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Porto Alegre, domingo, 26 de julho de 2020.
Dia dos Avós.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
domingo, 26 de julho de 2020.
Notícia da edição impressa de 23/08/2019.
Alterada em 23/08 às 03h00min

O império da fantasia

De tanto ser mencionada a palavra homenagem, um filme como Era uma vez em...Hollywood corre o risco de ser visto apenas como um ato de reverência a um estilo de cinema que pode ter sido ultrapassado devido a uma série de fatores, mas que jamais terá sua estrutura abalada por qualquer inovação. Que a grande fase do cinema norte-americano permanecerá para sempre é algo que o mais novo filme de Quentin Tarantino comprova, não apenas pelas citações que faz, pois o novo trabalho do cineasta, além de seguir os caminhos iluminados pelos clássicos, prova que tal trilha oferece possibilidades da criação de inovações e ousadias. Uma delas já estava presente no brilhante Bastardos inglórios, quando o cineasta se permitia alterar a História, impondo aos chefes nazistas um castigo que certamente permitiria uma antecipação do final da Segunda Guerra Mundial. O ritual destinado a exterminar com a cúpula do chamado nacional-socialismo tinha sua origem numa tela de cinema. Mas como a própria sala era também destruída, o cineasta tornava claro que as explosões de violência não trazem apenas possibilidades que se vislumbre no futuro uma sociedade de paz e harmonia. Esta mescla de brutalidade e equilíbrio - algo igualmente percebido na sequência final do segundo volume de Kill Bill - é provavelmente o tema maior da obra de Tarantino, até porque predomina ostensivamente em todo o relato de seu opus nove. Não estamos diante de um hino de louvor ao cinema do passado, mas de uma tentativa de chegar ao ponto essencial para a compreensão dos mecanismos que regem as relações do ser humano com a sociedade em que vive. Os apressados de sempre perdem a oportunidade de, além de se divertirem, encontrar a chave de tudo na cena colocada nos créditos finais, quando a temática do filme aparece resumida num único plano destinado a desfazer ilusões e impor a realidade.
De tanto ser mencionada a palavra homenagem, um filme como Era uma vez em...Hollywood corre o risco de ser visto apenas como um ato de reverência a um estilo de cinema que pode ter sido ultrapassado devido a uma série de fatores, mas que jamais terá sua estrutura abalada por qualquer inovação. Que a grande fase do cinema norte-americano permanecerá para sempre é algo que o mais novo filme de Quentin Tarantino comprova, não apenas pelas citações que faz, pois o novo trabalho do cineasta, além de seguir os caminhos iluminados pelos clássicos, prova que tal trilha oferece possibilidades da criação de inovações e ousadias. Uma delas já estava presente no brilhante Bastardos inglórios, quando o cineasta se permitia alterar a História, impondo aos chefes nazistas um castigo que certamente permitiria uma antecipação do final da Segunda Guerra Mundial. O ritual destinado a exterminar com a cúpula do chamado nacional-socialismo tinha sua origem numa tela de cinema. Mas como a própria sala era também destruída, o cineasta tornava claro que as explosões de violência não trazem apenas possibilidades que se vislumbre no futuro uma sociedade de paz e harmonia. Esta mescla de brutalidade e equilíbrio - algo igualmente percebido na sequência final do segundo volume de Kill Bill - é provavelmente o tema maior da obra de Tarantino, até porque predomina ostensivamente em todo o relato de seu opus nove. Não estamos diante de um hino de louvor ao cinema do passado, mas de uma tentativa de chegar ao ponto essencial para a compreensão dos mecanismos que regem as relações do ser humano com a sociedade em que vive. Os apressados de sempre perdem a oportunidade de, além de se divertirem, encontrar a chave de tudo na cena colocada nos créditos finais, quando a temática do filme aparece resumida num único plano destinado a desfazer ilusões e impor a realidade.
Parte do que é encenado no filme é bastante conhecido de todos: um bárbaro ato cometido por integrantes de um grupo de contestadores que, empunhando bandeiras humanistas, as usavam para acobertar uma agressividade incontrolável, uma violência movida pela irracionalidade e um desejo de vingança contra fantasmas de um passado não devidamente decifrado. Eles não interromperam apenas vidas humanas e a carreira de uma atriz no caminho da consagração. Colocaram à vista de todos o que pode ser oculto com doutrinações e estandartes. Nada que fosse novo, mas que Tarantino utiliza para expor erros e fragilidades. E também para colocar em cena seu tema favorito: o paralelismo entre formas diferentes de justiça e a incapacidade humana de separar elementos opostos. Um cineasta não se liberta facilmente de suas obsessões. Tudo está sempre voltando à cena, mesmo que a forma exterior seja diferente. Assim, a dupla formada por dois nomes atualmente célebres, até por um deles ser dublê do outro, é na verdade um personagem só. O dublê, de passado comprometedor, é o executante da justiça, só que em tal papel corrige e castiga com igual intensidade. Na fantasia, o ator famoso empunha um lança-chamas para exterminar os nazistas e mais tarde vive na realidade o mesmo papel, desta vez contra um dos assassinos. A violência sai da tela e do passado e atua com a mesma intensidade utilizada na ficção.
A sequência final expressa com perfeição essa mescla de violência justiceira com o desejo de uma perfeita convivência. Mesmo que a cena dos créditos finais funcione como um alerta, fica claro a força da fantasia e o desejo do celebre final feliz hollywoodiano, algo que concretizava nas telas desejos de espectadores. Tarantino se permite mais uma vez alterar fatos. Mas é importante não esquecer que, em um de seus filmes anteriores, Django livre, ele percorria o mesmo caminho: utilizava uma lenda para narrar acontecimentos vivenciados por personagens envolvidos com as leis da escravidão. Como na ficção impera a fantasia, é correto celebrar o novo filme como obra que exemplifica com perfeição o fato de que por vezes o desejo de justiça e o instinto de sobrevivência podem se igualar ao que procuram combater. Este é o dilema colocado nesta espécie de conto de fadas que não esconde verdades perturbadoras.
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