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Porto Alegre, sexta-feira, 25 de outubro de 2019.

Jornal do Comércio

Notícia da edição impressa de 25/10/2019.
Alterada em 24/10 às 21h41min
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A peste

O ator Casey Affleck, que já foi laureado com um Oscar por sua atuação em Manchester à beira-mar, tem também trabalhado como realizador. Neste A luz no fim do mundo ele deixa uma contribuição a ser devidamente valorizada ao gênero da ficção científica, ou, para sermos mais precisos, a uma das variantes que retirando de cena fantasias permitidas por avanços no tempo procura fazer com que o espectador sinta o perigo sem se afastar do cenário contemporâneo. Nada de monstros vindos do espaço ou das entranhas da Terra, nada de gigantismos ameaçadores e de criaturas deformadas. Nada também de discursos que procuram inimigos na ciência e que procuram ver nas descobertas apenas perigos e distorções. É verdade, também, que não é a primeira vez no cinema que a humanidade é ameaçada pela possibilidade de desaparecimento. Mas a história narrada, cujo autor é o próprio cineasta, que também aparece em cena no principal papel masculino, não abandona a preocupação com o futuro, agindo de uma forma a se afastar das facilidades e procurando, através do realismo, armar uma realidade na qual à ameaça ao ser humano é poderosa e praticamente invencível. Porém, não se trata apenas disso. O gênero, no cinema e na literatura, costuma colocar no futuro, transformadas em alegorias, situações reais e reveladoras. No caso, o diretor procura falar ao espectador sobre formas de resistência e exercícios de aprendizado, vale dizer, de relacionamentos humanos.
O ator Casey Affleck, que já foi laureado com um Oscar por sua atuação em Manchester à beira-mar, tem também trabalhado como realizador. Neste A luz no fim do mundo ele deixa uma contribuição a ser devidamente valorizada ao gênero da ficção científica, ou, para sermos mais precisos, a uma das variantes que retirando de cena fantasias permitidas por avanços no tempo procura fazer com que o espectador sinta o perigo sem se afastar do cenário contemporâneo. Nada de monstros vindos do espaço ou das entranhas da Terra, nada de gigantismos ameaçadores e de criaturas deformadas. Nada também de discursos que procuram inimigos na ciência e que procuram ver nas descobertas apenas perigos e distorções. É verdade, também, que não é a primeira vez no cinema que a humanidade é ameaçada pela possibilidade de desaparecimento. Mas a história narrada, cujo autor é o próprio cineasta, que também aparece em cena no principal papel masculino, não abandona a preocupação com o futuro, agindo de uma forma a se afastar das facilidades e procurando, através do realismo, armar uma realidade na qual à ameaça ao ser humano é poderosa e praticamente invencível. Porém, não se trata apenas disso. O gênero, no cinema e na literatura, costuma colocar no futuro, transformadas em alegorias, situações reais e reveladoras. No caso, o diretor procura falar ao espectador sobre formas de resistência e exercícios de aprendizado, vale dizer, de relacionamentos humanos.
O mal que ameaça a humanidade, no filme de Affleck, é uma doença misteriosa que ataca as mulheres e as condena à morte certa. A filha do protagonista, no entanto, parece ter uma ainda inexplicável imunidade à doença e por isso é protegida pelo pai de todas as formas possíveis. Ambos sobrevivem na floresta e procuram se afastar do convívio dos homens sobreviventes. Estes são os dados exteriores da narrativa, pois há algo mais importante que o cineasta procura abordar. Não por acaso, o filme começa com uma longa sequência na qual o pai narra uma história sobre o tema da sobrevivência. A referência bíblica não se completa apenas na história contada. O nome do pai da menina talvez seja outra citação do cineasta ao personagem que contemplou um novo mundo e trouxe a notícia a seu povo. O certo no filme é que o acontecimento narrado à filha é o primeiro de outros que de certa forma se transformam pela sua inclusão em símbolos da passagem do tempo. O conto que abre o filme é depois substituído por lições sobre o amor e a perpetuação. É como se a menina crescesse e a relação com o pai fosse se transformando. Os contos infantis se transformam em narrativas destinadas a expor o mundo e suas leis. Sem superficialidades e concessões, o cineasta vai gradualmente colocando na tela a essência de um mundo condenado, por vezes dominado pela violência, que se espalha com força dizimadora. A peste que assola a humanidade não é vencida, mas o filme exalta uma das mais poderosas forças de resistência, aquela que coloca convívio humano verdadeiro como a mais poderosa delas.
Uma palavra final sobre outro filme: Pavarotti. Se não estiver mais em cartaz, poderá ser visto em outras plataformas. Mas o cinema é o seu lugar certo. Seu diretor, Ron Howard, começou como intérprete infantil, tendo atuado em um filme de Minnelli, Papai precisa casar. Depois se transformou em diretor irregular, mas capaz de realizar alguns filmes muito interessantes, como Uma mente brilhante, sobre o matemático John Nash, um vencedor do Prêmio Nobel; Rush, sobre a rivalidade entre James Hunt e Nick Lauda; Apollo 13, sobre uma quase tragédia; e Frost/Nixon, sobre um presidente afastado do cargo; todos, portanto, sobre fatos reais. Pavarotti é outro filme sobre personagem verdadeiro. Utilizando material de arquivo e entrevistas por ele mesmo filmadas, Howard faz um documentário bem superior às costumeiras hagiografias da televisão, sem se afastar da grandeza artística do biografado. E aborda com precisão o tema da morte, desde a angústia da filha ao ver o personagem interpretado pelo pai morrer no palco, até as comoventes cenas finais. O documentário de Howard é um bom exemplo de como material anteriormente filmado pode ser usado com inteligência e imaginação.
 
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