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Porto Alegre, sexta-feira, 31 de janeiro de 2020.

Jornal do Comércio

Notícia da edição impressa de 31/01/2020.
Alterada em 31/01 às 03h00min
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A missão

O cinema, a partir do momento em que Griffith e Eisenstein perceberam que a cultura humana tinha à sua frente uma nova, rica e poderosa forma de expressão, se estruturou a partir da montagem, da narrativa construída a partir de planos que possibilitavam diversos ângulos de visão. Seja para alcançar efeitos dramáticos, como em O nascimento de uma nação, seja para colocar na tela uma ideia concretizada pela junção de imagens diferentes, como em Outubro, o cinema sempre teve na montagem um meio para colocar o espectador diante da realidade, mesmo depois que, passada a época das descobertas, o interesse maior se concentrou a recriação da realidade.
O cinema, a partir do momento em que Griffith e Eisenstein perceberam que a cultura humana tinha à sua frente uma nova, rica e poderosa forma de expressão, se estruturou a partir da montagem, da narrativa construída a partir de planos que possibilitavam diversos ângulos de visão. Seja para alcançar efeitos dramáticos, como em O nascimento de uma nação, seja para colocar na tela uma ideia concretizada pela junção de imagens diferentes, como em Outubro, o cinema sempre teve na montagem um meio para colocar o espectador diante da realidade, mesmo depois que, passada a época das descobertas, o interesse maior se concentrou a recriação da realidade.
No entanto, Alfred Hitchcock, um dos mestres de nossa arte, no ano de 1952, em Festim diabólico, imaginou um filme em plano único, sem cortes. Mesmo que o filme tenha alguns cortes tradicionais ficava claro que a ideia do plano único se impunha, auxiliada por alguns recursos que procuravam ultrapassar limitações numa fase em que os rolos de filmagem não permitiam extensões no tempo. Mas o objetivo ficava bem claro: utilizar tal possibilidade para aproximar o cinema da realidade. No ano de 2002, Aleksandr Sokurov, em A arca russa, agora dispondo de recursos digitais, concretizou a ideia do plano único, fazendo uma viagem pela história de seu país sem interromper a ação. Gustavo Spolidoro, cinco anos mais tarde, colocou o cinema brasileiro na mesma trilha, com Ainda orangotangos, utilizando o plano único - a ação sem cortes - num longa-metragem realizado em Porto Alegre, depois que o realizador havia utilizado a mesma técnica em filmes de curta duração.
A tentativa de agora, neste 1917, realizado pelo britânico Sam Mendes, retoma a ideia, mas, assim como Alejandro Gonzáles Iñárritu, em Birdman, o cineasta utiliza alguns cortes, pelo menos um deles facilmente percebido, aproximando-se assim do método, sem radicalizar e ao mesmo tempo mostrando as possibilidades que ele oferece para colocar quem está na plateia do cinema dentro da ação do filme. Mendes, que antes já havia mostrado estar entre os melhores, realizando até mesmo o mais notável título da série 007, Operação Skyfall, coloca seu novo filme entre os mais expressivos tendo por tema a Primeira Guerra Mundial, ao lado de Sem novidade no front, de Lewis Milestone, e Glória feita de sangue, de Stanley Kubrick. Aquele conflito deu origem nos últimos anos a dois filmes que não chegaram ao mercado brasileiro, sempre aberto para insignificâncias e fechado para muitos trabalhos importantes. Um desses filmes é o documentário They shall not grow old, realizado por Peter Jackson e no qual o cineasta de O senhor dos anéis utiliza cinejornais da época, acrescenta a cor e consegue recriar diálogos de combatentes, ditos por atores e partir de leitura labial feita por especialistas. O outro é A flauta mágica, de Kenneth Branagh, realizado a partir da ópera de Mozart e Schikaneder, com comoventes mensagens pacifistas em algumas cenas.
Assim como em O resgate do soldado Ryan, de Spielberg, trata-se de salvar vidas, agora as de um batalhão que está prestes a cair numa cilada armada pelo inimigo. Nas cenas iniciais é visível a influência de Kubrick, mas aos poucos o filme se afasta de tal modelo e coloca o espectador diante de sequencias originais e de extraordinária força dramática, como a do avião abatido e que se transforma numa ameaça para os dois protagonistas. O que acontece a seguir, quando a solidariedade é substituída pelas leis da guerra, expõe com clareza o que Mendes e sua roteirista Kristy Wilson-Cairns pretendem realçar: a falência do humanismo num mundo deteriorado.
É compreensível que maior atenção esteja sendo dada à técnica narrativa utilizada por Mendes. Tal exaltação é justa, pois o diretor a emprega de forma realmente notável. Mas há algo que merece igual destaque. Trata-se da forma como o realizador transforma o cenário em eloquente evidência de um fracasso. Nele estão os sinais de uma grande crise. Destruição e morte formam o espaço percorrido. Mas na bela sequência em que o leite é o símbolo da solidariedade e da manutenção da vida, surge uma esperança que volta a ser destacada no epílogo, quando a imagem clama por uma harmonia perdida.
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Hélio Nascimento
Hélio Nascimento
O melhor crítico de cinema do Estado traz resenhas, comentários, lançamentos e destaques no caderno Viver.