Porto Alegre, sexta-feira, 08 de janeiro de 2021.
Dia Nacional do Fotógrafo.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
sexta-feira, 08 de janeiro de 2021.
Corrigir texto

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Reportagem especial

- Publicada em 20h57min, 03/01/2021. Atualizada em 10h57min, 08/01/2021.

Verão na pandemia é desafio para o Litoral Sul

Cidades como Rio Grande registraram grande procura por locação de imóveis e hospedagem

Cidades como Rio Grande registraram grande procura por locação de imóveis e hospedagem


Luciana Alves/Divulgação/JC
Álvaro Guimarães, de Rio Grande*
Ao abrir sulcos na areia e erguer barreiras de terra com meio metro de altura para evitar os carros de chegarem à beira da praia do Cassino, em Rio Grande, as escavadeiras da prefeitura ajudaram, também, a materializar um sentimento espalhado pelas comunidades do Litoral Sul, que têm na temporada de verão uma oportunidade de diversificar e impulsionar suas economias: a incerteza.
Ao abrir sulcos na areia e erguer barreiras de terra com meio metro de altura para evitar os carros de chegarem à beira da praia do Cassino, em Rio Grande, as escavadeiras da prefeitura ajudaram, também, a materializar um sentimento espalhado pelas comunidades do Litoral Sul, que têm na temporada de verão uma oportunidade de diversificar e impulsionar suas economias: a incerteza.
Seja na Costa Doce ou à beira mar de cidades gaúchas, empreendedores, lideranças empresariais, políticos, trabalhadores e comunidade se declaram incapazes de projetar o que virá nos meses adiante. Apesar das incertezas sobre a alta temporada, investimentos são feitos e esperanças renovadas, afinal é difícil não atribuir aos meses de janeiro e fevereiro a capacidade de afastar as mazelas que ao longo de 2020 assolaram a todos.
Ao fazer isso, os empreendedores, grandes ou micro, buscam vislumbrar um aumento dos negócios capaz de cobrir os prejuízos acumulados em um ano no qual as vendas no varejo tiveram redução de 5% conforme a mais recente edição do Boletim da Receita Estadual, enquanto o faturamento do setor hoteleiro despencou 75% de acordo com as contas da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio Grande do Sul (ABIH-RS).
O desenho da crise no setor turístico ganha cores mais dramáticas com os números da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico e Turismo (Sedetur), que indicam o fechamento de 3 mil empresas do trade em 2020. Por si só esse dado ajuda a compreender a torcida de milhares de pessoas pela chegada da temporada de veraneio e a tradicional migração para as cidades litorâneas.
"O impacto foi violento, mas o segmento responde muito rápido e na mesma proporção do aumento do fluxo o empreendedor vai recontratar para atender a demanda e logo isso vai representar um aquecimento de toda a economia gaúcha", analisa o secretário Rodrigo Lorenzoni, titular da Sedetur.
A vice-presidente da ABIH-RS, Ivone Ferraz, corrobora a declaração do secretário ao afirmar que um terço das vagas extintas no setor hoteleiro gaúcho por causa da pandemia já foram reabertas nos últimos 30 dias. "A nossa expectativa é de o setor ter condições de recuperar perto de 70% das perdas acumuladas no ano", diz.
A propalada resposta rápida do trade turístico à crise se transforma em esperança para milhares de pessoas que perderam seus empregos durante 2020, especialmente nos três maiores municípios do Litoral Sul - Pelotas, Rio Grande e São Lourenço do Sul - onde 20.208 trabalhadores foram demitidos nos setores do comércio e serviços ao longo do ano, sendo que 2,7 mil permanecem sem trabalho de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho.
Diante dessa realidade, até os últimos dias de novembro, informações sobre a grande procura pela locação de imóveis de temporada e hospedagem nas praias de São Lourenço do Sul, Rio Grande e Pelotas vazavam das imobiliárias e das recepções de pousadas e hotéis para animar o mercado de trabalhadores, comerciantes e prestadores de serviços e a possível invasão de turistas é vista pelas comunidades mais como benéfica do que como um risco.
"Acredito que a cidade vai estar lotada por toda a temporada movimentando nossa economia e principalmente o comércio, mas não vamos permitir aglomerações, além disso temos um dos melhores sistemas de saúde e alguns dos menores índices de contaminação da região, então, creio que não haverá problemas", diz o prefeito reeleito de São Lourenço do Sul, Rudinei Harter (PDT).
O cancelamento da agenda de eventos como o tradicional Réveillon com show pirotécnico, os shows da praia da Barrinha, as atividades do Verão Sesc e o fechamento do Camping Municipal são apresentados pelo prefeito como medidas tomadas para garantir o cumprimento do distanciamento social. Além disso, a prefeitura pretende manter uma campanha de conscientização dos visitantes para que respeitem os protocolos também nas praias.
Em Rio Grande, o novo prefeito Fábio Branco (MDB) participou, a convite do ex-prefeito Alexandre Lindenmeyer (PT), das reuniões semanais do gabinete onde foram definidas estratégias para o enfrentamento da pandemia. Apesar de adotar um discurso mais contido, garante que o tema do veraneio no Cassino foi recorrente nas discussões da transição dos governos. "Sabemos da importância do Cassino e vamos fazer um amplo diálogo com a sociedade baseado na preocupação com a saúde, mas trabalhando para não inviabilizar a economia. Vamos construir a melhor alternativa com responsabilidades mútuas", declara Branco.

