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Porto Alegre, sexta-feira, 13 de março de 2020.

Jornal do Comércio

Notícia da edição impressa de 13/03/2020.
Alterada em 13/03 às 03h00min
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A marcha da desumanidade

Ken Loach, aos 83 anos, permanece fiel a um estilo que privilegia o personagem, revela em todos os momentos a importância da cena realista, ao mesmo tempo em que, numa época em que superficialidades e primarismos distorcem a função essencial do cinema, permanece fiel a uma escola britânica que tem suas raízes no ciclo de documentários incentivados por John Grierson nos anos 30 do século passado. Embora realize obras de ficção, Loach sempre procurou em seus filmes captar a essência daquele ciclo permitido pelo financiamento do organismo estatal General Post Office, que deu origem ao Film Unit, responsável por uma série de trabalhos que só tem equivalente na escola holandesa e influenciou documentaristas de todo o mundo. Os documentaristas britânicos daquela época, aos quais se juntou o brasileiro Alberto Cavalcanti, tinham como principal objetivo o trabalho humano, a focalização do esforço de trabalhadores anônimos, seja no mar, nas minas, nos campos, nas cidades ou a bordo de trens, como na obra-prima Night Mail, assinada por Harry Watt e Basil Wright e no qual tiveram participação decisiva Cavalcanti, o compositor Benjamin Britten e o poeta W.A. Auden.
Ken Loach, aos 83 anos, permanece fiel a um estilo que privilegia o personagem, revela em todos os momentos a importância da cena realista, ao mesmo tempo em que, numa época em que superficialidades e primarismos distorcem a função essencial do cinema, permanece fiel a uma escola britânica que tem suas raízes no ciclo de documentários incentivados por John Grierson nos anos 30 do século passado. Embora realize obras de ficção, Loach sempre procurou em seus filmes captar a essência daquele ciclo permitido pelo financiamento do organismo estatal General Post Office, que deu origem ao Film Unit, responsável por uma série de trabalhos que só tem equivalente na escola holandesa e influenciou documentaristas de todo o mundo. Os documentaristas britânicos daquela época, aos quais se juntou o brasileiro Alberto Cavalcanti, tinham como principal objetivo o trabalho humano, a focalização do esforço de trabalhadores anônimos, seja no mar, nas minas, nos campos, nas cidades ou a bordo de trens, como na obra-prima Night Mail, assinada por Harry Watt e Basil Wright e no qual tiveram participação decisiva Cavalcanti, o compositor Benjamin Britten e o poeta W.A. Auden.
Todos esses filmes do movimento integram um dos maiores momentos da História do Cinema e deixaram uma marca tão importante como a do neorrealismo italiano. Ao ressaltar o trabalho humano e o cotidiano de existências anônimas, tais obras ergueram um monumento que dignifica o esforço humano ao mesmo tempo em que traziam para a tela uma realidade até então ausente, ou então marcada por palavras de ordem ou por um simbolismo nem sempre bem aplicado.
Loach procura recriar aquele cinema. Mas não o faz de forma saudosista e sim de maneira a acentuar a rudeza e a desumanidade paralelamente surgidas numa fase na qual indivíduos são transformados em títeres de uma tecnologia eficiente em termos de agilidade e precária no que diz respeito ao respeito pelo ser humano. Loach acredita, também, num cinema que dispensa o discurso. É através da trajetória de personagens que ele expõe as deficiências do sistema. O cineasta é fascinado pelas vítimas da engrenagem. Loach se afasta do painel e procura poucos personagens. Sua força vem da capacidade de anular o que se chama de interpretação, trocada por uma força de atuação que substitui o ator e a atriz por figuras humanas que parecem ser indivíduos flagrados pela câmera de um documentarista invisível. De certa forma, eis a essência do cinema, o fundamental ponto de partida. Alguns, como, por exemplo, Visconti, acrescentaram a força da encenação do cinema e do teatro a este ponto fundamental. Loach permanece fiel a ele, ressaltando sua importância de luz indispensável.
O novo filme do cineasta, Você não estava aqui, trata do tema da ilusão perdida, uma referência a outro grande realista que foi Balzac. Seu protagonista acredita na independência de atuação e aos poucos vai sendo tragado pela realidade dura e implacável. Loach não permanece na superfície deste mar de desumanidade. Ao registrar a desintegração da harmonia familiar, ele tece variações sobre o tema primordial, captando a agressividade que começa a comandar as agressões verbais e físicas, geradas pela distância criada pelas exigências de normas que afastam um ser humano do outro. Ao colocar em cena uma cuidadora de idosos e doentes, o diretor fala também de um mundo fragilizado pela ação do tempo e incapaz de resolver problemas fundamentais.
É uma posição do cineasta. Concordando ou não com ela, é impossível não aceitar que ele completa aquele pensamento do então jovem Marx, geralmente citado pela metade pelos interessados em atividade partidária e que omitem a conclusão que afirma ser o radicalismo, que não deve ser confundido com extremismo, válido apenas quando constata que a raiz de tudo é o próprio ser humano. É o que Loach faz em todo o filme e principalmente quando, no epílogo, flagra o desespero rumando para o ponto final de uma jornada sem horizonte. Resta acrescentar que o filme é mais uma peça de resistência numa fase em que cinema vem sendo dominado por propostas destinadas a transformar o espectador em servo de uma engrenagem voltada para o empobrecimento mental e para a fragilização da sensibilidade.
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