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Porto Alegre, sexta-feira, 05 de julho de 2019.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Edição impressa de 05/07/2019. Alterada em 05/07 às 03h00min

O palco e a vida

Alexis Michalik se revela um cineasta competente com este Cyrano mon amour, que talvez seja, pelo título, uma homenagem a Alain Resnais e a Marguerite Duras, a dupla associada ao processo de enriquecimento dos recursos do cinema. O próprio Resnais, em alguns de seus filmes, expressou sua admiração pelo teatro e pela ópera - a estrutura operística de Hiroshima é bem evidente e foi pela primeira vez percebida por Paulo Emilio Salles Gomes - e agora Michalik realiza um filme que não se limita a ser ambientado na maior parte do tempo em um teatro, pois também investiga os mecanismos da criação de uma obra gerados na observação do real. É que ele se aproxima da figura de Edmond Rostand, num momento em que aquele dramaturgo se empenha em criar uma peça baseada na vida de um outro autor, hábil na pena e na espada. O teatro pode não ser a base principal do cinema, algo que Griffith e depois Eisenstein provaram de forma definitiva, mas dele nenhum criador cinematográfico pode se afastar. Mesmo que nas mãos de realizadores servos de tradições seculares, os limites do palco se transformam em algemas, estruturar uma narrativa através do ritmo cinematográfico e das palavras nunca deixará de ser uma expressão que tem o teatro como uma das fontes. O western, um gênero essencialmente cinematográfico, tem entre seus clássicos um filme, Matar ou morrer, que se mantém fiel ao tempo real, como se fosse uma peça num palco dividido em vários cenários. Em vários momentos de seu filme, Michalik expressa tal ideia e não esquece o básico: quando fora do palco, os intérpretes não atuam teatralmente. O cineasta parece ter plena consciência de que não saber tal diferença é algo que tem sepultado quem utiliza uma câmera visando impressionar pela retórica em vez de convencer pela captação da realidade.
Alexis Michalik se revela um cineasta competente com este Cyrano mon amour, que talvez seja, pelo título, uma homenagem a Alain Resnais e a Marguerite Duras, a dupla associada ao processo de enriquecimento dos recursos do cinema. O próprio Resnais, em alguns de seus filmes, expressou sua admiração pelo teatro e pela ópera - a estrutura operística de Hiroshima é bem evidente e foi pela primeira vez percebida por Paulo Emilio Salles Gomes - e agora Michalik realiza um filme que não se limita a ser ambientado na maior parte do tempo em um teatro, pois também investiga os mecanismos da criação de uma obra gerados na observação do real. É que ele se aproxima da figura de Edmond Rostand, num momento em que aquele dramaturgo se empenha em criar uma peça baseada na vida de um outro autor, hábil na pena e na espada. O teatro pode não ser a base principal do cinema, algo que Griffith e depois Eisenstein provaram de forma definitiva, mas dele nenhum criador cinematográfico pode se afastar. Mesmo que nas mãos de realizadores servos de tradições seculares, os limites do palco se transformam em algemas, estruturar uma narrativa através do ritmo cinematográfico e das palavras nunca deixará de ser uma expressão que tem o teatro como uma das fontes. O western, um gênero essencialmente cinematográfico, tem entre seus clássicos um filme, Matar ou morrer, que se mantém fiel ao tempo real, como se fosse uma peça num palco dividido em vários cenários. Em vários momentos de seu filme, Michalik expressa tal ideia e não esquece o básico: quando fora do palco, os intérpretes não atuam teatralmente. O cineasta parece ter plena consciência de que não saber tal diferença é algo que tem sepultado quem utiliza uma câmera visando impressionar pela retórica em vez de convencer pela captação da realidade.
Este encontro entre teatro e cinema começa como se fosse uma peça, mas em uma de suas cenas iniciais o cinema já aparece com a utilização dos primeiros filmes dos irmãos Lumière. O filme reconstitui a célebre sessão realizada em 28 de dezembro de 1895. Não o faz de forma tão meticulosa como aquela feita por Jan Koumem em Coco Chanel & Igor Stravinski, quando reconstituiu outro momento revolucionário - a primeira encenação do balé A sagração da primavera, coreografado por Nijinski, em 29 de maio de 1913 -, mas o faz de forma a registrar o receio de um homem de teatro que prevê o fim de sua arte, ameaçada pelo então chamado cinematógrafo. O próprio cinema também seria vítima de previsões semelhantes, quando surgiram novos meios de comunicação, mas nunca algo tão poderoso como o mecanismo dos irmãos franceses, que tiveram precursores e não foram os primeiros a fazer imagens captadas adquirirem movimento. Essa demonstração de amor ao teatro está longe das obras-primas de Laurence Olivier e Orson Welles, sem esquecer a magnífica e até hoje não devidamente valorizada versão que Joseph L. Mankiewicz realizou de Júlio César, e também o método utilizado por Ingmar Bergman em A flauta mágica. Digno de nota também é o momento em que o palco se amplia e o cenário se torna real, como no cinema.
Porém há momentos dignos de serem destacados. Entre eles, a cena do encerramento da primeira encenação da peça sobre Cyrano. O momento lembra a cena em que John Madden, em Shakespeare apaixonado, reconstitui a primeira apresentação de Romeu e Julieta. A plateia não se manifesta, paralisada pela emoção. É um instante em que o silêncio é mais eloquente do que o aplauso, mais revelador do que a ovação. Quando a cortina desce, a realidade volta a se impor, e o entusiasmo dos espectadores então vigorosamente se expressa. E, nos créditos finais, que se encerram com uma imagem de Rostand, o diretor homenageia vários atores que interpretaram, no cinema e no teatro, a figura de Cyrano. Entre eles, Gérard Depardieu e José Ferrer. O segundo recebeu um Oscar por sua atuação num filme dirigido por Michael Gordon em 1950. O filme de Michalik, não apenas por colocar em cena um autor escrevendo sobre outro, trata da criação e coloca em cena momentos que revelam que palco e tela são espaços dotados de riqueza quando habitados por seres humanos e não por figuras desprovidas de verdade.
 
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