Consumo e procura de imóveis em alta gera grandes expectativas

Farias reabriu a sorveteria em novembro após nove meses sem trabalhar em função do isolamento social
Após nove meses sem trabalhar em função da pandemia, Farias reabriu a sorveteria em novembro
Álvaro Guimarães/Divulgação/jc
Antes de o governador Eduardo Leite (PSDB) proibir o acesso às praias gaúchas no decreto publicado em 1º de dezembro, a crescente procura por imóveis de temporada somado ao movimento acima do normal registrado no comércio animou quem decidiu investir no litoral.
É o caso do comerciante Rogério Farias que, no início de novembro, reabriu sua sorveteria na praia do Cassino após noves meses sem trabalhar por causa da pandemia. Nas últimas semanas ele viu o movimento na loja aumentar significativamente, a ponto de ter de restringir o acesso dos clientes, nos finais de semana.
"A gente tem que deixar entrar cinco ou seis e controlar o público, mas o movimento está bom, o que ajuda muito pois tivemos de fechar antes no verão passado por causa da epidemia e só reabrimos agora", diz. A incapacidade de prever as restrições contidas nos decretos estaduais e municipais a serem publicados a partir da segunda quinzena de dezembro não é suficiente para Farias deixar de crer em um verão de bons negócios. "Levanto toda manhã com uma boa expectativa, senão nem viria abrir".
Se a procura registrada nas imobiliárias do Litoral Sul se transformar em negócios fechados, tanto Souza como outros trabalhadores contratados pelo comércio das praias não terão dificuldade de manter seus empregos até março. De São Lourenço do Sul até Santa Vitória do Palmar os relatos são de uma demanda por locações de temporada acima da média se comparado com anos anteriores.
"As pessoas estão ávidas por sair de casa, ver outras paisagens, ter outras rotinas, não aguentam mais ficar dentro de casa", diz o corretor Wilson Rodrigues de Santa Vitória do Palmar ao buscar uma explicação para o aumento da procura por casas nas praias do Hermenegildo e da Barra do Chuí.
A percepção de Rodrigues se repete entre seus colegas estabelecidos em outras praias da Zona Sul. Profissionais experientes como Toni Neutzling, que administra uma carteira com 350 imóveis de temporada em São Lourenço do Sul, e André 'Laranjal' Gonçalves - que teve o nome da praia incorporado ao seu pelos clientes - calculam um incremento de aproximadamente 20% na procura com relação ao mesmo período do ano passado no embalo desse sentimento de "aprisionamento", causado pelas restrições dos meses de pandemia.
Em Pelotas o interesse por casas no Laranjal tem sido tanto que Gonçalves precisou sair em busca de proprietários interessados em locar seus imóveis para poder atender a clientela. "Pela primeira vez em 30 anos coloquei anúncios procurando imóveis para alugar, pois a demanda está muito maior do que a oferta", diz.
Enquanto isso, em São Lourenço do Sul, Neutzling tem mantido suas três lojas abertas de domingo a domingo para poder dar conta de atender toda a clientela. "Pelo que temos percebido vai ser um verão muito bom", atesta.
Nas três maiores cidades a preferência geral por casas amplas, com piscinas, quintais ou jardins mostra que parte dos interessados não deve mudar os planos de passar algumas semanas no litoral mesmo se as restrições de acesso às praias permanecerem por mais tempo. "Praticamente não há mais imóveis grandes disponíveis para locação para o final do ano, já está tudo lotado", confirma Luis Carlos Gonçalves, que há 27 anos atua como corretor no Cassino.

