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Porto Alegre, segunda-feira, 20 de maio de 2019.

Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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conjuntura

Edição impressa de 20/05/2019. Alterada em 20/05 às 11h09min

Com economia fraca, Brasil deve ter outro ano estagnado

Governo sem coordenação política reduz confiança

Governo sem coordenação política reduz confiança


FREEPIK.COM/DIVULGAÇÃO/JC
A crise na Argentina, o corte na produção industrial mineral decorrente da tragédia de Brumadinho (MG) e um governo sem coordenação política, reduzindo a confiança do empresariado e do consumidor, têm levado especialistas a preverem mais um ano perdido na economia - o terceiro depois da recessão em que o Produto Interno Bruto (PIB) não deve crescer muito mais que 1%.
Apesar de a impressão geral dos economistas ser de uma economia estagnada em um patamar muito baixo, há quem já fale em "cheiro de recessão", como a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, ou em "possível recessão técnica", como o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale.
Para Zeina, os sinais mais preocupantes vêm da indústria, cuja produção recuou 2,2% no primeiro trimestre deste ano. "A indústria geralmente é o abre-alas da crise. Em 2011, já dava sinais da recessão que estava por vir (em 2015 e 2016). Se ela estiver estagnada mesmo, vai puxar o setor de serviços, que é muito dependente dela", diz a economista, que não descarta a possibilidade de o PIB de 2019 ser inferior ao 1,1% registrado em 2018.
O setor industrial, sobretudo o segmento automotivo, tem tido impactos negativos da crise na Argentina, que reduziu as importações totais do Brasil em 46,5% no acumulado dos quatro primeiros meses do ano. O segmento da mineração é outro que tem sofrido e acumula queda de 7,5% no ano até março.
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Zeina destaca que há também uma substituição de produtos industriais nacionais por importados, apesar de o dólar ter subido. "Isso mostra que há algum problema estrutural grave, de competitividade", diz. A crise, porém, já começa a ir além da indústria. Na última semana, dados do IBGE apontaram que o varejo está desacelerando. De fevereiro para março, o setor cresceu apenas 0,3% e decepcionou analistas. "O consumidor está novamente preocupado com a possibilidade de perder o emprego, o que trava o consumo", diz Vale, da Tendências.
O economista afirma que estagnação é o melhor modo de definir a atual situação econômica brasileira. Ele lembra, no entanto, que pode haver uma recessão técnica (dois trimestres consecutivos de queda no PIB) no País se o crescimento do quarto trimestre do ano passado for revisto para baixo. Entre outubro e dezembro, o PIB avançou 0,1%, mas é comum que o IBGE reveja os dados para apresentar uma radiografia mais precisa da realidade. Para o primeiro trimestre deste ano, bancos como Itaú e Bradesco já projetam retração do PIB.
Segundo Vale, o elemento que agrava a situação é a instabilidade política, com o próprio governo gerando constantemente novas crises e reduzindo as expectativas do investidor. A tensão dos agentes econômicos tem aparecido nos indicadores de confiança do Ibre-FGV. O de incerteza econômica atingiu 117 pontos em abril, o mais alto desde as eleições.
Ex-presidente do Banco Central, Affonso Celso Pastore diz que a economia anda de lado e que é preciso criar confiança - através de reformas - para que ela volte a crescer. "O momento é muito ruim. O desempenho, desanimador. A economia está parada em um ponto bem baixo e sem expectativa de crescer." Segundo ele, a probabilidade de o País repetir o PIB tímido dos últimos dois anos é alta, o que resultaria num aumento do PIB per capita de apenas 0,3%.

