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Porto Alegre, sexta-feira, 26 de julho de 2019.
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Hélio Nascimento

Cinema

Edição impressa de 26/07/2019. Alterada em 26/07 às 03h00min

Deformidade

O diretor Fatih Akin consegue um lugar entre os cineastas que, durante a história do cinema, mais espanto e controvérsias produziram com trabalhos voltados para temas como a agressividade e ações reveladoras de imperfeições que costumam originar atos violentos e repugnantes. Mas seria, certamente, um erro ver em O bar da luva dourada apenas um espetáculo que aproveita os recursos do cinema para colocar na tela um espetáculo semelhante ou descendente das técnicas do grand guignol. Não é fácil acompanhar certas sequências do filme e pode até ser discutível a opção do realizador por imagens que não poupam o espectador de detalhes que poderiam ser sugeridos. Além disso, ao contrário de um Stanley Kubrick, em Laranja mecânica, por exemplo, não há empenho algum em focalizar a violência e a brutalidade ornadas com referências culturais, sobretudo musicais. Ao contrário, Akin opta por colocar nas imagens e na faixa sonora a vulgaridade e a rudeza de um mundo regido pela irracionalidade. O cineasta se diz influenciado pelo grotesco felliniano, algo que pode ser facilmente constatado, mas está ausente aqui a irreverência e o humor do diretor italiano. Na abertura de seu filme, usando como faz em todas as cenas de assassinato, Akin utiliza a técnica do plano-sequência e o faz de maneira a tornar o espectador uma testemunha de um ato tão hediondo como repugnante. Não estamos diante de um filme agradável de ser visto. Mas seria injusto ignorá-lo, pois ele se integra a uma cinematografia que, no passado, antecipou a figura central da narrativa, colocando na tela personagens cujas características mais relevantes ressurgem agora de maneira a não esconder a intensidade de suas ações.
O diretor Fatih Akin consegue um lugar entre os cineastas que, durante a história do cinema, mais espanto e controvérsias produziram com trabalhos voltados para temas como a agressividade e ações reveladoras de imperfeições que costumam originar atos violentos e repugnantes. Mas seria, certamente, um erro ver em O bar da luva dourada apenas um espetáculo que aproveita os recursos do cinema para colocar na tela um espetáculo semelhante ou descendente das técnicas do grand guignol. Não é fácil acompanhar certas sequências do filme e pode até ser discutível a opção do realizador por imagens que não poupam o espectador de detalhes que poderiam ser sugeridos. Além disso, ao contrário de um Stanley Kubrick, em Laranja mecânica, por exemplo, não há empenho algum em focalizar a violência e a brutalidade ornadas com referências culturais, sobretudo musicais. Ao contrário, Akin opta por colocar nas imagens e na faixa sonora a vulgaridade e a rudeza de um mundo regido pela irracionalidade. O cineasta se diz influenciado pelo grotesco felliniano, algo que pode ser facilmente constatado, mas está ausente aqui a irreverência e o humor do diretor italiano. Na abertura de seu filme, usando como faz em todas as cenas de assassinato, Akin utiliza a técnica do plano-sequência e o faz de maneira a tornar o espectador uma testemunha de um ato tão hediondo como repugnante. Não estamos diante de um filme agradável de ser visto. Mas seria injusto ignorá-lo, pois ele se integra a uma cinematografia que, no passado, antecipou a figura central da narrativa, colocando na tela personagens cujas características mais relevantes ressurgem agora de maneira a não esconder a intensidade de suas ações.
O filme começa com uma longa sequência na qual não são sonegados detalhes do ritual que esta espécie de Jack, o estripador alemão costuma praticar depois de assassinar prostitutas que encontra no bar que costuma frequentar. Mas aparece algo que certamente quem está vendo o filme não espera. Concluída a cena inicial, o filme se concentra numa sala de aula, na qual uma aluna rebelde é advertida por uma professora que, se não se dedicar aos estudos como as demais colegas, não terá qualquer futuro. Assim, de um ato de brutalidade extrema, o cineasta passa a focalizar um ritual oposto. Passamos a acompanhar um outro gênero de ação: aquele da civilização empenhada em criar seres humanos aptos a se integrarem à sua marcha. Mas a aluna que passa a ocupar um lugar relevante na narrativa não é bem o modelo procurado pelo mundo ordenado por leis disciplinadoras. Ao fazer tal ligação, Akin deixa claro que seu filme é, essencialmente, uma dura e pesada caricatura de um universo povoado por criaturas que, tanto pelo físico como pelo comportamento, expressam ódio e inconformidade com normas que procuram moldá-las. O bar é um resumo caricatural de tal sociedade. O cenário tem obviamente papel relevante, mas são os frequentadores os sinais mais significativos, até porque, entre eles, se encontra o descendente de personagens que, nas décadas de 1910 e 1920, o cinema alemão tornou célebres, num ciclo do qual participaram, entre outros, cineastas como Lang e Murnau.
Não há dúvida alguma de que o personagem vivido pelo ator Jonas Dassler descende de muitas figuras daquela época, nas quais os críticos viram uma antecipação dos horrores nazistas, algo não inteiramente correto, pois tais personagens eram utilizados pelos realizadores para expressarem os elementos ocultos e reprimidos e que depois seriam utilizados em ações criminosas praticadas pelo estado. Esse tema é explicitado no filme pela presença de um oficial nazista que numa cena humilha a nova geração, vista por Akin de uma forma a realçar traços de imaturidade e que, ao se deparar com a realidade, procura ocultar a vergonha. E há também a questão matriarcal. Todas as mulheres assassinadas são figuras que, há muito tempo, perderam a juventude e simbolizam, diante do protagonista, uma imagem de domínio, quando é, então, feita a aproximação com a disciplinadora da segunda cena do filme. Estamos diante de uma obra que não é apenas um espetáculo cruel. Há algo revelador em suas imagens e situações.
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