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conjuntura

- Publicada em 03h00min, 23/09/2019. Atualizada em 03h00min, 23/09/2019.

Serra protagoniza bolha de crescimento industrial do Estado

Caxias do Sul tem vocação no setor automotivo, especialmente de veículos pesados, caso da Randon

Caxias do Sul tem vocação no setor automotivo, especialmente de veículos pesados, caso da Randon


Marcos Nagelstein/ARQUIVO/JC
Os números no vermelho fazem com que o resultado da economia nos primeiros seis meses do ano seja visto como um semestre perdido. Enquanto o desempenho da indústria da maioria dos estados é negativo, incluindo os mais industrializados, um sinal verde pode ser visto no Sul. Nos últimos 12 meses, a indústria gaúcha registrou uma variação positiva de 8,4%, segundo a Pesquisa Industrial Mensal (PIM) Regional, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mais recente. O número destoa dos demais estados. No Sudeste, São Paulo teve queda de 2,2%, Rio de Janeiro, de 1,1% e Minas Gerais, de 3,3%. Mesmo entre os resultados positivos dos vizinhos sulistas, o desempenho gaúcho se destaca. Foi o dobro do Paraná (4,8%) e Santa Catarina (4,4%).
Os números no vermelho fazem com que o resultado da economia nos primeiros seis meses do ano seja visto como um semestre perdido. Enquanto o desempenho da indústria da maioria dos estados é negativo, incluindo os mais industrializados, um sinal verde pode ser visto no Sul. Nos últimos 12 meses, a indústria gaúcha registrou uma variação positiva de 8,4%, segundo a Pesquisa Industrial Mensal (PIM) Regional, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mais recente. O número destoa dos demais estados. No Sudeste, São Paulo teve queda de 2,2%, Rio de Janeiro, de 1,1% e Minas Gerais, de 3,3%. Mesmo entre os resultados positivos dos vizinhos sulistas, o desempenho gaúcho se destaca. Foi o dobro do Paraná (4,8%) e Santa Catarina (4,4%).
A explicação para o crescimento da indústria do Rio Grande do Sul, em um cenário de desolação generalizada, pode ter endereço: Caxias do Sul, cidade que abriga algumas das maiores empresas do país, como Randon e Marcopolo, e carrega uma tradição ligada ao empreendedorismo.
A atividade industrial impactou o PIB do Estado. No primeiro trimestre do ano, a alta foi de 0,9% comparada ao primeiro trimestre passado. Quase o dobro do desempenho do Brasil (0,5%) nos primeiros três meses do ano. A indústria foi o setor que mais ajudou o PIB gaúcho, com variação de 5,6% no mesmo período.
"Estamos vibrando. Percebemos que a nossa economia cresce mais que a brasileira. O governador Eduardo Leite (PSDB) tem sinalizado que é amigável a investimentos e ao setor produtivo, o que gera entusiasmo", diz Leany Lemos, secretária de Planejamento, Orçamento e Gestão, ao citar privatizações encaminhadas no setor energético e ajuste fiscal.
A indústria metal mecânica de Caxias do Sul tem como vocação o setor automotivo, especialmente de veículos pesados. A área é uma das mais sensíveis às oscilações econômicas. Com consumo e produção em baixa, menos caminhões são necessários para transportar mercadoria e menos ônibus são precisos para levar pessoas de um lado ao outro.
"Normalmente, a indústria caxiense entra primeiro em crise, mas também sai primeiro", explica a economista Maria Carolina Gullo, do Ipes (Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais) da UCS (Universidade de Caxias do Sul). Para exemplificar, entre 2013 e 2017, cerca de 20.000 postos de trabalhos foram fechados na região. Mas já foram recuperadas 5 mil vagas, explica Gullo.
Durante a pior recessão do País, a Randon chegou a ter a maior parte de sua capacidade instalada completamente ociosa. "Com a queda no PIB, há menos demanda e o transporte é o que mais sofre. O pessoal não compra caminhão, não compra carreta, e aproveita ao máximo o produto que já tem", relembra Daniel Randon, presidente das Empresas Randon, sobre uma fase ruim que dá indícios robustos de ter sido superada.
Isso porque a Randon teve faturamento líquido de R$ 2,4 bilhões no primeiro semestre de 2019, um crescimento de 25,5% em relação ao mesmo período do ano passado. Um dos fatores que explica esse crescimento é a busca por caminhões pesados. "O Brasil tem tido mais produtividade do campo, com previsão de safra recorde de grãos. Por isso o mercado de caminhões pesados e semirreboques está voltando ao patamar pré-crise", explica o presidente.
Para a economista da UCS, um dos fenômenos que explica a procura pelos caminhões foi a greve dos caminhoneiros e a tabela de frete. "Alguns empresários entenderam que era melhor montar a sua própria frota e entregarem elas mesmas os produtos, então buscaram esses produtos", analisa Gullo.
Mesmo na crise, a Randon investiu no próprio negócio, se aproximando de startups para criar soluções e gerar resultado. Pelo menos 15 funcionários trabalham em coworking ligados a 30 startups. A iniciativa é parte do projeto Hélice, em parceria com outras empresas, um indicativo da mentalidade de rede e protagonismo pregada pelo presidente da Randon.
A Marcopolo, também de Caxias do Sul, é outra integrante do projeto colaborativo. Os resultados da indústria, que comemora 70 anos, igualmente têm ajudado a impulsionar o desempenho industrial gaúcho. A Marcopolo teve um aumento de 9,9% na receita líquida no primeiro semestre deste ano, se comparada ao mesmo período de 2018. A receita é de R$ 2,040 bilhões.
Segundo Rodrigo Pikussa, diretor da área de Negócio ônibus, a demanda da Marcopolo vem especialmente do mercado interno. "A maioria das vendas é feita para empresas. São operadoras privadas dos sistemas de transporte municipal", explica Pukissa, sobre a busca por modelos urbanos. São os ônibus que levam passageiros pagantes para o trabalho, aula e de um lugar para outro nas cidades.
Na crise, muitas empresas de transporte evitaram renovar suas frotas. "Passamos um período muito ruim. As frotas envelheceram, os custos de manutenção começam a subir e é mais vantajoso substituir por um novo. Mas tem também elação com a o ambiente de retomada de confiança em investimentos, alguns empresários entendem que já dá para voltar a investir", diz Pikussa.
A Marcopolo também atende o setor público. No primeiro semestre foram vendidos 1.314 ônibus para o projeto Caminho da Escola.
Tanto Randon como Marcopolo sentiram o impacto das vendas para a Argentina, que está em crise, mas ambas mantêm o equilíbrio compensado com exportações para outros países e tiram vantagem do dólar alto.
Um estudo de julho sobre a economia de Caxias do Sul, feito pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em parceria com a CIC (Câmara de Indústria e Comércio), reflete os números das maiores empresas. O índice do desempenho industrial acumulado dos últimos meses é de 5,8%.
Embora todos números locais sejam favoráveis, Gullo vê uma tendência de estagnação. "Essa volta da economia também está ligada à necessidade de reposição. Isso tem um limite. Uma empresa com uma frota de cem caminhões, por exemplo, pode substituir vinte deles. Mas se vai efetivamente aumentar a frota de cem para 120, depende de uma melhora na economia como um todo para que decida se vale a pena investir", explica a professora. No quesito consumo, a tendência também é de estagnação na região, diz a economista.
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