'Crise econômica e corrupção contribuem para insatisfação', diz professor

Steven Levitsky, professor de Ciência Política da Universidade Harvard (EUA), responde.
Como analisa os primeiros meses do governo Bolsonaro?
Steven Levitsky - Considero o governo muito previsível, assim como nos Estados Unidos. As instituições democráticas brasileiras se beneficiaram do fato de que Bolsonaro não é muito popular. Um líder popular autoritário como Alberto Fujimori (Peru), Rafael Correa (Equador) ou Hugo Chávez (Venezuela), que tem de 70% a 80% de aprovação, é muito mais perigoso que um presidente que tem 35% a 40%. Mas é sempre um risco ter na Presidência da República alguém que não é totalmente comprometido com os valores democráticos. É um perigo que os EUA e o Brasil enfrentam hoje.
O surgimento de líderes autocráticos está relacionado ao enfraquecimento dos partidos? O que pode ser feito para mudar essa situação?
Levitsky - O enfraquecimento dos partidos políticos fez com que se tornasse possível que líderes autoritários chegassem ao poder. Os partidos estão se enfraquecendo ao redor do mundo. São instituições do século 19, e vivemos hoje em um mundo muito diferente. As instituições políticas não estão totalmente adaptadas a isso.
O que poderia ser feito para que as pessoas acreditassem novamente que a democracia é o melhor sistema político?
Levitsky - Existem dois elementos. Um deles é a própria ausência da democracia. A perda da democracia, como ocorreu na Argentina e no Chile, faz com que eles a apreciem mais hoje. O outro aspecto é que os governos democráticos precisam funcionar bem. Um caminho para sustentar a satisfação com a democracia é que os governos democráticos sejam melhores que os autoritários. Um problema que o Peru enfrenta, por exemplo, é que os governos autoritários parecem ter sido, na visão de parte da população, melhores que os democráticos.
O presidente Jair Bolsonaro pode ser considerado populista?
Levitsky - Bolsonaro tem algumas características, mas não o considero totalmente populista. Ele não chegou ao poder prometendo enterrar as antigas elites. A característica central de um populista é lutar contra o establishment, é a mobilização dos que se sentem marginalizados contra as elites estabelecidas. Mas Bolsonaro foi abraçado por boa parte da elite. Os alvos de seus ataques são a esquerda. No segundo turno, não foi um apelo populista, foi um apelo contra a esquerda.

'Cidadãos e políticos devem ver a oposição como legítima'

Sheri é professora da Universidade Columbia, nos Estados Unidos

Sheri é professora da Universidade Columbia, nos Estados Unidos


/VISUAL HUNT/DIVULGAÇÃO/JC
Sheri Berman, professora da Universidade Columbia (EUA), responde.
Uma pesquisa do Pew Research Center feita com mais de 30 mil pessoas de 27 países entre maio e agosto de 2018 mostra que 51% dos entrevistados se dizem insatisfeitos com o funcionamento da democracia em seu país. No Brasil, a taxa é de 83%. O que explica esses números?
Sheri Berman - Há uma diferença entre estar insatisfeito com o funcionamento da democracia e estar insatisfeito com a democracia. Estar insatisfeito com o funcionamento da democracia não é fatal, mas altos níveis de insatisfação com a democracia em geral podem ser. A insatisfação com o funcionamento da democracia reflete um sentimento de que políticos, partidos e governos não estão "ouvindo" as pessoas nem resolvendo seus problemas. Em grande medida, este sentido não é infundado. No Brasil, os cidadãos têm todo o direito de estar com raiva com corrupção, crime, pobreza e muito mais. E os cidadãos nos EUA e na Europa também têm muitas razões para se frustrarem. Mas reconhecer que políticos, partidos e governos não fizeram um bom trabalho não é desculpa para apoiar aqueles que ameaçam a própria existência da democracia.
Outra pesquisa, realizada pelo Ipsos, identificou que a polarização no Brasil atingiu um nível de intolerância superior à média internacional de 27 países. De acordo com o instituto, 32% dos brasileiros acreditam que não vale a pena conversar com pessoas que tenham diferentes visões políticas. Como isso pode afetar a democracia brasileira?
Sheri - Democracia requer acordo e negociação. Também exige que os cidadãos e os políticos vejam a oposição como "legítima". Isto é, embora possam discordar deles, eles aceitam seu direito de participar da política e de disputar eleições. Isso também significa que eles aceitam o resultado dessas eleições. Mesmo que seus opositores vençam, eles devem estar dispostos a aderir às "regras do jogo", que é participar nas próximas eleições. A polarização complica enormemente todas essas coisas. Se você acredita que seus opositores não estão errados ou têm posições políticas diferentes, mas, sim, são maus, uma ameaça ou não são "legítimos", isso aumenta a disposição de recorrer a medidas extremas ou não mais "jogar pelas regras do jogo".
O presidente Jair Bolsonaro pode ser considerado populista?
Sheri - A maioria dos observadores o vê como populista por causa do discurso de divisão, a mentalidade do nós contra eles, a demonização dos oponentes, o iliberalismo, o antipluralismo e sua aparente falta de respeito pelas normas e instituições democráticas. Ele também deixou clara sua admiração pelo período da ditadura no Brasil. Até agora, Bolsonaro parece ter gasto mais tempo aprofundando as divisões sociais e criticando seus oponentes do que resolvendo os problemas do Brasil.
O discurso dos populistas pode aumentar o sentimento de insatisfação sobre a democracia?
Sheri - Os populistas prosperam e manipulam o medo e o pessimismo. Eles tomam o que, muitas vezes, são mágoas reais e as transformam em teorias da conspiração, divisões sociais e bodes expiatórios. Suas soluções são baseadas em medo ou nostalgia. Mas lutar contra o populismo exige que os democratas façam mais do que criticá-lo: eles devem ser capazes de mostrar que têm melhores soluções para os problemas.
O surgimento do populismo e a radicalização do discurso levam a uma desintegração dos partidos centrais, que, em geral, tinham a capacidade de formar grandes coalizões. Como vê o papel dos partidos de centro?
Sheri - Um dos pré-requisitos para a ascensão do populismo foi o colapso ou enfraquecimento dos partidos tradicionais de centro-direita e centro-esquerda em muitos países. Isso é muito claro em grande parte da Europa, como a França e a Itália, onde os atuais líderes/governos chegaram ao poder logo após o "colapso" do sistema tradicional.

