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Reportagem Especial

- Publicada em 22h11min, 14/03/2021.

O efeito devastador da pandemia no setor de eventos no RS

Experiência gaúcha em eventos-teste tem sido levada a congressos e feiras nacionais do setor

Experiência gaúcha em eventos-teste tem sido levada a congressos e feiras nacionais do setor


/RCL FOTOGRAFIAS/DIVULGAÇÃO/JC
Fernanda Crancio
Um ano se passou desde o registro do primeiro caso de Covid-19 no Rio Grande do Sul, confirmado em 10 de março de 2020. Três dias depois, o governo gaúcho assinava decreto relativo ao enfrentamento da disseminação do novo coronavírus, com orientações para a suspensão de viagens e dicas de prevenção. Na sequência, vieram ações restritivas, que implicaram, entre outras medidas, na proibição de eventos.
Um ano se passou desde o registro do primeiro caso de Covid-19 no Rio Grande do Sul, confirmado em 10 de março de 2020. Três dias depois, o governo gaúcho assinava decreto relativo ao enfrentamento da disseminação do novo coronavírus, com orientações para a suspensão de viagens e dicas de prevenção. Na sequência, vieram ações restritivas, que implicaram, entre outras medidas, na proibição de eventos.
De lá para cá, uma ampla mobilização pela retomada gradual e responsável das atividades de entretenimento, turismo e lazer foi travada, mas o recrudescimento da pandemia no Estado congelou qualquer expectativa de retorno aos profissionais do segmento, que mobiliza no Rio Grande do Sul mais de 340 empresas e gera cerca de 500 mil empregos diretos e indiretos, com uma ampla cadeia de fornecedores.
Fortemente impactado pela necessidade de isolamento social, o setor de eventos foi um dos primeiros a paralisar atividades e iniciou, já em março de 2020, a busca por estratégias que sensibilizassem autoridades para criar alternativas viáveis e seguras ao mercado, como a elaboração de protocolos que permitissem a reabertura de acordo com as exigências de cada bandeira do modelo do distanciamento controlado do governo do Estado.
A realização de eventos-teste parecia o caminho para a retomada gradual, mas um revés acertou em cheio o setor no início deste ano, com a piora nos indicadores da pandemia e, desde fevereiro de 2021, a adoção da bandeira preta, em virtude da alta em internações e óbitos, lotação de UTIs e nova variante do coronavírus no Estado.
"Parece batido, mas fomos os primeiros a parar e seguiremos sendo os últimos a voltar, diante do cenário da Covid. Não temos mais ilusão, 2021 será outro ano perdido para os eventos. Na melhor das hipóteses, podemos pensar em algum tipo de atividade mais para o final do ano, mas, hoje, voltar parece impossível, não há perspectiva", desabafa o vice-presidente da Associação Gaúcha de Empresas e Profissionais de Eventos (Agepes), Alexandre Graziadio.
O impacto da inatividade do setor em 2020 afeta um segmento que movimenta anualmente mais de R$ 2 bilhões no Rio Grande do Sul, e fatura, em todo o Brasil, cerca de R$ 209 bilhões por ano. No País, segundo a Associação Brasileira de Promotores de Eventos (Abrape), o prejuízo da paralisação da cadeia de eventos supera R$ 90 bilhões. "Os cofres públicos podem deixar de arrecadar, em 2021, R$ 4,65 bilhões em impostos federais, se nada for feito", destaca o presidente da Abrape, Doreni Caramori Júnior.
São mais de 561 mil empresas impedidas de operar e sem perspectiva de se manterem ativas, uma vez que os serviços dependem de aglomerações, o que deve ser evitado na pandemia. "Não é um setor que possa esticar seus serviços, ou seja, o que tinha a oferecer se perdeu em 2020, e ele faturou zero no último ano", comenta a especialista em competitividade empresarial do Sebrae, Amanda Paim.
Como consequência, a ampla rede de fornecedores de eventos, a maioria formada por microempresas, não teve outra alterativa além de fechar as portas no ano passado, diante da total falta de receita.
Segundo Pesquisa de Monitoramento dos Pequenos Negócios do Sebrae/RS, lançada em janeiro de 2021, de 12% das empresas que não estavam funcionado no Estado, 19% decidiram fechar definitivamente, sendo as principais razões relacionadas à falta de clientes e de capital de giro, além da incapacidade de reposicionamento do negócio. Desses empreendimentos, 65% são do setor de serviços, que agrega empreendedores da área de eventos.
Presidente do Porto Alegre e Região Metropolitana Convention e Visitors Bureau, Adriane Hilbig comenta que alguns meses atrás havia uma perspectiva mais clara do que agora sobre o futuro do segmento, diante do agravamento da pandemia e o aumento das restrições. Por conta da falta de norte, ela aponta que o setor de eventos seguirá vivenciando uma incógnita. "Existia um projeto otimista de retorno para 2021, que não está se confirmando, pois o comportamento das pessoas continua sendo a grande arma a favor e também contra a melhora da situação da pandemia", avalia Adriane, referindo-se às aglomerações que afetam a piora dos indicadores no Rio Grande do Sul.

