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Conjuntura

Notícia da edição impressa de 29/04/2020. Alterada em 29/04 às 15h22min

Reflexos econômicos do novo coronavírus expõem desigualdades entre empresas

Pequenos negócios são os mais expostos aos efeitos da pandemia

Pequenos negócios são os mais expostos aos efeitos da pandemia


/JCOMP/FREEPIK.COM/DIVULGAÇÃO/JC
Roberta Mello
A pandemia do novo coronavírus e seus reflexos na economia são temidos e já sentidos por todos os brasileiros, porém em diferentes graus e intensidades. Há parcelas mais vulneráveis da população, que despertam especial preocupação, pois são as primeiras a enfrentarem o impacto de qualquer mudança. Fazem parte do grupo os trabalhadores informais, os mais jovens, a população periférica e negra, e os micro e pequenos negócios, principalmente os afroempreendedores.
A pandemia do novo coronavírus e seus reflexos na economia são temidos e já sentidos por todos os brasileiros, porém em diferentes graus e intensidades. Há parcelas mais vulneráveis da população, que despertam especial preocupação, pois são as primeiras a enfrentarem o impacto de qualquer mudança. Fazem parte do grupo os trabalhadores informais, os mais jovens, a população periférica e negra, e os micro e pequenos negócios, principalmente os afroempreendedores.
Os dados estatísticos da Junta Comercial do Estado (Jucis-RS) demonstram uma queda de quase 35% no número de empresas constituídas em março (10.061) na comparação com o mesmo mês de ano anterior (15.372). A Jucis-RS considera em seu levantamento mensal empresas limitadas, S.A., cooperativas, MEIs e Eireli.
O número de empresas gaúchas extintas teve queda em março de 2020: foram pouco mais de 4 mil, enquanto, em 2019, esse número chegou a aproximadamente de 5,9 mil. As medidas de distanciamento social tiveram início em meados de março. Os dados consolidados de abril devem dar uma melhor dimensão dos impactos da pandemia sobre as empresas gaúchas.
A empreendedora e coordenadora da Rede Brasil Afroempreendedora no Estado (Reafro-RS) Mariana Ferreira dos Santos alerta que já são muitos os casos de negócios que procuram os integrantes da rede em busca de orientações sobre como podem lidar com a crise. Pensando em dar respostas a vários questionamentos, o grupo pretende realizar uma série de bate-papos on-line com especialistas de cada área para ajudar a elucidar, por exemplo, como encarar as mudanças na legislação trabalhista.
O assunto é um dos que preocupam os empresários devido ao grande número de contratos suspensos e às dúvidas sobre se as empresas conseguirão manter os empregados por muito tempo. As lives serão abertas ao público em geral e querem ajudar a garantir a saúde dos empreendimentos sem colocar em risco os empregos.
Este é o momento de pensar em rede, salienta Mariana, "de valorizar e apoiar os negócios do seu bairro, da sua comunidade". Ela lembra que a crise também é o momento em que as pessoas acabam "empreendendo por necessidade, para driblar o desemprego ou a redução do salário, daí a relevância de ajudar esse público a acessar linhas de crédito, consultorias e assessorias capazes de ajudar".
Ainda não se tem uma radiografia precisa do índice de desemprego no Brasil. A Carta de Conjuntura do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) mais recente, publicada em março e tendo como base de análise os dados dos meses anteriores, ainda não reflete a atual conjuntura no País.
Os dados sinalizavam para a retomada do mercado de trabalho brasileiro com maior intensidade - mas essa realidade mudou rapidamente no País de março para cá.
Entretanto, dois indicadores de mercado de trabalho da Fundação Getulio Vargas (FGV) já apresentam piora de fevereiro para março deste ano. O Indicador Antecedente de Emprego (Iaemp), que busca antecipar tendências do emprego nos próximos meses, caiu 9,4 pontos, indo para 82,6 pontos, em uma escala de 0 a 200, o menor nível desde junho de 2016 (82,2 pontos). O Iaemp é medido com base nas sondagens feitas com empresários da indústria e dos serviços e com consumidores. É a segunda maior queda da série histórica, ficando atrás apenas da ocorrida na crise de 2008 e 2009. 
O outro índice, Indicador Coincidente de Desemprego (ICD), também piorou. Medido com base na opinião dos consumidores sobre a situação atual do desemprego, o indicador subiu 0,6 ponto em março, para 92,5 pontos. Diferentemente do Iaemp, no ICD, a escala é invertida. Quanto mais próximo de zero, melhor o resultado.

