de O ouro do Reno, algo que faz uma forte ligação com Destacamento Blood. O cineasta utiliza tal tema no início da viagem dos quatro amigos e mais o filho de um deles, como se as personagens da ópera, estivessem em cena, levando os protagonistas a seu destino. Uma referência ainda mais forte é feita a O tesouro da Sierra Madre, do já citado John Huston, que parece ser uma das admirações do cinéfilo Spike Lee. Estamos outra vez diante do tema da busca da riqueza, mas não é apenas ele que o filme desenvolve.
Desde a cena inicial, é facilmente percebido que o personagem de Delroy Lindo, até pela referência a Donald Trump, é um integrante dissonante no quarteto. Aos poucos, a começar pela cena do menino aleijado, são evidentes a agressividade e o desequilíbrio emocional. Depois, na barca, o conflito se torna ainda maior. É como se a guerra retornasse e a violência começasse a impor suas leis. As guerras não terminam, parece dizer o cineasta, que também é um dos roteiristas do filme. No livro que serviu de inspiração para o filme de Coppola e também ao de Lee, a viagem termina levando o leitor e espectador para o reino da barbárie. Aqui, além do ouro, que deverá agora ser utilizado em causas justas, o objetivo dos antigos combatentes é encontrar os restos mortais do líder do grupo, abatido em combate. Depois que tudo é revelado, o filme expõe o drama do personagem de Lindo, que a partir de determinado ponto parece reencenar a trajetória de Humphrey Bogart no filme de Huston. A sequência, por sinal, é uma das mais impressionantes do filme, uma dessas nas quais a participação ator é uma peça fundamental. E ao concluir a narrativa com uma espécie de apelo, o cineasta, antes de acontecimentos recentes, procura construir uma barreira diante da desumanidade que parece mais poderosa a cada dia.
 
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