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Porto Alegre, quarta-feira, 22 de julho de 2020.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
quarta-feira, 22 de julho de 2020.
Notícia da edição impressa de 21/02/2020.
Alterada em 21/02 às 03h00min

Uma aventura na Belle Époque

O desenho animado, desde seus primeiros momentos, sempre foi o reino da fantasia. São muitos os exemplos que confirmam tal afirmação e não são poucos os títulos que reforçam a ideia de que este gênero, em princípio dedicado aos espectadores que estão nos primeiros passos de sua trajetória como prisioneiros do fascínio cinematográfico, é dono de uma riqueza inesgotável, que por vezes, como agora neste maravilhoso Dilili em Paris, expande seu poder encantatório e se transforma em espetáculo para todos os públicos.
O desenho animado, desde seus primeiros momentos, sempre foi o reino da fantasia. São muitos os exemplos que confirmam tal afirmação e não são poucos os títulos que reforçam a ideia de que este gênero, em princípio dedicado aos espectadores que estão nos primeiros passos de sua trajetória como prisioneiros do fascínio cinematográfico, é dono de uma riqueza inesgotável, que por vezes, como agora neste maravilhoso Dilili em Paris, expande seu poder encantatório e se transforma em espetáculo para todos os públicos.
Michel Ancelot, o realizador do filme, tem 76 anos, nasceu na França e foi criado na África, daí seu interesse por personagens não europeus. No caso do desenho atual, a protagonista é uma menina da Nova Caledônia, território francês no Pacífico Sul, mas a ação transcorre na Paris da Belle Époque, numa espécie de encontro de culturas e no qual figuras importantes daquela fase, inclusive Santos Dumont, desfilam e se transformam em personagens importantes. O filme, que é uma verdadeira festa para os olhos, acumula inúmeras influências e sugestões fornecidas por clássicos do cinema e obras de outras artes e merece desde já a inclusão entre os melhores momentos do desenho animado. Quando o vimos, a sala que exibia o filme, dotada de uma projeção excelente, estava praticamente vazia, uma injustiça que esperamos ter sido corrigida por aquele público sempre interessado em prestigiar um cinema afastado da vulgaridade. Não ver este filme é perder a oportunidade de conhecer um dos melhores desenhos cinematográficos já realizados.
São muitas as referências durante a ação. Algumas delas talvez possam ser feitas pelo próprio espectador. Uma delas é o balé que encerra Sinfonia de Paris, de Vincente Minnelli, no qual a reunião do coreógrafo Gene Kelly, do fotógrafo John Alton e da desenhista Irene Sharaff permitiam que aparecessem e se movimentassem célebres figuras da época, entre elas o célebre Chocolat, que no desenho de Ancelot é devidamente homenageado, depois de ter sido personagem de Toulouse-Lautrec. O pintor não é a única figura lembrada. Estão também no desenho celebridades como Marcel Proust, que aparece ao lado de seu companheiro Reynaldo Hahn, compositor nascido na Venezuela, o já citado Lautrec, a soprano Emma Calvé, que aparece num ensaio ao lado de Claude Debussy. Também presente, o compositor Eric Satie, que tem uma de suas Gnossiennes utilizada numa cena, Rodin e Camille Claudel, Picasso, então um jovem pintor, Marie Curie, além do já lembrado Dumont, sem esquecer a referência a Ferdinand von Zeppelin, que também participa, mesmo que de forma indireta, na aventura de Dilli. Reconstituindo outro período, Woody Allen havia utilizado recurso semelhante em Meia-noite em Paris, filme no qual a fantasia igualmente exercia papel decisivo.
As homenagens e citações são muitas, mas elas não se constituem em mérito único do filme. As imagens são belíssimas e devidamente valorizadas na sala que estava - e esperamos que ainda esteja - exibindo o filme. Esta aventura, além de ressaltar a universalidade da arte e da ciência, também transforma em criaturas de esgoto os adeptos da repressão e os praticantes da misoginia. A engrenagem posta em funcionamento com o objetivo de transformar as meninas sequestradas em objeto e vítimas de humilhação talvez seja uma referência a O terceiro homem, de Carol Reed, no qual um falsificador de remédios atuava em cenário semelhante.
A arte de Ancelot não é limitada pelas leis que definem a que faixa etária certos filmes são indicados. Eis um filme para qualquer público. Sua beleza plástica não deve deixar alguém indiferente na plateia e sua trama fácil de ser acompanhada é certamente um estímulo a ser valorizado. O filme também é um exemplo de resistência, na medida em que se afasta da vulgaridade e das facilidades. O desenho animado permite que a imaginação não se detenha diante de obstáculos. A fantasia possibilita que sonhos sejam concretizados e visões transformadas em realidade. No filme de Ancelot arte, ciência e técnica se unem para corrigir distorções e impor a justiça. Não é só uma mensagem: é a exposição de algo indispensável ao verdadeiro convívio humano.
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