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Crise

- Publicada em 03h30min, 28/07/2020. Atualizada em 03h00min, 28/07/2020.

Transporte sobre trilhos no País tem perda bilionária na pandemia

Sistemas de metrô e trens, que transportavam 12 milhões de pessoas por dia antes do surto de Covid-19, já acumulam R$ 4 bi de perda de receita neste ano e ameaçam parar

Sistemas de metrô e trens, que transportavam 12 milhões de pessoas por dia antes do surto de Covid-19, já acumulam R$ 4 bi de perda de receita neste ano e ameaçam parar


/Angelo Pieretti/Trensurb/divulgação/jc
Folhapress
O assistente administrativo Marco Aurélio dos Santos passa mais de quatro horas todos os dias no trem e no metrô de São Paulo. Entre o Campo Limpo (extremo sul), onde mora, até Guaianases (zona leste), onde trabalha em uma unidade de saúde, ele registra o movimento dos trens com o celular, faz boletins que posta nas redes sociais e costuma cobrar melhorias. Embora ainda pegue parte do trajeto com trens cheios, Marco Aurélio diz que na maior do caminho as composições têm lotação muito menor do que a que estava acostumado a encarar antes da pandemia.
O assistente administrativo Marco Aurélio dos Santos passa mais de quatro horas todos os dias no trem e no metrô de São Paulo. Entre o Campo Limpo (extremo sul), onde mora, até Guaianases (zona leste), onde trabalha em uma unidade de saúde, ele registra o movimento dos trens com o celular, faz boletins que posta nas redes sociais e costuma cobrar melhorias. Embora ainda pegue parte do trajeto com trens cheios, Marco Aurélio diz que na maior do caminho as composições têm lotação muito menor do que a que estava acostumado a encarar antes da pandemia.
Os números confirmam a percepção de Marco Aurélio. Segundo a ANPTrilhos, a demanda por esse tipo de transporte chegou a cair 80%, e hoje está em torno de 34% do que era antes, com as medidas de reabertura tomadas por municípios.
Os sistemas de metrô e trens, que transportavam 12 milhões de pessoas por dia no País antes da pandemia da Covid-19, já acumulam R$ 4 bilhões de perda de receita neste ano e ameaçam parar.
O transporte sobre trilhos é visto como o mais eficiente para as grandes cidades. No entanto, diante das incertezas, ele pode ser permanentemente afetado, colocando em xeque o modelo de expansão e manutenção da rede por meio de concessões à iniciativa privada.
As empresas têm se virado para cortar custos, mas a redução está longe de ser simples. "Estamos falando de transporte de alta capacidade, que não foram feitos e pensados para andar vazios ou não se viabilizam", diz Joubert Flores, da ANPTrilhos. "Nos ônibus há um ajuste mais fácil de fazer, dá para reduzir algumas linhas. No metrô ou trem, 75% do custo da operação é fixo, tem mão de obra, energia e manutenção que não dá pra cortar. Então baixa 80% da sua receita e você não consegue reduzir 30% do seu custo", afirma. A situação do Rio de Janeiro é a mais complicada. Os administradores dizem que não há mais caixa para rodar depois de agosto.
O MetrôRio é a empresa privada que assumiu a concessão do serviço, em 1998. O contrato, antigo, não prevê subsídio para a operação, ou seja, a empresa deve se manter sozinha. Hoje, cerca de 95% do caixa vem das tarifas pagas pelos passageiros, e o restante vem de publicidade e aluguel de lojas, que também perderam valor com a queda na demanda.
Segundo o presidente da empresa, Guilherme Ramalho, a companhia já perdeu R$ 270 milhões em receita, número que deve chegar a R$ 500 milhões até o fim do ano. Ele diz que a empresa tem tido um prejuízo mensal de R$ 35 milhões.
"É um problema de liquidez inédito. Não existe paralelo de uma queda sustentada que chegou a 87% no auge da pandemia. E temos uma recuperação muito lenta, com pessoas procurando se deslocar por outros modos", afirma.
Para reduzir os gastos, os investimentos em melhorias foram todos paralisados, e a empresa precisou suspender contratos de trabalho e reduzir salários. Caso não haja uma solução emergencial, Ramalho diz que prevê um desmonte do setor, com absorção dos passageiros pelo transporte rodoviário, legal ou ilegal --como vans. "O prejuízo fica para o cidadão", diz.
O secretário de Transportes Metropolitanos de São Paulo, Alexandre Baldy, que cuida do Metrô e da CPTM (trens urbanos), afirma que a situação é grave. "Não existe empresa que se sustente com queda de receita de 80%." O estado chegou a fazer um plano que prevê uma escala com cinco níveis para a gravidade da doença na região metropolitana. Na última, poderia fechar estações e suspender parte da operação. Segundo Baldy, hoje estamos no nível 2, mas a situação já foi mais grave, sobretudo porque o Metrô chegou a ter 53% de seus funcionários afastados, comprometendo a operação --hoje essa taxa está em 25%.
A secretaria prevê uma perda de receita de R$ 1 bilhão até o fim do ano. O problema não é só a tarifa, mas também o comércio fechado nas estações e as concessões de espaços como os shoppings Metrô Tatuapé, Itaquera e Santa Cruz.
Para economizar, o governo avança em diferentes áreas. Ofereceu o trabalho remoto permanente e espera uma adesão de 600 funcionários. Dos quatro prédios administrativos do Metrô, deve fechar três. Além disso, conta também com concessões já previstas, como as áreas comerciais das 14 estações da linha 2-verde do metrô e os espaços publicitários da CPTM.
 
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