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- Publicada em 15h23min, 04/08/2020.

NAFs adequam atendimento na pandemia

Trabalho virtual e reuniões remotas foram adotadas para atender às necessidades da população que busca auxílio contábil gratuito durante o período de isolamento social

Trabalho virtual e reuniões remotas foram adotadas para atender às necessidades da população que busca auxílio contábil gratuito durante o período de isolamento social


/FREEPIK/DIVULGAÇÃO/JC
Carlos Villela
Muitas faculdades de ciências contábeis no Brasil enfrentaram um duplo desafio a partir de março, quando a pandemia de Covid-19 levou ao impedimento de aulas físicas. Além da necessidade de explorar novos caminhos para continuar o ano letivo, professores e alunos precisaram encontrar novas maneiras para manter o atendimento do principal projeto extraclasse de contabilidade no Brasil. Os Núcleos de Apoio Contábil e Fiscal, conhecidos pela sigla NAF, são projetos desenvolvidos pela Receita Federal junto a universidades, e oferecem serviços contábeis de forma gratuita para pessoas físicas e jurídicas. Hoje, são mais de 300 NAFs no País.
Muitas faculdades de ciências contábeis no Brasil enfrentaram um duplo desafio a partir de março, quando a pandemia de Covid-19 levou ao impedimento de aulas físicas. Além da necessidade de explorar novos caminhos para continuar o ano letivo, professores e alunos precisaram encontrar novas maneiras para manter o atendimento do principal projeto extraclasse de contabilidade no Brasil. Os Núcleos de Apoio Contábil e Fiscal, conhecidos pela sigla NAF, são projetos desenvolvidos pela Receita Federal junto a universidades, e oferecem serviços contábeis de forma gratuita para pessoas físicas e jurídicas. Hoje, são mais de 300 NAFs no País.
A auditora fiscal Anelise Hackbart Porn, delegada adjunta da Receita Federal do Brasil em Porto Alegre, explica que os NAFs sempre tiveram atendimento presencial, com um professor responsável e presença de alunos, mas a pandemia de Covid-19 fez com que estes centros tivessem que mudar sua lógica de funcionamento. "Com a pandemia os alunos ficaram sem acesso a esse canal de prática, e tivemos a experiência de sucesso em abrir atendimento virtual". Anelise diz que o trabalho virtual começou durante o andamento da pandemia, com reuniões remotas para divulgação dos resultados e trocas de experiência. Para ela, essa é a base do NAF, "a divulgação de boas práticas e compartilhamento de ações".
A auditora relata que o atendimento em março e abril ainda era um pouco incipiente, mas o atendimento ativo foi crescendo com o passar das semanas. Hoje já são mais de 100 NAFs atendendo de forma remota por canais como email, WhatsApp, Facebook e telefone, ficando a critério da faculdade a autonomia de definir qual modelo de atendimento vai propiciar ao público. A universidade também tem a autonomia para decidir o aproveitamento acadêmico do serviço feito pelos alunos nos NAFs. A maior parte considera as atividades como crédito complementar, mas há faculdades que estabeleceram o atendimento pelo núcleo como disciplina oficial.
"A gente quer qualificar o estudante de contabilidade e dar a ele a possibilidade de ter contato com os casos práticos e a experiência. A gente viabiliza que o estudante tenha acesso a prática, e a instituição é beneficiada porque qualifica o curso", explica. No período de pandemia, já foram mais de 1,3 mil serviços atendidos nos 15 NAFs que estão em funcionamento no Estado. São sete em Porto Alegre e um em Canoas, Cachoeirinha, Viamão, Santa Maria, Santo Ângelo, Lagoa Vermelha, Casca, Carazinho e Passo Fundo.
Anelise explica que o público atendido por estes núcleos é de baixa renda, e por isso os NAFs não devem ser vistos como concorrentes dos escritórios de contabilidade. Para ela, a virtualização dos processos dos NAFs durante a pandemia foi bem importante para pessoas com dificuldade com meios digitais.
"A Receita Federal é responsável por promover a cidadania fiscal e o conhecimento desta área, e o profissional de contábeis vai ter a vida profissional em convivência contínua com a Receita, então a gente ganha um profissional qualificado, não só na relação com os clientes, mas também na interação com a gente", diz. Assim, há uma redução no trabalho interno e no número de declarações de imposto de renda com erros, por exemplo.
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NAF da Universidade La Salle nasceu durante o isolamento