Brasil perde bônus demográfico e vê taxa de poupança encolher

Crescimento da população não interferiu no volume de recursos guardados

Crescimento da população não interferiu no volume de recursos guardados


/PRESSFOTO/FREEPIK.COM/DIVULGAÇÃO/JC
Os economistas dizem que explicar a queda da poupança do Brasil não é tarefa simples. Pela lógica, com o crescimento da população - e do total de cidadãos em idade economicamente ativa -, a taxa deveria ter aumentado de forma significativa, de acordo com Samuel Pessoa, economista e pesquisador do Ibre-FGV. No entanto, o economista diz que o Brasil desperdiçou o "bônus demográfico" e viu sua poupança cair em um terço desde os anos 1970. Na época, a taxa de reservas brasileira girava em torno de 23%; hoje, está abaixo de 15%.
A comparação com os anos 1970 faz sentido porque a época retrata uma realidade anterior à atual, em relação a três fatores: demografia (na época, a população era mais jovem), Previdência (o total de contribuintes era bem superior ao de beneficiários) e de contas públicas (o gasto primário da União girava em torno de 11%, metade do atual). O hipotético Estado de bem-estar social criado pela Constituição de 1988 deu garantias à população, estabelecendo uma série de "redes de segurança", incluindo seguro-desemprego e Bolsa Família, argumenta estudo realizado por Pessoa.
Os benefícios instituídos pelo Estado reduziram a percepção de risco para o aposentado. O Brasil está hoje entre as dez que mais gastam com Previdência em uma lista de 101 países, segundo levantamento do pesquisador do Ibre-FGV. O custo dessa conta que não fecha, segundo o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mário Mesquita, levou a um forte déficit da administração pública - principal responsável pela queda geral do índice da poupança. Ele pondera, porém, que as reservas privadas não subiram de patamar, contribuindo também para o problema. Para Pessoa, isso gera uma ciclo perverso: "Um país não cresce de forma sustentável sem poupar".
A China é considerada por economistas uma base válida de comparação para o Brasil porque ajuda a derrubar uma noção equivocada: a de que o brasileiro não poupa porque ganha pouco. Hoje, a renda média de chineses e brasileiros ainda é semelhante. "O que muita gente chama de reforma da Previdência, eu vejo como uma mudança cultural", diz Ricardo Brito, professor do Insper e autor de um estudo que compara os dois países. "Na China, quem se aposenta consegue, com o benefício público, um percentual baixíssimo do que ganhava na ativa. São obrigados a guardar dinheiro para a velhice", explica o professor do Insper.
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