A expertise dos eventos-teste e o novo comportamento para a retomada

Araújo Vianna foi palco de show-teste, com Serginho Moah; assentos foram bloqueados para distanciar o público
Araújo Vianna foi palco de show-teste, com Serginho Moah; assentos foram bloqueados para distanciar o público
/JOYCE ROCHA/arquivo/JC

Até então considerado passo fundamental no avanço da liberação de eventos no Rio Grande do Sul, a promoção de testes, no segundo semestre de 2020, buscava mostrar às autoridades a capacidade de organização e o comprometimento do segmento com as medidas sanitárias e de prevenção à Covid-19.

Com rígidos protocolos elaborados após muita deliberação com órgãos governamentais, comitês de enfrentamento à pandemia e profissionais da saúde, cinco eventos-teste foram realizados no Rio Grande do Sul ao longo do ano, numa tentativa de mostrar que a retomada gradual e responsável das atividades era possível.

Voltadas à capacitação da cadeia de profissionais e parceiros, as atividades permitiram colocar em prática protocolos e comprovar que era possível manter a segurança em um evento na pandemia.

No entanto, diante do recrudescimento de casos e mortes por Covid-19, essas medidas foram insuficientes para garantir a retomada das atividades, permitidas com limitação em novembro, mas suspensas novamente em dezembro, ceifando a esperança de milhares de profissionais de casas de festas e bailes, de espetáculos, bandas e de seus fornecedores, que vislumbravam um 2021 mais promissor.

Dos eventos-teste promovidos, dois foram sediados na Serra (em Bento Gonçalves e Gramado), e três na Capital. Foram simulados congressos, show, feiras de negócios, e realizado, em outubro, o primeiro evento-teste com participação de público, em Porto Alegre, a 4ª SindExpo, no Centro de Eventos da Fiergs.

Em novembro, o setor de feiras de rua, que movimenta a economia criativa, também promoveu um evento nesses moldes, para capacitação de expositores, produtores e fornecedores, com presença controlada de público e aplicação de todos os protocolos exigidos.

Todas as simulações foram acompanhadas por autoridades e realizadas respeitando medidas de distanciamento entre o público, com uso obrigatório de equipamentos de proteção individual (EPIs), medição de temperatura, oferecimento de álcool gel e ingressos disponibilizados via internet, entre outras exigências.

"Sempre defendemos uma retomada gradual com responsabilidade, não aglomerar gente como tanto se viu por aí, em eventos clandestinos, mas adotar medidas de segurança para os eventos que forem possíveis de serem realizados", comenta Adriane Hilbig, presidente do POA Convention Bureau, que representa 140 empresas.

Graças à expertise adquirida pelo setor de turismo e eventos com a realização dos testes e elaboração de protocolos, o Rio Grande do Sul virou case de sucesso na área, com reconhecimento no Brasil e fora dele, levando a experiência de implementação de normas de controle e condutas a outras localidades.

"Nossos testes nos permitiram entregar eventos e serviços com alto padrão de segurança, mostrando que os eventos eram seguros. Precisamos retomar, com outros padrões, mas provar que temos condições de nos readequarmos e superarmos essa fase", enfatiza a consultora de Marketing de Turismo e do POA Convention Bureau, Vaniza Schuler.

Os principais representantes do setor de eventos seguem cobrando isonomia com outros segmentos que tiveram flexibilização em suas atividades, como comércio, shoppings e restaurantes.

"Nosso trabalho não é apenas entretenimento para quem está assistindo, mas uma atividade essencial para os diversos profissionais que atuam nos bastidores. O que é entretenimento para uns é atividade essencial para quem está lá ralando", destaca Rodrigo Machado, representante do Grupo Live Marketing RS, que reúne 340 empresas do setor no Estado, e um dos sócios da Opinião Produtora.