Apesar do aumento de custos, preços congelados servem de atrativos

Praia do Laranjal, em Pelotas, oferece praticamente mesmos valores de 2019
Praia do Laranjal, em Pelotas, oferece praticamente mesmos valores de 2019
Divulgação/Marcel Avila
Após um ano marcado pela recessão e no qual a economia gaúcha minguou, tanto os aluguéis de temporada como as diárias de hotéis e pousadas estão praticamente congelados no Litoral Sul e permanecem nos mesmos patamares praticados na última temporada. "Não há como agregar mais valor do que já é praticado por isso a tabela de 2019 será mantida e as empresas irão absorver os custos sem repassar à clientela", diz o empresário Sidnei Vilela.
Esse raciocínio tem sido seguido pela maior parte dos empresários e proprietários também como forma de reafirmar ao público que viajar para o Litoral Sul nestas férias de verão pode fazer bem para o bolso da família.
Em qualquer uma das cidades do Litoral Sul, por exemplo, é possível encontrar casas de dois dormitórios com preços iniciais em torno de R$ 160,00 por dia, enquanto o modelo mais procurado - casas de três ou mais quartos, com garagem, churrasqueira e piscina - são ofertados por preços mínimos médios a partir de R$ 400,00 a diária. Na comparação com Tramandaí, Capão da Canoa e Torres, os preços praticados no Sul ficam, em média, de 30% a 35% mais baixos. Uma casa de dois quartos em qualquer uma destas três praias do Litoral Norte, por exemplo, não sai por menos de R$ 250,00 o dia.
Nos hotéis e pousadas, a situação não muda muito. Apesar do aumento dos custos, especialmente com alimentos que subiram 7,30% no ano, conforme o IBGE, e produtos de limpeza que estão 4% mais caros do que no ano passado, a tabela vigente ainda é a praticada em dezembro de 2019. Isso torna possível encontrar diárias a partir de R$ 140,00 com café da manhã. Mas é preciso saber que confortos como ar condicionado, piscina, estacionamento, wifi, serviço de quarto, proximidade da praia e outras facilidades ou mordomias tendem a puxar os valores para cima.
Ao contrário dos aluguéis de temporada, no caso da hospedagem, a gangorra de preços favorece as praias do norte onde é possível encontrar valores entre 15% e 20% mais baixos. A maior oferta de unidades explica a diferença de preços, nesse caso.
Ironicamente o que pode desequilibrar o jogo que até então está favorável aos consumidores é o próprio turismo regional, ou seja, se ao invés de viajarem para fora do Rio Grande do Sul os proprietários dos imóveis de temporada decidirem permanecer no litoral gaúcho e ocuparem suas casas reduzindo dessa forma a oferta de imóveis de veraneio e fazendo os preços subirem.
 

