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Porto Alegre, sexta-feira, 12 de julho de 2019.
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Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Crítica

Edição impressa de 12/07/2019. Alterada em 12/07 às 03h00min

Dúvidas e fragilidades

Para quem não viu o filme anterior de Louis Garrel como diretor, Dois amigos, seu segundo longa-metragem, Um homem fiel, é uma surpresa e uma revelação. Renovar nunca é integralmente uma ruptura. É sempre importante e necessário partir do consolidado, num processo que, de certa forma, também é uma maneira de enriquecer o passado. Olhar com interesse e inteligência o que foi consolidado pelo tempo e resistiu a novos critérios de avaliação é enriquecer o passado, na medida em que nos permite nele encontrar lições indispensáveis a qualquer movimento renovador. Garrel, que também aparece como um dos principais intérpretes de seu filme, se mostra um admirador de nomes como Truffaut e Rohmer, o que não limita seu interesse por tudo que a nouvelle vague produziu. Do primeiro, ele procura recriar o gosto por imagens acompanhadas por uma narrativa que se harmoniza com perfeição ao que está sendo mostrado. Do segundo, o fascínio por situações cotidianas que revelam aspectos esclarecedores sobre o comportamento dos personagens. As referências são ampliadas se for salientado que o cineasta trabalhou no roteiro em parceria com Jean-Claude Carrière, nome ligado a muitos cineastas importantes e certamente mais lembrado por sua colaboração com Buñuel. O realizador se aproxima do cineasta espanhol em diversas passagens do filme, entre elas, a do lenço que socorre o protagonista quando do sangramento do nariz e a das sugestões na hora da consulta ao cardápio. E não seria justo esquecer aquela antecipação visual do futuro, na cena do transeunte idoso.
Para quem não viu o filme anterior de Louis Garrel como diretor, Dois amigos, seu segundo longa-metragem, Um homem fiel, é uma surpresa e uma revelação. Renovar nunca é integralmente uma ruptura. É sempre importante e necessário partir do consolidado, num processo que, de certa forma, também é uma maneira de enriquecer o passado. Olhar com interesse e inteligência o que foi consolidado pelo tempo e resistiu a novos critérios de avaliação é enriquecer o passado, na medida em que nos permite nele encontrar lições indispensáveis a qualquer movimento renovador. Garrel, que também aparece como um dos principais intérpretes de seu filme, se mostra um admirador de nomes como Truffaut e Rohmer, o que não limita seu interesse por tudo que a nouvelle vague produziu. Do primeiro, ele procura recriar o gosto por imagens acompanhadas por uma narrativa que se harmoniza com perfeição ao que está sendo mostrado. Do segundo, o fascínio por situações cotidianas que revelam aspectos esclarecedores sobre o comportamento dos personagens. As referências são ampliadas se for salientado que o cineasta trabalhou no roteiro em parceria com Jean-Claude Carrière, nome ligado a muitos cineastas importantes e certamente mais lembrado por sua colaboração com Buñuel. O realizador se aproxima do cineasta espanhol em diversas passagens do filme, entre elas, a do lenço que socorre o protagonista quando do sangramento do nariz e a das sugestões na hora da consulta ao cardápio. E não seria justo esquecer aquela antecipação visual do futuro, na cena do transeunte idoso.
Outra referência clara é ao filme policial. Não apenas pela dúvida criada pela informação do menino, há um trecho em que o casal está num desses cinemas nos quais é possível ver clássicos no lugar certo. O casal e o garoto estão assistindo ao filme O tempo não apaga, um noir de 1946, realizado por Lewis Milestone, cuja intriga parece não ter segredos para o menino, cuja imaginação fértil faz com que o personagem do cineasta-ator mergulhe na dúvida e no medo, algo que, por vezes, a direção explora utilizando as armas do humor. E certamente Hitchcock, que foi um dos ídolos da maioria dos críticos franceses, também está presente pelo fato de um dos personagens mais importantes da trama nunca aparecer em cena, como em Rebecca. E o tema edipiano é igualmente abordado, no difícil relacionamento entre o protagonista e aquele que pode ou não ser seu filho. Fantasias de assassinato reforçam tal conflito, vez por outra vencido por manifestações geradas pela necessidade atenção e ternura. Tudo é acompanhado por um olhar atento para a necessidade de valorizar o cotidiano, com o intuito de nele encontrar sinais reveladores.
Outro elemento a ser destacado em Um homem fiel é a utilização de narrativas paralelas. As situações não são reconstituídas por uma única voz narradora. O foco está sempre sendo modificado, algo que serve para enriquecer o relato, na medida em que valoriza ângulos diferentes. Talvez o valor mais significativo seja aquele que coloca em cena fragilidades emocionais e a procura de situações que permitam segurança e harmonia, algo que Truffaut tanto apreciava filmar. E há também nas imagens o tema dos sonhos desfeitos pela realidade, o encontro da fantasia com os rituais impostos pelo mundo real. O repórter de televisão, chamado Abel, não sofre violência por parte de um irmão. Seu desconforto é gerado perla descoberta de algo que desconhecia e no qual o amigo tem papel importante. Mas a intriga não se limita a tal descoberta. A dúvida permanecerá como algo a impossibilitar a certeza. Porém a cena final nos coloca diante de um símbolo, quando os personagens estão todos diante de Paulo, outro nome bíblico, uma provável referência e certamente uma imagem que coloca na tela o ser humano diante de códigos e determinações. Mas também tal epílogo pode ser visto como uma espécie de prece diante da presença simbólica do pai. Curiosamente, tal figura também pode estar viva e presente, o que faz crescer a dúvida e aumentar o desejo por algo que resulte em solidez e equilíbrio.
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