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Porto Alegre, sexta-feira, 29 de novembro de 2019.

Jornal do Comércio

Notícia da edição impressa de 29/11/2019.
Alterada em 29/11 às 03h00min
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Encontros e desencontros

O novo filme de Woody Allen pode não merecer a inclusão entre seus melhores trabalhos, mas ainda sim supera com grande vantagem a média do que em tempos recentes tem sido visto nos cinemas. Os temas que o cineasta sempre colocou em suas obras estão novamente em cena, entre eles as investidas bem-humoradas contra as exibições de uma falsa cultura, que, ao lado de um ritual que serve para esconder imperfeições e sofrimentos, costumam revelar apenas a necessidade de participar de universos que parecem ser habitados por privilegiados pela genialidade. Todos certamente estão lembrados de um momento em Annie Hall, em que o próprio diretor e, no caso, também principal intérprete, coloca em cena o próprio Marshall McLuhan para desmentir um exibicionista cultural de fila de cinema que o havia citado de forma incorreta, apenas para causar impressão nas pessoas próximas. Agora, em Um dia de chuva em Nova York, entre as principais figuras está uma aluna de comunicação que consegue uma entrevista com um famoso diretor. Ela no início começa citando Buñuel e Kurosawa, e depois termina deslumbrada diante de um astro latino, ídolo popular e protagonista de filmes de aventura. Paralelamente a tal personagem, o cineasta coloca nas imagens outra, que entra em cena como se fosse uma atriz, mas cujo comportamento, voltado para desfazer ilusões, terá, no epílogo sua função na trajetória do protagonista inteiramente revelada. E em todo o relato não faltam referências e citações, algumas delas claras homenagens a diretores que antes de Allen externaram seu amor pela grande cidade.
O novo filme de Woody Allen pode não merecer a inclusão entre seus melhores trabalhos, mas ainda sim supera com grande vantagem a média do que em tempos recentes tem sido visto nos cinemas. Os temas que o cineasta sempre colocou em suas obras estão novamente em cena, entre eles as investidas bem-humoradas contra as exibições de uma falsa cultura, que, ao lado de um ritual que serve para esconder imperfeições e sofrimentos, costumam revelar apenas a necessidade de participar de universos que parecem ser habitados por privilegiados pela genialidade. Todos certamente estão lembrados de um momento em Annie Hall, em que o próprio diretor e, no caso, também principal intérprete, coloca em cena o próprio Marshall McLuhan para desmentir um exibicionista cultural de fila de cinema que o havia citado de forma incorreta, apenas para causar impressão nas pessoas próximas. Agora, em Um dia de chuva em Nova York, entre as principais figuras está uma aluna de comunicação que consegue uma entrevista com um famoso diretor. Ela no início começa citando Buñuel e Kurosawa, e depois termina deslumbrada diante de um astro latino, ídolo popular e protagonista de filmes de aventura. Paralelamente a tal personagem, o cineasta coloca nas imagens outra, que entra em cena como se fosse uma atriz, mas cujo comportamento, voltado para desfazer ilusões, terá, no epílogo sua função na trajetória do protagonista inteiramente revelada. E em todo o relato não faltam referências e citações, algumas delas claras homenagens a diretores que antes de Allen externaram seu amor pela grande cidade.
Algumas referências são óbvias, a principiar pelo nome do personagem principal, Gatsby Welles, que aproxima um romancista de um cineasta. É que a festa filmada quase ao final da narrativa, assim como no romance de Fitzgerald, é uma ostentação equivalente, no filme, ao exibicionismo antes mencionado e por também esconder, como em Cidadão Kane, algo bastante revelador. Quanto ao diretor a ser entrevistado, Rollan Pollard, é uma referência a Roman Polanski, o grande cineasta de Chinatown e O pianista, que, assim como Allen, tem enfrentado problemas com a justiça. Mas ainda há mais, pois Polanski é também o realizador de O bebê de Rosemary, filme no qual Mia Farrow, uma das acusadoras, foi a principal intérprete. Todo esse caso é amplamente conhecido, mas é importante ressaltar que mesmo temas desagradáveis para o cineasta não deixam de ser lembrados, em mais uma evidência de seus filmes por vezes se transformam em autorretratos. Não é apenas por orientar os atores e imitar seus trejeitos que o diretor procura se colocar em cena vivências e lembranças. E também, é claro, por sempre ressaltar a importância da fantasia na conduta humana. Certamente não é por acaso que o início de uma jornada esclarecedora para o protagonista acontece num set de filmagem, que de certa forma também é uma volta ao passado, um recomeço.
Antes de Woody Allen, Nova York já sido palco de momentos notáveis do cinema. Um dos primeiros - e um dos melhores - foi O ponteiro da saudade, dirigido por Vincente Minnelli em 1944. Assim como naquele clássico, um relógio ocupa lugar destacado nas imagens. No filme antigo, a separação é um prólogo de uma união, agora concretizada. Outro momento célebre é Um dia em Nova York, realizado pela dupla Stanley Donen e Gene Kelly, antes de dirigirem Cantando na chuva, que o diretor de Um dia de chuva em Nova York confessou em um de seus filmes ter uma cópia em casa, para ver quando a depressão se constitui em ameaça. Nos dois clássicos nova-iorquinos a cidade é o palco de encontros, descobertas e reencontros, assim como no magnífico Manhattan, do próprio Allen. Mas na atualidade, não temos mais o extraordinário painel em preto-e-branco enriquecido pela música de Gershwin. O ambiente agora é sempre sombrio e sob o guarda-chuva não vemos um Kelly movido por incontrolável alegria e saudável irreverência diante da ordem representada pelo policial. Contemplamos apenas um ser humano tentando seguir um novo caminho.
 
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