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Porto Alegre, sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020.

Jornal do Comércio

Notícia da edição impressa de 28/02/2020.
Alterada em 28/02 às 03h00min
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Resistências

Todos aqueles que, com razão, reclamam do emprego excessivo dos chamados efeitos especiais, transformados em arma preferida da mediocridade e da vulgaridade, deveriam exercitar seu protesto prestigiando filmes que se colocam como obstáculos a essa onda de artificialismo e de demagogia visual e sonora que tem assolado o cinema nos últimos tempos. Os efeitos possibilitados pela tecnologia não devem ser desprezados, pois quando empregados com inteligência podem causar impacto e contribuir para a realidade essencial ao cinema. Sam Mendes, em 1917, mostrou como o mais convincente realismo pode ser atingido quando uma equipe técnica é orientada de forma correta. Há outros exemplos a serem citados, mas não há dúvida de que nos últimos anos tem predominado a falta de imaginação e, de certa forma, uma utilização de métodos que subestimam a inteligência do público, isso para não falar de uma clara intenção de formar plateias desinteressadas em temas que exigem atenção. Mesmo a fantasia, esse elemento essencial, tem sido manipulada de forma quase sempre grosseira. É necessário, portanto, que os filmes que se opõem à tendência predominante sejam prestigiados. Cabe ao público dar a resposta, até porque o silêncio, traduzido pela ausência, pode significar concordância.
Todos aqueles que, com razão, reclamam do emprego excessivo dos chamados efeitos especiais, transformados em arma preferida da mediocridade e da vulgaridade, deveriam exercitar seu protesto prestigiando filmes que se colocam como obstáculos a essa onda de artificialismo e de demagogia visual e sonora que tem assolado o cinema nos últimos tempos. Os efeitos possibilitados pela tecnologia não devem ser desprezados, pois quando empregados com inteligência podem causar impacto e contribuir para a realidade essencial ao cinema. Sam Mendes, em 1917, mostrou como o mais convincente realismo pode ser atingido quando uma equipe técnica é orientada de forma correta. Há outros exemplos a serem citados, mas não há dúvida de que nos últimos anos tem predominado a falta de imaginação e, de certa forma, uma utilização de métodos que subestimam a inteligência do público, isso para não falar de uma clara intenção de formar plateias desinteressadas em temas que exigem atenção. Mesmo a fantasia, esse elemento essencial, tem sido manipulada de forma quase sempre grosseira. É necessário, portanto, que os filmes que se opõem à tendência predominante sejam prestigiados. Cabe ao público dar a resposta, até porque o silêncio, traduzido pela ausência, pode significar concordância.
Três filmes recentemente lançados mereciam atenção maior do que a que têm recebido. Um deles é o desenho animado de Michel Ocelot Dilili em Paris. No gênero, é um dos melhores já feitos. De grande beleza plástica, reconstitui a Belle Époque e coloca na tela as mais destacadas figuras do período, nas artes, na técnica e na ciência, ao mesmo tempo em que condena severamente todas as formas de autoritarismo. É um filme dirigido a todos os públicos, sem nenhum receio em colocar na tela referências a expressões culturais do período. Os outros dois são O jovem Ahmed, de Jean-Pierre e Luc Dardene, e Frankie, de Ira Sachs. Os dois foram selecionados para a mostra principal do Festival de Cannes, sendo que o dos irmãos belgas recebeu o prêmio de melhor direção. São obras voltadas para uma das principais funções do cinema: colocar na tela seres humanos e não títeres destinados a externar opiniões de seus diretores. Importa é a trajetória reveladora de personagens. Os Dardene acompanham um menino desde a fase de radicalismo até o momento de transformação. Ao mesmo tempo, o filme é uma crônica destinada a realçar a importância de uma resposta lúcida por parte da civilização diante da violência. A dor causada pela queda é também o início de uma reconciliação, ressaltada, nos créditos finais pelo humanismo de um adágio schubertiano.
Frankie, de Ira Sachs, cujo roteiro foi escrito pelo próprio diretor e o brasileiro Maurício Zacharias, lembra de certa forma alguns filmes de Robert Altman e também pode ter tido como modelo O reencontro, de Lawrence Kasdan. Um grupo familiar e também amigos se reúnem em Sintra atendendo a um convite de uma famosa atriz francesa, cuja carreira não se limitou a seu país. Ela está vivendo seus últimos dias, mas antes de ser derrotada pelo câncer tentará resolver alguns problemas, que são, na verdade, mais complexos do que imaginava. O diretor Sachs é, inegavelmente, um realizador que valoriza seus intérpretes, todos excelentes, aparecendo em cena de forma a transformar suas atuações em verdadeiras aulas sobre como atuar em cinema. O filme é povoado por personagens de grande autenticidade. Por vezes é o silêncio que se transforma em poderoso instrumento que traduz para a imagem o drama de cada figura. A cena em que Isabelle Huppert observa o diálogo da amiga com o marido é perfeita e não necessita da palavra para que seja externado o que cada personagem, principalmente a protagonista, está pensando. O plano de encerramento, de grande beleza, é um final digno do filme, que, por coincidência, também termina com Schubert, cuja música já havia sido utilizada antes, como parte da ação, na bela cena do casal ao piano, um momento no qual são valorizados elementos visuais e sonoros para expressar sentimentos não captados pela palavra.
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Hélio Nascimento
Hélio Nascimento
Um dos mais respeitados críticos de cinema em atividade, Hélio Nascimento analisa os melhores filmes em cartaz todas as sextas-feiras no Jornal do Comércio.