Comportamento do público e nova conduta profissional são desafios

Volta passa por conscientização, diz Adriane, do POA Convention Bureau
Volta passa por conscientização, diz Adriane, do POA Convention Bureau
/JOYCE ROCHA/arquivo/JC

Por mais que a liberação de eventos no Estado ainda esteja longe de ocorrer, a retomada dependerá, impreterivelmente, da necessidade de resgatar nas pessoas a sensação de segurança ao frequentar shows, festas e espetáculos em geral.

Para a consultora de Marketing de Turismo e do Porto Alegre e Região Metropolitana Convention e Visitors Bureau, Vaniza Schuler, será preciso desencadear um movimento de resgate de comportamentos e de "reconstruir o hábito de sair de casa".

"Hoje o desafio é ainda maior, porque além de preparar os eventos em novo formato, com protocolos e exigências, teremos de tirar as pessoas de casa. E, por mais que as coisas possam estar melhores em um futuro próximo, as pessoas não vão começar a sair direto para os eventos, porque há o medo. Não teremos só de lutar pela abertura dos eventos, mas para resgatar comportamentos, esse será o grande desafio do setor de eventos", avalia.

Especialista em competitividade empresarial do Sebrae, Amanda Paim, ressalta que há formas de promover eventos em meio à pandemia, mediante responsabilidade de todos os envolvidos e cumprimento dos protocolos exigidos. No entanto, alerta que um trabalho sério de educação das pessoas e de fiscalização e denúncia aos que descumprirem as medidas de proteção à Covid-19 deve ser priorizado.

"É preciso que as pessoas passem a sair com uma nova perspectiva e sejam educadas para isso. É preciso permitir que as pessoas voltem a trabalhar de forma adequada e cumprindo as medidas e protocolos, e impedir os que não o fazem. Esse será o grande desafio da retomada", reforça.

Para Adriane Hilbig, presidente do Porto Alegre e Região Metropolitana Convention e Visitors Bureau, alguns tipos de eventos, como feiras e reuniões de negócios e corporativas, têm condições de se ajustarem mais rapidamente às necessidades do mercado e dos protocolos sanitários, conforme venham a surgir novas flexibilizações.

No entanto, o futuro dos eventos ainda dependerá estritamente do comportamento das pessoas. "Não adianta nada a gente seguir regras e protocolos, controlar o comportamento das pessoas no ambiente dos eventos, se dali para fora elas seguirem se aglomerando. Enquanto as pessoas não se comprometerem com as regras de distanciamento, se protegerem e evitarem aglomerações, vai ser muito difícil voltarmos", enfatiza.

Eventos híbridos são alternativa para manter setor vivo e ampliar alcance das ações

Julio Custódio pensou em alternativas voltadas ao ambiente virtual
Julio Custódio pensou em alternativas voltadas ao ambiente virtual
/MARIA DO SOCORRO/ DIVULGAÇÃO/JC

Para se manter em meio à pandemia, algumas empresas do setor de eventos vêm se rendendo às possibilidades do meio digital, como shows e espetáculos transmitidos via live, congressos e feiras com palestras remotas, reuniões corporativas e associativas via Zoom e aniversários e formaturas com transmissão instantânea. Nem todos os serviços da cadeia de eventos, no entanto, podem ser oferecidos dessa forma, mas o futuro das atividades do segmento está calcado na adequação ao formato híbrido.

Para Julio Custódio, sócio-fundador da URBN Experience, empresa voltada a ações com foco na experiência de marcas, com atuação em todo o Brasil, os eventos híbridos são "o presente e futuro do setor". Segundo ele, diante da impossibilidade de as pessoas estarem nas ruas, o encontro passou a ser virtual, e o mercado, empresas e consumidores tiveram de se adequar a essa imposição pandêmica.

"Dentro desse ambiente virtual tivemos de pensar em produzir alternativas que trouxessem aquela experiência que tínhamos nas ações e eventos presenciais, porém, sem expor as pessoas na rua. Assim, vimos que que o estar na rua não é necessariamente físico", comenta.

Na agência, os eventos híbridos passaram a ser bem-sucedidos e a receber atenção redobrada. Entre as ações realizadas, ele destaca uma live com a cantora Ludmilla para apresentação do PicPay, e o congresso Rede Sentinela da Anvisa, evento anual que migrou para o formato online, com apenas palestrantes presencialmente, e conseguiu dobrar a audiência.