Patrícia Coelho é coordenadora do projeto na faculdade de Ciências Contábeis da instituição
Patrícia Coelho é coordenadora do projeto na faculdade de Ciências Contábeis da instituição
/MARCO QUINTANA/JC
As mudanças no atendimento por conta do Covid-19 impactaram diretamente a inauguração do Núcleo de Apoio Contábil e Fiscal da Universidade La Salle, que entrou em atividade no mês de junho, já durante o período de pandemia e isolamento social. O projeto começou a ser gestado a partir de agosto do ano passado, e teve que passar por uma remodelagem no primeiro semestre à medida que a anormalidade deste ano ficou evidente. Mesmo assim, destaca a professora Patrícia Coelho, coordenadora do projeto na faculdade, houve o interesse em implementar o NAF, mesmo que fora do planejado, visando atender o contribuinte de forma online.
"Foi desafiador mas gratificante. Fizemos um primeiro webinar apresentando para nossos alunos o que é o NAF, quais as possibilidades de trabalho dentro dele e convidamos auditores da Receita Federal para explicar", relembra Patrícia. Assim que o edital foi aberto, 64 alunos se inscreveram para as 15 vagas disponibilizadas. "Também colocamos para esse número alunos que são dos cursos de administração e gestão financeira, porque a gente entende que são áreas afins, e tanto para o LaSalle de Canoas quanto os alunos da modalidade EaD. Hoje nosso time é formado por dois professores e 15 alunos, sendo 8 de Canoas e outros 7 de polos do Brasil. Isso nos facilitou bastante, porque hoje não temos atendimento físico, mas proporcionou que alunos de todo o Brasil pudessem fazer parte desse projeto", diz.
O carro-chefe do NAF do La Salle no primeiro mês foi as declarações de imposto de renda. Só em junho foram feitos 64 atendimentos, o que Coelho enxerga como uma grande conquista para um projeto tão novo. "Nós surgimos 'do nada' e o contribuinte confiou nesse grupo para compartilhar informações pessoais e financeiras. De onde não se tinha uma cultura, é um nível bastante alto", aponta.
Dentre as orientações proporcionadas pela unidade estão regularização de CPF, abertura e fechamento de empresas, financiamentos para empresas de pequeno porte e apoio a MEIs, certidões negativas e ajuda com pendências ou irregularidades na declaração de imposto de renda. Além disso, há apoio na parte tributária orientando empresas pequenas que não se estruturaram para suportar o baixo faturamento no período da pandemia, auxiliando elas a se planejar e encontrar o melhor caminho para renegociar dívidas.
Além de um site próprio, o NAF do LaSalle também sana dúvidas por e-mail, Facebook e WhatsApp. "Em qualquer um dos canais o contribuinte cai em um formulário ao qual o aluno tem acesso, estuda o problema e a melhor resposta, isso tudo acompanhado do professor destinado para cada grupo de alunos, e eles formalizam uma responsta. O professor valida se essa resposta pode ir para o contribuinte ou aponta retificação, então depois envia por e-mail para o contribuinte". Todos os registros de documentos são devidamente armazenados e os alunos assinam termo de sigilo, justamente pelos cuidados que a profissão requer.
Ela explica que, como as demandas contábeis atendidas pelos NAFs em geral são de baixo valor, o trabalho dos escritórios contábeis podem sair mais caros do que o pagamento que o contribuinte pode fazer, levando em consideração que R$ 50 é o valor mínimo que um contador cobra para uma consulta e os contribuintes de baixa renda podem ter pendências financeiras de menor valor. Além disso, o escritório pode levar um tempo maior para a análise do problema justamente porque dívidas de pequeno valor não são o foco.
Para Patrícia, o benefício do trabalho dos NAFs é mútuo tanto para o contribuinte quanto para o aluno. "Aqui a gente tem problemas reais. Não quero capacitar meu aluno para problemas que sabemos a resposta, cases já estudados. Quero capacitar meu aluno para interpretar o problema de alguém e saber como procurar a resposta para cada possibilidade de problema".
Para o segundo semestre, depois de reunião de professores com representantes do comércio e vereadores da cidade, o NAF do LaSalle vai iniciar tratativas e entender as demandas do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (PRONAMPE), lançado pelo governo federal em maio para auxiliar o desenvolvimento de microempresas e empresas de pequeno porte, para posteriormente fazer o atendimento individual dos empreendedores.