São Lourenço recebe selo global padronizado de segurança e higiene para viagens e turismo

Praias de São Lourenço do Sul tiveram grande procura pela locação de imóveis e hospedagem para o verão
Cidade é a quinta do País a conquistar certificação do Conselho Mundial de Viagens e Turismo
QZ7 Filmes/divulgação/jc
Em setembro de 2020, São Lourenço do Sul foi o quinto município brasileiro a receber o selo Safe Travels (Viagens Seguras) aferido pelo Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC). A certificação é um visto global padronizado de segurança e higiene para viagens e turismo, projetado para minimizar os riscos à Covid-19 e surtos semelhantes. No Rio Grande do Sul, além da cidade, apenas Gramado, Canela e Bento Gonçalves possuem o visto.
De acordo com o secretário municipal de Turismo, Luis Carlos Braga, ao visitante o selo garante o cumprimento rigoroso dos protocolos de saúde e higienização em todas em empresas do trade turístico local. E para facilitar a vida dos turistas, além do selo fixado nos ambientes físicos das empresas a prefeitura desenvolveu o aplicativo São Lourenço do Sul Tem, nas versões para IOS e Android, onde estão reunidas todas as informações sobre os cuidados e certificações da cidade para o turismo seguro, serviços, roteiros, comércio e hospedagem.
O presidente da Associação Comercial e Industrial de São Lourenço do Sul (ACI), Mahmoud Amer, declara-se otimista com os resultados dos próximos meses. "A expectativa da classe produtiva é muito boa, observando a permanência de funcionamento dos estabelecimentos com as portas abertas no município. As empresas de todos os segmentos vêm desempenhando suas atividades com muita responsabilidade, preservando a saúde da população e seguindo os protocolos de saúde" diz.
O dirigente diz acreditar ser possível conciliar protocolos de saúde com lazer na cidade à beira da Lagoa dos Patos. Para garantir que as coisas deem certo, a ACI tem mantido uma rotina de visitas de consultoria aos lojistas sobre cuidados a serem tomados para evitar a propagação da Covid-19. Até dezembro, 400 das 763 empresas da cidade já haviam sido visitadas. O esforço, segundo Amer, vale a pena na medida que não apenas educa e informa, mas também qualifica o setor para garantir que a cidade permaneça sendo reconhecida como um destino turístico seguro.

Comércio aposta suas fichas no verão para recuperar perdas

Souza preencheu uma das vagas abertas na loja de Maria Eduarda para atender clientes na alta temporada
Souza preencheu uma das vagas na loja de Maria Eduarda para atender clientes na alta temporada
Divulgação/Álvaro Guimarães
Com desempenho negativo durante todo 2020, seja no volume de vendas ou na ocupação de mão de obra, o comércio das três maiores cidades do Litoral Sul deposita suas esperanças no verão para buscar uma recuperação. "Quando o comércio sofre, os empregos são atingidos em cheio", diz Luis Carlos Zanetti, presidente do Sindicato dos Lojistas de Rio Grande.
A argumentação pode ser comprovada na prática através dos números do Caged, que demonstram um saldo negativo entre contratações e demissões no comércio da cidade de 6,4% em 2020. Em Pelotas este mesmo índice foi de -5,28%, e em São Lourenço do Sul, de -4,%.
 
Na prática, empreendedores apostam na retomada. É o caso de Maria Eduarda Leal, que compartilha do mesmo otimismo. Poucos dias depois de reabrir sua loja de chinelos e sandálias no Cassino, a empreendedora se anima com o volume de vendas e projeta ter que repor o estoque.
O bom início de verão - oficialmente a alta temporada começou no dia 19 de dezembro - faz Maria Eduarda acreditar, ainda, ser possível recuperar antes do planejado os R$ 50 mil investidos no negócio. "Já está melhor do que ano passado, isso faz a expectativa ser muito boa", diz.
Apesar de investir menos do que no verão anterior, a empresária gerou os mesmos dois empregos e projeta mantê-los até o final do período, se tudo correr bem. Uma das vagas foi preenchida por Wolmer Souza que conta ter passado o ano desempregado.
"Foi um período complicado, só fazia bicos, mas agora apareceu esse emprego fixo e a expectativa é que tudo dê certo, a praia fique liberada, as pessoas venham para o Cassino e eu consiga manter o trabalho", comenta.
Na maior cidade da região onde os setores de comércio e serviços com suas 13,6 mil empresas respondem por 85% da economia local a previsão de verão com turismo regionalizado surge como a possibilidade de ver o público com maior poder aquisitivo permanecer na região durante a temporada e aquecer o movimento do varejo em meses tradicionalmente fracos.
Estudos feitos pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Turismo e Inovação (SDETI) mostram que o setor de comércio e serviços de Pelotas atendem uma população regional calculada em 1,7 milhão de pessoas e que a cada ano 3,8 milhões de pessoas passam pelo comércio local. "Os levantamentos mostram que quem costuma viajar para o Uruguai ou Santa Catarina tende a ficar e consumir por aqui, ou seja, se perdemos por um lado, vamos ganhar por outro e isso vai garantir menos evasão dos recursos locais no verão", analisa o titular da SDETI, Gilmar Bazanella.
A criatividade em oferecer alternativas de consumo de acordo com os protocolos sanitários vigentes será na opinião de Bazanella o diferencial entre os cases de sucesso e os demais nos próximos meses. "Trabalhar dentro do novo normal é um grande desafio, é preciso muita criatividade, mas acredito que este verão pode ajudar a recuperar as perdas do ano", afirma.