"O congresso da Anvisa teve alcance de 500 pessoas com a transmissão online e custos menores para os organizadores. Ou seja, no formato híbrido o céu é o limite, temos de saber explorar as ferramentas de tecnologia a nosso favor", destaca o empresário.

Adriane Hilbig, do Porto Alegre e Região Metropolitana Convention e Visitors Bureau, ressalta que a única forma de voltar a se pensar e planejar eventos, nesse momento, é adotando o formato híbrido. "O futuro dos eventos é híbrido, sem sombra de dúvidas. E todos têm de se adaptar, a regra é erro e acerto, acerto e erro. A tecnologia nos permite ampliar o alcance dos nossos eventos, o que é fundamental nesse momento, e transmitir conhecimentos", completa.

Para a consultora do Porto Alegre e Região Metropolitana Convention e Visitors Bureau, Vaniza Schuler, os eventos híbridos são uma realidade que demorou a se consolidar. "Já há mais de 10 anos se falava em eventos online, e isso não evoluiu porque não se quis investir nem mudar o que estava estabelecido. As novas plataformas nos permitem atingir um público muito mais amplo e engajar as pessoas ao evento, é o clímax disso tudo. Os eventos não deixarão mais de ser híbridos", conclui.

Festival de Folclore de Nova Prata tenta se reinventar

Apresentação de grupo do Cazaquistão foi transmitida no formato digital
Apresentação de grupo do Cazaquistão foi transmitida no formato digital
/FIFNP/DIVULGAÇÃO/JC

Promovido anualmente em Nova Prata, na serra gaúcha, o Festival Internacional de Folclore de Nova Prata teve de se reinventar em 2020, com a impossibilidade de receber delegações de outros países e contar com a presença de público nas apresentações. Para viabilizar o evento, que envolve a comunidade e integra artistas do mundo todo, a 16ª edição foi remodelada para o formato digital.

De acordo com os coordenadores, ter de organizar, às pressas, um festival pela primeira vez virtual, com investimentos menores, e reunir remotamente grupos folclóricos de 14 países, em uma maratona diária de 12 horas de apresentações, foi um grande desafio.

"Levamos ao público um entretenimento diferente do que a televisão proporciona, de graça, e em um período de isolamento social. As pessoas puderam vivenciar em casa o calor do festival", diz André Nedeff, presidente do evento, que destaca as milhares de visualizações, likes e compartilhamentos.

Realizado nos dias 5 e 6 de dezembro, o festival online obteve um alcance inesperado, cerca de 50 mil visualizações, com uma audiência de cerca de mil pessoas a cada apresentação ao vivo. Para 2021, o modelo híbrido deve ser repetido, provavelmente em setembro, com a competição sendo novamente compartilhada em telas de todo o mundo.

DJ da festa Balonê tenta modelo online e drive-in

Taís Scherer, de Porto Alegre, tem contato com o público via Spotify
Taís Scherer, de Porto Alegre, tem contato com o público via Spotify
/FOTOS Johnny Marco Baptista Jr/DIVULGAÇÃO/JC

O reflexo da proibição das atividades de entretenimento e lazer foi sentido no bolso de milhares de profissionais que dependem de eventos e aglomerações para sobreviver. São empresários de casas noturnas e de espetáculos, garçons, seguranças, manobristas, produtores, cozinheiros e tantos outros que, de uma hora para outra, se viram impossibilitados de exercerem suas atividades, em um momento onde as incertezas ainda imperam.

Tem sido assim para a DJ porto-alegrense Taís Scherer, um dos nomes à frente da Balonê, tradicional festa anos 80 da Capital, que mensalmente fazia circular no Bar Ocidente um público superior a 700 pessoas.

Logo que as restrições a atividades foram anunciadas, em meados de março de 2020, ela tratou de transferir a festa para o YouTube, mantendo a programação por meio de lives, transmitidas gratuitamente ao público fiel do evento, que neste ano completa duas décadas.

As visualizações online chegaram a alcançar 3 mil pessoas em uma só edição, e fizeram com que a equipe por trás do evento tentasse reverter a audiência em cachê. A opção encontrada foi criar vaquinhas virtuais, rifas e promoções que levassem o público a pagar ingresso simbólico para ter acesso ao link exclusivo. No entanto, o ineditismo da ação não atraiu os festeiros. O passo seguinte foi transmitir a Balonê via plataforma Zoom, com pagamento de ingresso, mas, mais uma vez, o projeto não obteve o retorno satisfatório de público.

