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Profissão

- Publicada em 16h41min, 15/09/2020. Atualizada em 08h28min, 16/09/2020.

Contador conquista o status de profissional indispensável aos negócios

Necessidade de digitalização do trabalho do contador colabora para mudança na prestação

Necessidade de digitalização do trabalho do contador colabora para mudança na prestação


PRESSFOTO/FREEPIK.COM/DIVULGAÇÃO/JC
Roberta Mello
Prestes a comemorar o Dia do Contador, em 22 de setembro, e o aniversário de 18 anos do caderno JC Contabilidade, é impossível não parar para fazer um balanço de tudo o que mudou nos últimos anos. Ao mesmo tempo em que cada um pode avaliar as transformações individuais que ocorreram, algumas delas parecem ter sido unânimes para a classe contábil.
Prestes a comemorar o Dia do Contador, em 22 de setembro, e o aniversário de 18 anos do caderno JC Contabilidade, é impossível não parar para fazer um balanço de tudo o que mudou nos últimos anos. Ao mesmo tempo em que cada um pode avaliar as transformações individuais que ocorreram, algumas delas parecem ter sido unânimes para a classe contábil.
Questionados sobre a principal conquista da categoria, o termo valorização profissional surge como uma das primeiras respostas. A transição na imagem do contador de um "guarda-livros" para a de um gestor financeiro e fiscal indispensável à manutenção da saúde dos negócios e das finanças pessoais dos clientes parece ter sido finalmente alcançada.
A necessidade de digitalização do trabalho do contador e os avanços tecnológicos nos últimos anos colaboraram para a enorme mudança na prestação do serviço. Os escritórios, antes cheios de papel, agora são ocupados por computadores e por gente. Muita gente, aliás.
Ao contrário do que aqueles que proclamavam o fim do profissional contábil, as máquinas não substituíram o trabalho do ser humano. A tecnologia veio para dar conta daquelas tarefas repetitivas, que não exigem análise criteriosa, dizem os especialistas.
As inovações diminuíram as dificuldades para se manter em conformidade com as regras fiscais e tributárias, em constante mudança, e, assim, facilitar o cumprimento das exigências do Fisco. Elas liberaram os profissionais para se dedicarem ao tratamento das informações geradas, porém, paralelamente, vêm impondo o desafio de realmente tornar os dados gerados relevantes.
O presidente do Sescon/RS, Célio Levandovski, lembra que em 2002, ano de criação do caderno JC Contabilidade, estava começando em uma nova estrutura de trabalho e o grande diferencial do seu escritório na época era que os computadores trabalhavam em rede. "Algo que hoje em dia é super comum, mas naquele momento representava um grande avanço", brinca Levandovski.
A internet em geral ainda era "discada" e os documentos em papel eram armazenados em caixas durante um longo tempo - o que exigia dos escritórios um espaço físico bastante grande e preparado para isso. Já nesse momento, Levandovski percebia que o negócio não podia ficar limitado a atender as exigências do governo. "Eu notava que era preciso focar na consultoria empresarial e oferecer um atendimento mais personalizado ao cliente. E foi o que se desenhou nos anos seguintes realmente", pontua o contador.
A presidente do Conselho Regional de Contabilidade do Rio Grande do Sul (CRCRS), Ana Tércia Rodrigues, comenta que a qualificação foi indispensável para essa mudança de cultura. Foi no início dos anos 2000 que começaram a surgir cursos de mestrado e doutorado em Ciências Contábeis no Estado.
Em 2002, Ana estava se dedicando com exclusividade à carreira acadêmica e recorda que os contadores gaúchos tinham de fazer ter de fazer curso de pós-graduação em outras áreas, como Administração de Empresas e Economia. "Isso mudou e os profissionais estão cada vez mais preocupados busca constante por conhecimento", diz Ana, que também é professora universitária.
Hoje à frente do CRCRS, Ana foi entrevistada em uma das primeiras edições do caderno. Na época, ocupava o cargo de coordenadora do curso de pós-graduação de Auditoria e Perícia da Pucrs, percebia que os casos de fraude nos balanços de grandes empresas dos Estados Unidos havia despertado a preocupação com a ética profissional nos alunos.
"Antes os casos de fraude corporativas eram vistos como hipotéticos, fora da realidade. Agora, a atenção é maior para os casos reais", dizia. Este realmente foi um ponto de guinada da profissão. Não só pelos escândalos descobertos, mas pela resposta dada tanto por profissionais contábeis quanto pelas empresas e pelo Fisco.

Escritório Gatti conta com a expertise de 55 anos sempre atento às transformações e exigências do mercado

Maurício Gatti diz que é preciso ser imediatista para implementar mudanças
Maurício Gatti diz que é preciso ser imediatista para implementar mudanças
/LUIZA PRADO/JC

Em abril de 2002, poucos meses antes da criação do caderno JC Contabilidade, Maurício Gatti assumia o comando do escritório Gatti Contabilidade. Filho do fundador, Ivan Carlos Gatti, ele seguiu o mesmo caminho de muitas famílias que carregam o gosto pelos balanços no seu DNA. O falecimento do patriarca, que foi fundador do Sescon/RS, presidente do Conselho Regional de Contabilidade e do Conselho Federal por dois mandatos, levou à sucessão no escritório.

De lá para cá, a sede da empresa viu seu tamanho se multiplicar, não só por mudanças estruturais, mas também pelo fim do arquivo-morto. O espaço enorme que armazenava centenas de documentos em papel passou a ser ocupado por mesas, computadores e pessoas. Isso passou a ser o suficiente para a realização do trabalho contábil.

