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Hélio Nascimento

Cinema

Edição impressa de 21/09/2018. Alterada em 21/09 às 01h00min

Agonia e vaidade

Hélio Nascimento
O diretor Sérgio Rezende é um daqueles cineastas interessados em personagens ligados à realidade, mergulhados no cotidiano e, por vezes, protagonizando momentos cruciais tanto em sua vida pessoal como em episódios dramáticos da história. Em sua filmografia, vários títulos confirmam tal constatação. O homem da capa preta; Lamarca; Guerra de Canudos; Mauá, o Imperador e o Rei; Zuzu Angel; Salve geral; e Em nome da lei, sem esquecer o documentário Até a última gota, são trabalhos nos quais, mesmo quando os protagonistas pertencem ao mundo da ficção, o tempo e o cenário reconstituem fatos realmente acontecidos. Rezende é, também, um cultor de um cinema que procura ressaltar as virtudes de uma narrativa clara, sem lances de artificialismo e marcada por um profissionalismo digno de elogios em todos os setores de produção. Tais características e virtudes estão presentes em seu novo filme, O paciente - O caso Tancredo Neves. Rezende não procura criar um novo cinema, nem revolucionar a linguagem cinematográfica, preferindo oferecer ao público peças cinematográficas focalizadas, antes de tudo, na realidade. Ele, de certa forma, se aproxima daqueles realizadores que procuraram fazer - e, em alguns momentos, acertaram plenamente - um cinema brasileiro voltado para um público amplo e, ao mesmo tempo, interessado em preservar a dignidade e a sintonia com uma realidade reveladora. A obra de Rezende tem lugar entre aquelas merecedoras de atenção, até porque o cineasta não é devorado pela própria ambição, nem derrotado por artificialismos fantasiados de projetos revolucionários. Ele ocupa, em nosso cinema, um espaço no qual também está presente, por exemplo, a obra de Roberto Farias.
Em março de 1985, esgotadas as fontes e os pretextos para a permanência do autoritarismo, depois da "distensão lenta, gradual e segura" de Ernesto Geisel e do período dos atentados como o do Rio Centro e da volta de exilados, quando o Brasil foi presidido por João Figueiredo, a eleição indireta de Tancredo Neves fez com que o País mergulhasse num mar de otimismo. Tal euforia foi abalada quando, na véspera da posse, o mandatário eleito foi hospitalizado e impedido de assumir o poder, pelo qual tanto havia lutado. Tancredo, célebre por suas habilidades como negociador, já havia exercido cargo semelhante quando, em setembro de 1961, foi nomeado primeiro-ministro pelo presidente João Goulart, depois da crise gerada pela renúncia de Jânio Quadros. Sua eleição, depois da derrota no Congresso da emenda que previa a escolha pelo povo do novo presidente, sinalizava para novos tempos, algo que a fatalidade transformou em episódio tão dramático quanto frustrante. Este é o quadro no qual trabalhou Rezende em seu filme. O cineasta, que teve como base o livro de Luís Mir, mesmo que procurando ser fiel aos acontecimentos e ao cotidiano que se desenrolava nos dois hospitais em que o protagonista padeceu sua agonia, não pretendeu uma aula de história, e sim ressaltar como a dor e a frustração conviveram com a vaidade e a disputa por visibilidade entre os médicos que atenderam o presidente eleito.
Tal escolha, sem dúvida, enfraquece a proposta do filme. Não é suficiente o emprego de cinejornais do período para que a dramaticidade do episódio seja amplamente recuperada. Melhor seria que a narrativa fosse construída apenas através de episódios encenados. O que aconteceu em março e abril de 1985 é praticamente um resumo simbólico de uma série de frustrações. De certa maneira, o novo filme de Rezende é um desmentido do título de seu primeiro longa-metragem, O sonho não acabou, pois está centralizado no tema de uma busca que não se concretiza, de um objetivo não alcançado. De qualquer forma é um esboço de uma conquista não devidamente concretizada após uma fase em que formas totalitárias foram exaltadas e praticadas. Mas o filme não tem aquela força emanada da cena em que a figura de Graciliano Ramos se afasta do presídio ao som da Marcha Solene Brasileira, de Gottschalk, em Memórias do cárcere, filme no qual Nelson Pereira dos Santos falou de uma repressão quase esquecida para condenar qualquer forma de autoritarismo.
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