"Tínhamos toda uma produção por trás, tocávamos por 4, 5 horas a fio e o retorno financeiro não compensava, tivemos cerca de 50 pagantes na edição de outubro, quando desistimos desse modelo", conta Taís, que não acreditava que as restrições às atividades passariam do meio do ano.

Em julho, quando houve um dos picos da pandemia, a DJ foi convidada para levar a festa ao modelo drive-in, que passou a ser uma das formas encontradas por promotores de evento para minimizar perdas e garantir os cachês dos profissionais da área.

Entre críticas e elogios recebidos por aceitar a empreitada, o evento contou com a participação de cerca de 100 carros - com uma média de duas pessoas cada - mas, devido à ampla estrutura necessária, também não compensou o investimento dos organizadores.

"Aquela noite não foi para ganhar dinheiro, mas foi muito emocionante, porque voltei a tocar após meses, vendo a reação e a alegria das pessoas, que, mesmo de dentro dos carros, dançavam, buzinavam e davam sinal de luz a cada música. Foi uma experiência muito rica", conta a DJ.

Para se reinventar nesse período, e enquanto não há possibilidade de planejar o retorno das atividades, Taís investe nas redes sociais da festa e tem mantido o contato com o público também via Spotify, onde libera os setlists da icônica Balonê.

"Mais do que nunca não temos previsão de quando as festas poderão voltar, e isso é muito triste, porque é uma atividade que envolve muita gente. Tocar não me traz apenas retorno financeiro, é um prazer divertir os outros", destaca ela, que conseguiu desenvolver uma atividade secundária ao longo da pandemia, para driblar o impedimento dos eventos.

Segmento cobra apoio governamental para a manutenção das atividades

Amanda Paim avalia que dificuldade para obter crédito agravou a crise
Amanda Paim avalia que dificuldade para obter crédito agravou a crise
/MARCELO G. RIBEIRO/arquivo/JC
Fernanda Crancio *
Impossibilitada de operar a pleno, a maioria maciça das empresas de eventos permanece sem receita. Agora, com o fim do Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e Renda - que permitia suspensão de contratos e redução de jornada, e que pode voltar em um novo formato neste ano -, tem de cumprir com as obrigações trabalhistas e pagar financiamentos obtidos no início da crise.
Uma das principais queixas do setor refere-se à falta de apoio dos governos municipais e estadual, que não disponibilizaram linhas de crédito específicas para atender ao segmento nem negociaram redução de tributos das empresas de eventos.
Além disso, a dificuldade em obter crédito junto às instituições financeiras figura entre as principais reclamações dos empresários. Segundo a Pesquisa de Monitoramento dos Pequenos Negócios, desenvolvida pelo Sebrae em janeiro, a busca por crédito ao longo de 2020 foi realidade de 42% das empresas gaúchas que integram o levantamento. Ainda assim, boa parte dos empreendedores do setor de eventos não foi contemplada, por operar na informalidade.
"As dificuldades tanto de oferta quanto de acesso a linhas de crédito foram determinantes para o agravamento da crise do setor desde o início da pandemia. Além disso, empresas que conseguiram obter financiamentos estão enfrentando a dificuldade para começar a cumprir com os pagamentos, ainda sem receita nem possibilidade remota de caixa", comenta Amanda Paim, especialista em competitividade empresarial do Sebrae.
Para os que não conseguiram crédito, a falta de garantias ou avalistas e restrições cadastrais das empresas e ou sócios apareceram como principais entraves.
Segundo o vice-presidente da Associação Gaúcha de Empresas e Profissionais de Eventos (Agepes), Alexandre Graziadio, há falta de atenção dos governos e de empatia dos bancos com o empreendedor que está sem ganhos. "Os bancos públicos, que deveriam ser os primeiros a nos auxiliarem, não entendem nossa necessidade. Não queremos ter de efetivar novos empréstimos para quitar outros, precisamos de prorrogação de prazos e facilidades para mantermos a cabeça fora da água", declara.
No Rio Grande do Sul, tratativas vêm sendo feitas com o BRDE, que lançou em janeiro uma linha de crédito especial voltada à economia criativa, para atender às demandas dos segmentos impactos pela pandemia.
No entanto, segundo o representante da Agepes, apenas 10% dos empresários associados à entidade se habilitaram ao benefício, e aguardam há mais de 30 dias pela análise de seus contratos, embora o banco ressalte que o benefício tem prazos diferenciados e análise simplificada. "Não é que as empresas não estejam capacitadas, mas o BRDE está sendo moroso, e não se dá remédio a defunto. Ou seja, se demorar muito, esse empréstimo nem adiantará mais", avalia Grazadio.
O setor cobra ainda adequação do benefício às peculiaridades dos empresários do segmento, com alterações em pontos como os valores máximos concedidos e as garantias exigidas.
 

