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Porto Alegre, sábado, 25 de julho de 2020.
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Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sábado, 25 de julho de 2020.
Notícia da edição impressa de 11/10/2019.
Alterada em 11/10 às 03h00min

O homem que ri

Na medida em que nenhum filme marcante, salvo engano ou desatenção, tenha sido registrado na filmografia do diretor Todd Phillips, este Coringa é uma surpresa e tanto. Não por ter ganho o Festival de Veneza, que andou premiando nos últimos anos obras sem maior importância, mas sim por se tratar, sem dúvida alguma, de um relato vigoroso e impactante. A obra, é relevante que se destaque isso logo no início, não é apenas o retrato de um vilão quando jovem. O filme é bem mais do que uma volta ao passado de uma história muito conhecida e que já teve no cinema momentos relevantes, entre eles o díptico assinado por Tim Burton e a trilogia realizada por Christopher Nolan, esta, principalmente, pelo título central. O gênero das histórias em quadrinhos não pode ser subestimado, mas é inegável que Phillips e o também roteirista Scott Silver ambicionaram bem mais do que voltar ao passado de um personagem célebre em tal forma de utilizar imagens fixas para narrar uma história. É necessário não apenas saber quem é o personagem, pois também é imperioso acompanhar seus primeiros passos para que o filme de Phillips possa ser visto como um painel poderoso sobre um tempo dominado por uma crise de valores materializada num cenário caótico e num universo no qual o relacionamento humano clama por correções. Eis um filme interessado em não permanecer em exterioridades e que procura encontrar causas e raízes. Estamos diante de uma obra que, pela inconformidade diante de exigências da rotina e dos lugares-comuns, não tem receio de se afastar de qualquer tipo de atividade destinada a apaziguar inquietações e rebeldias.
Na medida em que nenhum filme marcante, salvo engano ou desatenção, tenha sido registrado na filmografia do diretor Todd Phillips, este Coringa é uma surpresa e tanto. Não por ter ganho o Festival de Veneza, que andou premiando nos últimos anos obras sem maior importância, mas sim por se tratar, sem dúvida alguma, de um relato vigoroso e impactante. A obra, é relevante que se destaque isso logo no início, não é apenas o retrato de um vilão quando jovem. O filme é bem mais do que uma volta ao passado de uma história muito conhecida e que já teve no cinema momentos relevantes, entre eles o díptico assinado por Tim Burton e a trilogia realizada por Christopher Nolan, esta, principalmente, pelo título central. O gênero das histórias em quadrinhos não pode ser subestimado, mas é inegável que Phillips e o também roteirista Scott Silver ambicionaram bem mais do que voltar ao passado de um personagem célebre em tal forma de utilizar imagens fixas para narrar uma história. É necessário não apenas saber quem é o personagem, pois também é imperioso acompanhar seus primeiros passos para que o filme de Phillips possa ser visto como um painel poderoso sobre um tempo dominado por uma crise de valores materializada num cenário caótico e num universo no qual o relacionamento humano clama por correções. Eis um filme interessado em não permanecer em exterioridades e que procura encontrar causas e raízes. Estamos diante de uma obra que, pela inconformidade diante de exigências da rotina e dos lugares-comuns, não tem receio de se afastar de qualquer tipo de atividade destinada a apaziguar inquietações e rebeldias.
Retratar o mal não é apenas exercitar o rito condenatório. A violência e a agressividade não são separadas do ser humano. O cinema tratou do tema várias vezes. O personagem agora vivido de forma impressionante pelo ator Joaquin Phoenix descende de figuras como o Martin Essenbeck, de Os deuses malditos, de Visconti, aquele que depois de uma peça de Bach para violoncelo imitava Marlene Dietrich, e também do Alex de Laranja mecânica, de Kubrick, um admirador de Beethoven, que passava a odiar seu ídolo depois que a sociedade o transforma em ser obediente e servil. Muitos o tem visto - e com razão - como um descendente do motorista vivido por Robert De Niro num dos mais notáveis filmes de Scorsese. Eis a configuração da revolta e da brutalidade diante de um universo deteriorado e opressor. O personagem de Phoenix é um ser humilhado e ofendido, que responde às agressões que sofre. E não apenas com a gargalhada, que pode ser um eco mozartiano do filme de Forman. Não se trata de um herói e sim de um agente que age de forma irracional diante da violência que sofre, seja a física, causada por elementos pertencentes ao mundo chamado civilizado, seja aquela causada pelas agressões emocionais, causadoras de cicatrizes invisíveis, as mais difíceis de ser removidas.
Para narrar o sofrimento de seu protagonista, Phillips recorre a diversos recursos, entre eles o das citações. O momento mais notável, em tal área, é aquela referência a Chaplin, outro que soube utilizar a máscara do riso para revelar a tragédia, quando a sociedade contempla e se diverte com uma dança que coloca a figura humana diante do abismo. É o momento que antecede o encontro com o personagem cuja atitude colocará o protagonista no centro do sofrimento maior. Não é o único segmento do filme no qual o cineasta se aproxima do tema da família. As grades que separam o palhaço da criança formam um símbolo expressivo. E há outra lembrança do autor de Tempos modernos, quando o diretor utiliza uma canção cujo título nos remete à máscara do protagonista. O filme também não dispensa a coreografia, em cenas que através do movimento temos em cena uma espécie de dança macabra, a refletir satisfação após atos de brutalidade. E o trabalho da compositora Hildur Guönadóttir é um exemplo numa época em que a vulgaridade, quase sempre, impera acompanhando as imagens. E não falta mesmo a ironia final, nos créditos de encerramento, com o emprego de Send in the clows, de Stephen Sondhein, na voz de Sinatra, uma espécie de encontro com a harmonia depois de um perturbador pesadelo, um apelo para que os palhaços entrem em cena a fim de esconder falhas e desastres.
 
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