Porém, Maurício Gatti pontua que a tecnologia também aumentou o trabalho dos contadores. O número de informações processadas se multiplicou. "O grau de exigência aumentou absurdamente e todos estamos mais imediatistas. Hoje, o cliente manda um e-mail e se eu não responder dentro de 30 minutos ele já está cobrando. Antigamente o ritmo era outro", diz Gatti, que desde 1997 trabalha no negócio da família.

Uso de tecnologia aliado à habilidade no relacionamento com pessoas define a base de perfil do chamado 'Contador 5.0'

Primeira entrevista de Ana Tércia ao JC Contabilidade
Primeira entrevista de Ana Tércia ao JC Contabilidade
/ACERVO DO ARQUIVO HIST/JC
O Contador 5.0 é aquele que consegue usar as mais modernas ferramentas focando nas pessoas. É no que acredita Ana Tércia Rodrigues, presidente do CRCRS. Para ela, chegamos agora ao ápice do ponto de vista tecnológico. "Daqui para frente o desafio é definir como o ser humano vai lidar com todas essas mudanças".
O presidente do Sescon Serra Gaúcha, Joacir Luis Reolon, complementa que sem nenhuma dúvida, os tempos modernos "impõem desafios crescentes, quer pelas constantes evoluções tecnológicas, pela intensa globalização e inter-relacionamento dos povos ou pela modernização dos ambientes de negócios". Por isso, "a atuação das empresas precisa ser repensada e atualizada, o que também exige dos empresários contábeis constante acompanhamento destas evoluções".
Repensar parece ser a palavra de ordem. Ana Tércia diz que se trata do que chama de "aprender a aprender" ou de atribuir valor ao que está sendo feito e tornar a evolução uma busca incessante. Professora de Ciências Contábeis da Ufrgs, ela percebe que a pandemia parece ter convencido os profissionais de que não dá para esperar o amanhã para melhorar. "São muitas as pessoas que me procuram em busca de mentoria", comenta Ana. Além disso, o conselho tem percebido mais procura por cursos e eventos de qualificação online. 
Estudo elaborado pela Roit Consultoria e Contabilidade a fim de compreender quais serão as tendências da profissão aponta que a robotização dos processos e a possível aprovação da reforma tributária devem exigir mudanças na gestão fiscal das empresas. Elas devem impor uma preocupação constante com a qualificação para funções de planejamento e decisões estratégicas.
Além disso, "esta deverá ser a década da consolidação dos escritórios". De acordo com o levantamento, desde 2016, pelo menos, o número de profissionais liberais no mercado brasileiro de contabilidade vem caindo, ao passo que a quantidade de escritórios se eleva. Há quatro anos, eram 532,9 mil profissionais. Hoje, são 514,9 mil. Por outro lado, em 2016, eram 55 mil escritórios em todo o País. Em 2020, passam dos 70 mil.
Também se identifica, para os próximos anos, o ingresso de empresas originalmente de outros setores, porém exercendo a prestação de serviços contábeis. Bancos e empresas de tecnologia de ERPs (softwares de gestão empresarial) passam a ser novos atores, disputando fatias com escritórios essencialmente de contabilidade.
Para lidar com a situação que se avizinha e se manter competitivo, o sócio e CEO da Roit, Lucas Ribeiro, recomenda investir em qualificação. "O contador sempre teve fama de 'gerador de guias', o que nunca foi verdadeiro, afinal, os escritórios passaram anos tendo que investir tempo, dinheiro e energia para atender demandas absurdas do Fisco. Mas, agora, essas e outras tarefas são feitas por robôs, e então os profissionais poderão, enfim, atuar como verdadeiros analistas e consultores, decisivos para a gestão completa de um empreendimento", acredita.
 

Ciências Contabéis estão no DNA da família Moresco, que aposta no atendimento personalizado como diferencial

Ana ao lado do tio Barcelides, da tia Maria Lourdes e da prima Morgana
Ana ao lado do tio Barcelides, da tia Maria Lourdes e da prima Morgana
/Moresco Contabilidade / Divulgação / JC
Foi ao chegar a maioridade que a vida de Ana Paula Moresco mudou drasticamente. Aos 18 anos, ela deixava Erechim, no interior do Estado, e chegava em Porto Alegre para cursar a faculdade de Ciências Contábeis.
Sobrinha do fundador do escritório que carrega o sobrenome da família - Barcelides Moresco -, a então contadora começou a trabalhar na empresa. Ana e sua prima Morgana assumiram o negócio algum tempo depois. Nesse meio tempo, também viram tudo ser feito muito mais rápido e a gestão de pessoas ganhar importância.
A atualização sobre as principais alterações legais, elaborada por uma consultoria para o escritório, por exemplo, deixou de ser feita em papel e passou a ser disponibilizada online. "Antes, tínhamos uma pasta com tudo impresso e sempre que havia uma alteração substituíamos o papel da lei antiga pelo novo", contas. Hoje, as mudanças muitas vezes entram em vigor de um dia para o outro. "Temos que acompanhar esse movimento", diz Ana.
A tecnologia colabora, admite a contadora, mas nunca vai conseguir substituir as pessoas. A convicção é fruto da observação de quem está no dia a dia de uma empresa contábil. "Com a pandemia, tivemos a certeza de que nada substituirá uma reunião presencial com clientes e a conversa olho no olho com colegas de trabalho", avalia.
É exatamente esse o foco do escritório desde que Ana e Morgana assumiram o controle da empresa. Foram contratadas consultorias para profissionalizar ainda mais o negócio. Um plano de carreira entrou em prática para motivar os funcionários. O atendimento personalizado ao cliente, característico do escritório há 53 anos, passou a ser oferecido através de novos canais. "Credibilidade e confiança devem ser o diferencial dos contadores no futuro", determina.
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