Técnico de iluminação investe em marcenaria criativa

Maico Nunes aposta na marcenaria criativa para driblar a impossibilidade de trabalhar como técnico de iluminação de espetáculos
Maico Nunes aposta na marcenaria criativa para driblar a impossibilidade de trabalhar como técnico de iluminação de espetáculos
/MAICO NUNES/ARQUIVO PESSOAL/JC

Com mais de 15 anos de atuação no setor de eventos como técnico de iluminação, Maico Nunes também não vislumbrava ficar mais de um ano longe do agito dos shows e espetáculos teatrais em que trabalhava. Profissional requisitado no meio, conta que chegou a ter quinzenas com 12 eventos nacionais e internacionais na agenda.

Em março do ano passado, quando foi chamado na empresa em que trabalhava com carteira assinada e ouviu dos chefes a possibilidade de ter a atividade suspensa por pelo menos seis meses, não levou a sério. "Achei que o pessoal estava exagerando, como os eventos iam ficar até setembro sem funcionar?", indaga.

Doze meses depois, com a queda do salário mensal, teve de se reinventar profissionalmente. Ao se deparar com preços altos para a compra de um arranhador para seus gatos, decidiu se aventurar a construir sozinho o equipamento. O resultado agradou tanto, que ao postar uma foto do produto nas redes sociais foi imediatamente incentivado a investir em novas unidades para a venda.

Do arranhador para o trabalho com móveis e produtos de decoração em madeira foi um pulo, e desde maio de 2020 Nunes criou, com apoio da esposa, a Ma_dê, empresa que desenvolve produtos criativos em madeira.

O que antes complementava a renda passou a ser a única fonte, desde que Nunes se desligou da empresa de eventos, em novembro, e passou a se dedicar exclusivamente ao ateliê. "Resolvi arriscar. Enquanto durar a pandemia vou ficar trabalhando com madeira, mas não vou abandonar minha carreira, sigo esperando a volta dos eventos", reforça.

Programa Emergencial de Retomada do Setor tramita no Senado

No dia 3 de março, após intensa mobilização do segmento, foi aprovado em primeiro turno, na Câmara dos Deputados, o Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse), articulado pela Associação Brasileira de Promotores de Eventos (Abrape) com as empresas do setor.

O projeto de lei, que agora tramita no Senado Federal, busca promover crédito, preservar empregos e colaborar para a manutenção do capital de giro e desoneração fiscal das empresas.

A medida também prevê a manutenção da suspensão e redução dos contratos de trabalho, fundamentais para garantir a sobrevivência do setor enquanto as atividades seguem restritas, e meios para cobrir o endividamento contraído pelo segmento no período sem operar.

Protocolado em 22 de dezembro do ano passado, pelo deputado federal Felipe Carreras (PSB-PE), o projeto (PL 5.638/2020) é visto como essencial para a preservação das empresas e empregos.

"Somente dessa forma, será possível evitar o colapso total do setor", ressalta o presidente da Abrape, Doreni Caramori Júnior.

Segundo ele, foram perdidos, desde o início da pandemia, mais de 335 mil empregos formais no setor, em todo o País. Esse número ultrapassa 450 mil trabalhadores, se forem considerados os que atuam indiretamente na cadeia de eventos.

Entre os benefícios do Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos estão incrementos na oferta de crédito, refinanciamento do passivo fiscal das empresas, isenção fiscal para minimizar as perdas durante a pandemia, reprogramação dos eventos cancelados e adiados e proteção ao consumidor, e manutenção dos empregos, por meio da retomada da redução ou suspensão dos contratos, enquanto o setor continuar impedido de operar.

Perfil

Jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), com especialização em Jornalismo Digital, é repórter do site do Jornal do Comércio, com passagem pela editoria de Política, por assessorias de imprensa e pelo Jornal Zero Hora.
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