Micro e pequenos negócios estão mais vulneráveis aos efeitos da crise

Com a queda abrupta das receitas, empreendedores devem investir em tecnologia e aderir ao e-commerce
Com a queda abrupta das receitas, empreendedores devem investir em tecnologia e aderir ao e-commerce
/STOCKVAULT/DIVULGAÇÃO/JC
O novo coronavírus transpõe as barreiras na disseminação. Porém, quando se trata dos seus efeitos sobre a saúde das pessoas e dos negócios, as desigualdades ficam bem claras. As micro e pequenas empresas são aquelas que já estão sentindo mais profundamente os impactos do novo coronavírus. Maior parte dos negócios no Brasil, o setor é também responsável por mais de 50% dos empregos com carteira assinada, de acordo com o Sebrae. Tudo isso é motivo para colocar uma luz de alerta sobre cada pequeno negócio e buscar maneiras de agir para garantir sua manutenção para depois da crise.
Pensando em maneiras de estimular o consumo junto a esses empreendimentos, o Sebrae está liderando um movimento (#compredobairro) com objetivo de incentivar a população brasileira a priorizar as compras nos pequenos negócios do seu entorno. O Sebrae também tem trabalhado para orientar e capacitar as pequenas empresas para enfrentarem este momento de crise provocado pela pandemia do novo coronavírus. A ideia é estimular os empreendedores a impulsionarem a digitalização de seus negócios e a adesão ao comércio eletrônico.
"Vivemos um momento delicado, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. É hora de darmos as mãos e buscarmos todas as parcerias possíveis para auxiliar as empresas que mais geram emprego no País a atravessarem este período", destaca o presidente do Sebrae, Carlos Melles.
Dentro desse quadro, os negros e pardos são uma ligeira maioria entre os empreendedores no Brasil, segundo a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizada pelo Sebrae em outubro de 2019 com dados do ano anterior. Ao todo, conforme a Rede Brasil Afroempreendedora (Reafro), mais de 13 milhões de negras e negros compõem o ecossistema dos pequenos negócios formais e informais no Brasil. E se cerca de metade do empresariado brasileiro é negro, estima-se que aproximadamente 26% desse indicador é de mulheres afrodescendentes.
Neste momento de crise, 79% das empreendedoras negras não dispõem de reservas financeiras para manter seu negócio diante do atual cenário econômico gerado pela pandemia de Covid-19, enquanto 48% dizem que a principal necessidade é garantir recursos para manter o negócio ativo.
Os dados são da pesquisa Mulheres negras - Saúde financeira e expectativas diante da Covid-19, divulgada pelas entidades Instituto Identidades do Brasil, Comunidade Empodera, EmpregueAfro e Faculdade Zumbi dos Palmares.
A integrante da Reafro e também mentora do Grupo Mulheres do Brasil, Mariana Ferreira dos Santos, salienta que é importante pensar nos negócios pequenos e em quem está sofrendo primeiro com a crise, "que são as mulheres e são as pessoas negras". "A maioria empreende por necessidade e não está preparada para um momento como o que estamos enfrentando. Nosso conselho tem sido: busque outras maneiras de entregar seu serviço ou produto", salienta Mariana.
No cenário de isolamento social ocasionado pela pandemia, 44% das empreendedoras conseguem manter o negócio por apenas um mês com o dinheiro que têm em caixa; 10,3%, por dois meses; 5,1%, por três meses; apenas 4% conseguem sobreviver entre quatro e seis meses; e 33,7% não souberam informar.

Acesso facilitado ao crédito é um dos principais entraves

Carlos Ponce de Leon (esquerda) e Adilson Seixas (direita), sócios da Loara
Carlos Ponce de Leon (esquerda) e Adilson Seixas (direita), sócios da Loara
Loara/Divulgação/JC

O distanciamento social, mesmo que parcial, adotado por alguns estados, é uma das medidas mais importantes para conter a disseminação do novo coronavírus, mas também pode ter um efeito colateral adverso: uma profunda crise econômica. A dúvida é sobre o tempo que isso vai durar. Os mais pessimistas já falam em recuperação econômica somente em 2021.

Com o recente bombardeio de informações e opiniões, é difícil imaginar que muitos dos empresários não se sintam confusos ou angustiados, inclusive sobre que atitudes adotar para salvar o seu negócio. Isso se torna mais grave quando se trata de negócios pequenos, que, na maioria das vezes, têm uma estrutura enxuta de pessoal e têm de ir em busca de profissionais de fora para obter informações sobre tudo o que vem sendo divulgado.

A empresa especializada na busca de crédito para organizações Loara adverte que, mesmo assim, não é preciso entrar em pânico. Agora, é a hora de "concentrar a atenção em soluções que estão sob nosso controle e dar oportunidades e condições para que as empresas atravessem este período crítico dos próximos meses".

Os primeiros anúncios de linhas de crédito capazes de injetar capital de giro aos negócios vieram dos bancos públicos, prometendo reforço nas linhas destinadas às pequenas e às médias empresas. Depois, dizem os sócios da Loara, Adilson Seixas e Carlos Ponce de Leon, foi anunciada a postergação, pelos cinco maiores bancos em operação no Brasil, dos pagamentos de empréstimos por 60 dias. Mais recentemente, o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) colocou à disposição R$ 5 bilhões em crédito novo, e o Banco Central anunciou um pacote de mais de R$ 1 trilhão para injetar liquidez na economia.

O primeiro ponto a se destacar, segundo os especialistas, é que, apesar da relevância dessas decisões,há muita burocracia para postergar as dívidas. Assim, as empresas enfrentam dificuldades e demora para que as medidas cheguem até elas.

Especialistas sugerem renegociação de aluguel e troca de dívida cara

Para equilibrar as contas enquanto a empresa está fechada ou funcionando em marcha lenta, empresários têm de cortar despesas não essenciais, postergar pagamentos e negociar descontos. "É preciso abrir o jogo com fornecedores e funcionários e deixar claro qual o grau de dificuldade da empresa", afirma o professor Arthur Ridolfo Neto, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Adiar o pagamento de impostos é uma das atitudes tomadas por quem está com as contas no vermelho. O consultor do Sebrae, Rogério Cardoso, diz que "os empresários precisam estar cientes de que, ao fazerem isso, durante algum tempo, vão acumular impostos de dois meses em um". Outro passo importante é retomar as vendas usando redes sociais e adotar a tele-entrega.

Renegociar dívidas e outros pagamentos também é algo interessante de se fazer, segundo o especialista da FGV. Limitar a variedade de mercadorias exige atenção, ainda mais agora, afirma Ridolfo.

"O consumidor vai onde encontra tudo, porque não quer sair de casa." Se a restrição de itens for necessária, o ideal é montar um mix com produtos essenciais, que variam conforme o público, diz Jacques Gelman, da FGV.

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