Turismo regional é a realidade da temporada

Um estudo realizado pela Sedetur aponta a tendência de os veranistas não se afastarem mais de 250 quilômetros de casa nessa temporada. "O comportamento inicial é favorável a um turismo regional e se por um lado se perde aquele turista de longe, por outro há indicação de que os gaúchos devem ficar dentro do RS", confirma o secretário Lorenzoni. Apostando nessa propensão a Sedetur baseou suas ações para a temporada em tripé formado por apoio financeiro, promoção e qualificação do trade turístico gaúcho.
O primeiro ponto se refere a disponibilização de uma linha de financiamento específica para capital de giro através do Banco Regional de Desenvolvimento (BRDE) e do Banco Regional de Desenvolvimento do Sul (Badesul) com dinheiro liberado pelo Ministério do Turismo e carência de até 60 meses. Conforme o secretário R$ 300 milhões do Fundo Geral de Turismo estão sendo liberados pelo governo federal para estas operações nos três estados do Sul do País. Ao longo do ano outros R$ 60 milhões já haviam sido captados pelo governo estadual com a mesma finalidade no ministério.
A perna da promoção é a mais sensível do planejamento governamental, pois pretende investir em campanhas publicitárias de divulgação dos atrativos naturais do Rio Grande do Sul para os próprios gaúchos incentivando um turismo regional responsável e de acordo com os protocolos sanitários vigentes no Estado. "A ideia é divulgar o RS como símbolo do turismo com segurança", declara. Mais uma vez a conta será paga com verbas liberadas, com essa finalidade, pelo Fundo Geral do Turismo.
Qualificar empreendedores para receber esse público regional dentro do que é considerado o "novo normal" e preparar os agentes públicos a tirar o máximo proveito do potencial de cada uma das 27 regiões turísticas do Estado é a terceira e mais avançada ação do planejamento da secretaria para a temporada. Desde o inverno está sendo promovida a Jornada de Regionalização do Turismo através da qual se busca apresentar cases e projetos bem-sucedidos de gestão para incentivar e acender a discussão sobre o processo com agentes públicos e privados do setor. A última edição acontece ainda em dezembro.

