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Porto Alegre, sexta-feira, 12 de abril de 2019.
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Hélio Nascimento

Cinema

Crítica

Edição impressa de 12/04/2019. Alterada em 12/04 às 03h00min

A crise

Hélio Nascimento
Depois da criação do Icaic, no início dos anos 1960, o cinema cubano, antes voltado principalmente para cópias dos melodramas mexicanos, começou a se destacar, primeiro, através de documentaristas, como Santiago Alvarez, e, depois, pela obra de Tomás Gutiérres Alea, cujos dois últimos filmes - realizados quando ele já estava doente e, por isso, com a ajuda de Juan Carlos Tabio, Morango e chocolate e Guantanamera - se incluem entre os grandes momentos do cinema latino-americano. O primeiro, realizado em 1993, obteve o prêmio de direção no Festival de Berlim e também esteve entre os cinco concorrentes ao Oscar de filme estrangeiro. O segundo, produzido em 1995, pouco antes do falecimento do cineasta, foi um grande sucesso de público em seu país, até por se constituir em dura crítica ao regime, através de uma narrativa marcada pela ironia e pela irreverência, enquanto descrevia um trajeto fúnebre claramente simbólico. Os dois filmes foram vencedores do Festival de Gramado. Poucos filmes cubanos chegaram ao mercado exibidor brasileiro, mas vale lembrar que o também já desaparecido Humberto Solás mostrou imaginação e segurança no épico O século das luzes, também exibido em Gramado, e Fernando Pérez foi outro a fugir de imposições e mostrar a realidade em obras como Hello Hemingway e Suíte Havana. O tradutor, filme dirigido pelos irmãos Rodrigo e Sebastián Barriuso, é baseado em fatos verídicos, no caso, o problema enfrentado pelo seu pai, um professor de literatura russa, quando é impedido de continuar lecionando e designado para atuar como tradutor junto a familiares de crianças vítimas da radiação causada pelo desastre na usina de Chernobyl.
Em 26 de abril de 1986, uma explosão naquela usina espalhou pela Ucrânia e pela Belarus, então repúblicas soviéticas, material radioativo, que depois atingiu, também, países ocidentais, o que obrigou o governo da então URSS - já na fase da Glasnost e da Perestroika de Mikhail Gorbatchow - a revelar o que antes havia tentado ocultar. Tal acidente poderia ser visto por cineastas mais experientes como um acontecimento poderosamente simbólico de uma crise que, a seguir, traria modificações radicais no Leste Europeu, expondo problemas ocultos e revelando poderosas insatisfações. Certamente que não é por acaso que os irmãos Barriuso começam seu filme com imagens de documentários que registram a visita a Cuba do então líder da URSS. Em várias passagens, os diretores fazem menção a essa dependência que ligava Cuba ao país mais poderoso da Europa Oriental, que comprava açúcar cubano com preços generosos e vendia petróleo a preços inferiores aos do mercado internacional. A doença das crianças tratadas em hospitais cubanos não deixa de ser vista pelo filme como a expressão de um fracasso, mas não é isso que parece interessar aos irmãos cineastas. O que mais lhes atraiu certamente foi o drama resultante da interferência do estado na vida das pessoas.
Realizado em coprodução com o Canadá e filmado a partir de um roteiro de uma canadense, Lindsay Gossling, O tradutor foi beneficiado e exibido no Festival de Sundance, instituição criada por Robert Redford e destinada a apoiar o cinema independente norte-americano e que também se tem dedicado a valorizar o cinema da América Latina. A presença como ator principal de Rodrigo Santoro amplia a base internacional do projeto, que foi concretizado em Cuba, com a participação do Icaic. O filme tem seus méritos, entre eles, o de colocar na tela um tema pouco abordado e do qual muitos procuram se afastar, como se aquele desastre não fosse o resultado de erros e a consequência da ausência de fiscalização permitida pela transparência, algo inexistente na época no país que foi palco de tal tragédia. Mas é imperioso constatar que falta dramaticidade e que o tema sofre devido a variações que se repetem e raras vezes primam pela originalidade. Porém, a imagem do protagonista contemplando o mar é a expressão da busca de algo novo, a visualização de uma esperança. Temas como o da ilha tentando uma aproximação com o continente são apenas colocados, nunca enriquecidos, o que afasta o filme dos Barriuso dos verdadeiramente significativos.
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