Núcleo pioneiro ajuda a viabilizar o auxílio emergencial

A readaptação para serviços online também ocorreu na Faculdade São Judas Tadeu, sede do primeiro NAF a ser inaugurado no Brasil, no ano de 2011. Segundo a professora Lilian Martins coordenadora do curso de ciências contábeis, o desafio de reestruturação para este ano foi grande, mas facilitado justamente pelo uso de plataforma virtual para as aulas. "Para isso, precisou da proatividade dos alunos, onde eles se engajaram nessa nova realidade onde recebia as demandas e encaminhava para eles responderem", complementa Lilian.
O NAF da São Judas Tadeu oferece serviços sobre informações cadastrais de CPF e CNPJ, declaração de Imposto de Renda, certidões negativas de débitos e agendamento online para pessoas físicas jurídicas, além de orientação de programas e serviços disponíveis no Portal Receita Federal do Brasil. São seis alunos e um professor responsável, e o aluno integrante converte o tempo investido no projeto em horas complementares. Neste ano foram 83 atendimentos feitos pelo serviço. Ela diz que é muito comum o serviço de consulta de restituição de imposto de renda ou queda na malha fina, possível por causa de pendências como pensão alimentícia, e casos assim ajudam o estudante a se aprimorar dentro da profissão.
"Vem uma demanda muito grande de contribuintes. Os alunos tem que pensar rápido, tem que desenvolver esse lado para se preparar para a comunicação com seu cliente mais adiante e ajudar a tomar decisões rápidas e corretas", diz a professora.
Dos serviços feitos pelo NAF da São Judas Tadeu neste ano, Martins aponta que boa parte foi relacionada ao auxílio emergencial de R$ 600 pago pelo governo federal para pessoas que tiveram perda de renda durante a pandemia. "A gente decidiu que ia ajudar, divulgou no nosso Facebook para poder dar esse apoio, auxiliar nos cadastros e na resolução dos problemas de quem tinha CPF irregular", diz.
Questionada sobre como essa relação próxima entre a comunidade e o estudante é benéfica sob o ponto de vista acadêmico, a professora diz orgulhosa que poderia falar "o dia inteiro" sobre isso. "Pelo que eu vejo da evolução do aluno, ele sai outro do NAF", diz Martins sobre o impacto educativo dos núcleos e a formação de um profissional mais sensível e atento. "Teve uma situação que tinha uma aluna com bastante experiência, e um aluno que estava começando perguntou como iria fazer e responder, e ela disse para prestar bastante atenção no que o contribuinte tá falando".
Por ser justamente o primeiro NAF do País, Martins conta que havia uma troca de experiência nos encontros de NAFs promovidos pela Receita Federal, desde a organização dos serviços até depoimento dos alunos participantes, ajudando assim a estabelecer outros núcleos nas faculdades. A universidade interessada em ter um NAF pode entrar em contato com a Receita Federal para o desenvolvimento do projeto. "Nós temos tanto interesse quanto as universidades para que esse projeto cresça", afirma a auditora fiscal Anelise Hackbart Porn, delegada adjunta da Receita Federal do Brasil em Porto Alegre.
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