Hotelaria mergulha na incerteza em função dos protocolos de segurança sanitária

Infraestrutura da Praia do Laranjal, em Pelotas, é apontada como atrativo
Infraestrutura da Praia do Laranjal, em Pelotas, é apontada como atrativo
Divulgação/Michel Corvello
Se por um lado o setor imobiliário contabiliza boas expectativas apesar de toda indefinição sobre as permissões de uso das praias, na rede hoteleira a apreensão e a incerteza crescem na mesma proporção. "As pessoas querem vir, mas estão com medo de fazer as reservas, com receio de vir. Todos os dias têm alguém cancelando uma pré-reserva, e a gente não consegue planejar uma semana adiante, é muito estranho", relata Caroline Fontoura Danigno, proprietária da pousada Esquina do Sol na praia do Cassino há 15 anos.
Em um ano normal, Caroline diz que, em meados de dezembro, já estaria com todos os 40 quartos lotados para as festas de final de ano. Mas pouco antes da data festiva, não tinha sequer a metade reservada, mesmo trabalhando com apenas 75% da capacidade para obedecer às regras de segurança sanitária.
Dez quadras adiante, Gabriel Nobre confirma situação semelhante no hotel São Paulo, no qual é responsável pelas reservas. "Ano passado, nessa época, já estávamos lotados. Hoje, não temos nem metade dos quartos reservados", lamenta. O temor da praia ficar fechada ao público ou de um novo lockdown no Estado surgem como as principais explicações dos indecisos hóspedes ao cancelar ou não confirmar as reservas.
A 173 quilômetros dali, em São Lourenço do Sul, o empresário Sidnei Vilela enfrenta uma situação um pouco diferente, mas igualmente indefinida. Tinha todas as 35 unidades da pousada Verde Água reservadas para o Ano-Novo, mas quase nenhuma confirmada para as semanas seguintes. "Existe procura, mas as pessoas não estão fazendo reservas", diz.
Diante da incerteza, os empreendedores agarram-se à expectativa de flexibilização dos protocolos sanitários para pensar os negócios na temporada. Neste cenário, acreditam que tanto no Cassino, como em São Lourenço do Sul, Pelotas ou Santa Vitória, a economia irá ser aquecida.
"Esperamos que a redução do turismo externo gere um aumento do turismo interno, no qual o Litoral Sul será beneficiado", comenta Vilela.
Características particulares da região, como a grande extensão da praia do Cassino, a tranquilidade de São Lourenço do Sul, a infraestrutura do Laranjal e as semelhanças das praias do Hermena e Barra do Chuí com o litoral uruguaio são apontadas pelos empresários do setor como fatores que podem pesar a favor das cidades na hora de as famílias escolherem seus destinos de veraneio.

Pequenos negócios estão mais vulneráveis à crise

Família calcula redução em torno de 40% das vendas consideradas normais para esta época do ano, diz Paiva
Família calcula redução em torno de 40% das vendas consideradas normais para esta época do ano, diz Paiva
/Divulgação/Álvaro Guimarães
As indefinições sobre o verão no Litoral Sul atingem em cheio 23,1 mil micro e pequenas empresas instaladas em Pelotas, Rio Grande, São Lourenço do Sul e Santa Vitória do Palmar. Juntas, elas respondem por 99% dos setores de comércio e serviços, conforme os dados do Sebrae. São negócios com no máximo 50 empregados e faturamento médio em torno de R$ 360 mil que aguardam ansiosamente por um aumento do volume de negócios para espantar a crise.
Em Pelotas, por exemplo, o Sebrae registra 656 restaurantes, lancherias e outros serviços de alimentação que somados respondem por 4% do total de empresas estabelecidas na cidade. Boa parte desses negócios são familiares e representam o sustento de um ou mais núcleos de um mesmo grupo familiar como é o caso da pastelaria Kaleche instalada em um food truck na praia do Laranjal em Pelotas que gera ocupação e renda para seis pessoas da mesma família.
Uma delas é Guilherme Paiva, que há cinco anos cumpre o papel de garçom na lanchonete sobre rodas da sogra e que, nas últimas semanas, tem ficado apreensivo diante do movimento reduzido. A partir da experiência acumulada em 10 anos de negócio, a família calcula uma redução em torno de 40% das vendas consideradas normais para esta época do ano. "Não há como saber o que vai acontecer em janeiro e fevereiro, mas que se nota é um público com cada vez mais medo de sair de casa e isso nos deixa sem qualquer expectativa", diz.
A aflição de Paiva é muito semelhante ao sentimento experimentado por Cauã da Rosa responsável por tocar adiante a loja de artigos de praia montada pelo pai há quatro décadas no Cassino. As dúvidas diante dos acontecimentos da pandemia e possíveis restrições ao acesso das praias atrasam a tomada de decisão sobre quanto e como investir para repor o estoque.
Diante de prateleiras praticamente vazias o jovem comerciante admite grande preocupação em como pagar o único investimento feito até agora de R$ 15 mil em mercadorias. "Se não vender já tenho uma dívida para pagar, mas ou encomendava ou ficaria sem os produtos pois os fabricantes também reduziram a produção e não vão atender a todos. Em 14 anos trabalhando na loja nunca passei por um perrengue assim", diz.
A situação fica mais angustiante diante do fato de que nos últimos seis meses a loja permaneceu fechada e sem receber clientes, mas com aluguel, impostos e taxas correndo. "Estamos assustados, não sabemos se podemos investir ou não, se teremos clientela, se vamos vender nossos produtos e conseguir pagar as contas. É, definitivamente, o pior verão que já vivi como comerciante", declara.
Mergulhadas em incertezas as comunidades litorâneas do sul do Rio Grande fitam diariamente o mapa do distanciamento controlado do governo. Acostumadas que são a conferir as bandeiras nas guaritas dos salva-vidas, aguardam ansiosas pela troca da cor vermelha por outra mais amistosa, capaz de indicar águas menos perigosas tanto para a segurança de todos como para os negócios igualmente essenciais à sobrevivência e que, a partir da chegada oficial do verão, podem ter a força de mudar a realidade de depressão econômica que paira sobre o ar da região desde que o termo pandemia passou a fazer parte do vocabulário dos gaúchos.

