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Porto Alegre, sexta-feira, 07 de fevereiro de 2020.
Dia do Gráfico.

Jornal do Comércio

Notícia da edição impressa de 07/02/2020.
Alterada em 07/02 às 03h00min
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Atriz e cantora

O diretor Rupert Goold, a se julgar por este Judy: Muito além do arco-íris, não era o nome indicado para a levar à tela a figura daquela que foi uma das grandes estrelas do cinema americano. O filme, baseado numa peça de Peter Quilter, centraliza a ação no tempo em que a protagonista se apresentava numa série de espetáculos em Londres, cidade onde morreu. Porém, também focaliza cenas do passado da intérprete, onde procura as causas de um comportamento marcado pelo desequilíbrio emocional, pelo abuso de medicamentos e por uma agressividade incontrolável e causadora de momentos constrangedores. O realizador seleciona, ao optar por tal caminho, aquele período que ele julga ser o mais revelador da personalidade da intérprete de O mágico de Oz. Mas tal julgamento, além de impreciso, é injusto e precário, pois omite dados essenciais. Judy Garland não foi apenas a intérprete daquele filme célebre, assinado por Victor Fleming, que levou a fama por ter dirigido a maior parte de E o vento levou, que também foi dirigido por George Cukor, Sam Wood e William Cameron Menzies e no qual foi decisiva a participação do produtor David O. Selznick.
O diretor Rupert Goold, a se julgar por este Judy: Muito além do arco-íris, não era o nome indicado para a levar à tela a figura daquela que foi uma das grandes estrelas do cinema americano. O filme, baseado numa peça de Peter Quilter, centraliza a ação no tempo em que a protagonista se apresentava numa série de espetáculos em Londres, cidade onde morreu. Porém, também focaliza cenas do passado da intérprete, onde procura as causas de um comportamento marcado pelo desequilíbrio emocional, pelo abuso de medicamentos e por uma agressividade incontrolável e causadora de momentos constrangedores. O realizador seleciona, ao optar por tal caminho, aquele período que ele julga ser o mais revelador da personalidade da intérprete de O mágico de Oz. Mas tal julgamento, além de impreciso, é injusto e precário, pois omite dados essenciais. Judy Garland não foi apenas a intérprete daquele filme célebre, assinado por Victor Fleming, que levou a fama por ter dirigido a maior parte de E o vento levou, que também foi dirigido por George Cukor, Sam Wood e William Cameron Menzies e no qual foi decisiva a participação do produtor David O. Selznick.
O filme começa com a ação nos cenários daquele filme na qual Garland trabalhou pela primeira vez como protagonista de um longa-metragem. São momentos em que ela aparece não apenas oprimida e humilhada pelo poderoso Louis B. Mayer, o chefe, na época, da Metro, pois o filme não afasta a possibilidade de abuso. Assim, já nas primeiras cenas, o relato procura deixar claro que as cores e as fantasias escondem uma realidade difícil de suportar, origem a uma personalidade adulta que terá enormes dificuldades em dialogar com os rituais impostos pelo mundo do espetáculo e também com as leis organizadoras do convívio humano.
A constatação pode ser correta, mas a escolha de Goold comete um erro ao destacar, na carreira da artista, apenas um filme. Ela não foi apenas a intérprete daquele que é o único citado. Cinco anos depois, Garland estava no elenco de Agora seremos felizes, que hoje tem aparecido, merecidamente, em listas de melhores de todos os tempos, depois de passar décadas esquecido. Tal filme, dirigido por Vincente Minnelli, utilizava os recursos do musical para falar de gerações e do núcleo familiar. Do mesmo realizador, Garland também foi a intérprete de O pirata, outro clássico. Teve, em 1963, expressiva participação em Minha esperança é você, de John Cassavetes. Mas foi em 1954, na segunda e melhor versão de Nasce uma estrela, dirigida por George Cukor, que ela se impôs como intérprete de cinema de um nível incomum. Este filme, que na estreia foi exibido mutilado pela distribuidora, voltou décadas depois numa versão quase integral. Como algumas cenas foram perdidas, foram usadas fotografias em certas passagens. Essa versão foi aqui exibida pelo Bristol, na época um cineclube intrometido no circuito comercial.
Em 1961, naquele que pode ser classificado como o mais importante filme dirigido por Stanley Kramer, Julgamento em Nuremberg, Garland teve um de seus momentos mais notáveis. Ela aparecia, então, em poucas cenas, mas o suficiente para deixar uma marca indelével. Ela vivia uma mulher humilhada pelo advogado defensor dos juízes nazistas, e o fazia de forma comovente e equivalente ao trabalho de outros astros do filme, como Spencer Tracy, Maximilian Schell, Burt Lancaster, Richard Widmark, Montgomery Clift e Marlene Dietrich.
O filme de Goold seria com toda a certeza bem mais interessante se tivesse a capacidade de estabelecer ligações da vida da artista com os papéis que interpretou no cinema, alguns deles dotados de inegáveis aproximações com sua vida pessoal. Assim como está, mesmo que beneficiado pelo trabalho de Renée Zellweger, o filme é um pálido retrato de sua figura. E também é prejudicado por concessões e clichês, sobretudo aqueles utilizados nas cenas finais, às quais não falta mesmo a tradicional solidariedade da plateia. A dramaticidade então é substituída por aquela ingenuidade muito praticada por parte do cinema da época em que a atriz iniciava a carreira. Ingenuidade esta que alguns filmes por ela interpretados ajudaram a transformar em marca do passado.
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