Eventos são cancelados com objetivo de evitar aglomerações

Festividades como a que ocorre para Iemanjá, na praia do Cassino, estão suspensas
Festividades como a que ocorre para Iemanjá, na praia do Cassino, estão suspensas
/Juliana Sória/divulgação/JC
Antes mesmo de o governador restringir o acesso à faixa de areia das praias os prefeitos e entidades empresariais definiram o cancelamento dos eventos tradicionais nos balneários do Litoral Sul. Dessa forma festas como o Réveillon, Iemanjá, Carnaval e as agendas de shows e atividades esportiva ou de lazer realizadas em parceria com o Sesc RS e outras entidades não irão acontecer neste verão. A praia vai ficar menos divertida? Vai. Mas ideia é que dessa forma fique mais segura.
Comerciantes, donos de restaurantes ou pousadas reconhecem o impacto negativo da não realização dos eventos, mas concordam com a necessidade do cancelamento e, por outro lado, acreditam que a decisão é capaz de passar aos visitantes uma mensagem de que é possível ir para às praias com segurança.
A partir daí a exploração dos atrativos naturais e roteiros alternativos, porém integrados ao mercado turístico de cada cidade, passa a ganhar força. É o caso da praia da Capilha às margens da lagoa Mirim na localidade do Taim em Rio Grande que costuma ficar praticamente deserta nos dias de semana ou as várias cachoeiras da zona colonial de Pelotas integrantes dos roteiros de turismo rural oferecidos na cidade. Ou seja, o verão 2021 tem tudo para ser a estação de se reencontrar com a natureza e passar a valorizar programas mais simples e com menos, muito menos, badalação.
Apostando nessa onda, empreendedores instalados na Costa Doce e no Extremo Sul esperam lucrar com turistas interessados em fugir do risco de qualquer tipo de aglomeração ou agitação. Em Santa Vitória do Palmar, por exemplo, a corretora de imóveis Andrielli Miranda revela estar sendo procurada por pessoas acostumadas a passar suas férias no litoral uruguaio. Com as fronteiras fechadas, pretendem locar casas no Hemenegildo ou na Barra do Chuí, onde o litoral plano banhado por águas frias e balneários tranquilos equipados com boas opções de gastronomia se assemelham muito às praias uruguaias mais próximas do Brasil, como La Paloma ou La Pedrera.
A restrição de acesso do país vizinho para os visitantes - apenas quem apresentar documentação que comprove ser proprietário de residência no lado brasileiro é liberado para passar pelo controle de fronteiras - favorece, nesse caso, os gaúchos pois reduz a concorrência e deve manter os preços estáveis até nas épocas tradicionalmente mais inflacionadas como o feriado de Carnaval.

* Álvaro Guimarães

Natural de Rio Grande e jornalista formado pela Universidade Católica de Pelotas, trabalha atualmente como assessor de comunicação e repórter freelancer.
Comentários CORRIGIR TEXTO