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Porto Alegre, segunda-feira, 08 de abril de 2019.
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Edição impressa de 08/04/2019. Alterada em 08/04 às 03h00min

Conjunto de garças coloridas chamam a atenção para os moradores do bairro Ilhota

Moldadas em concreto e metal, as aves dão um colorido especial e chamam a atenção de quem passa pelo local

Moldadas em concreto e metal, as aves dão um colorido especial e chamam a atenção de quem passa pelo local


/CLAITON DORNELLES /JC
Pedro Carrizo
Na Avenida Ipiranga, em Porto Alegre, entre a Getúlio Vargas e a Érico Veríssimo, um conjunto de garças coloridas chama a atenção de quem passa. Moldadas em concreto e metal, sobre a grama do canteiro que dá para o Dilúvio, elas se mantém estáticas enquanto centenas de carros passam por ali diariamente. A intervenção artística, silenciosa em meio ao barulho constante do tráfego, foi o jeito que a comunidade do outro lado da rua encontrou para ganhar visibilidade, e assim passar um recado entalado há décadas na garganta.
"Se procurar no Google por Bairro Ilhota, ou até mesmo por Vila Renascença, não aparece nada. Até aplicativos de transporte não nos localizam. É como se nunca tivéssemos existido mesmo estando em uma região central", diz Angélica Mirinhã, coordenadora do Ponto de Cultura Território Ilhota e uma das primeiras moradoras do bairro.
A luta pelo reconhecimento da comunidade não vem de hoje. Em 2014, a Câmara Municipal aprovou o projeto de lei que definiria a Ilhota, novamente, como um bairro de Porto Alegre. Mesmo assim, passados cinco anos, o endereço da pequena viela ainda causa confusões e dores de cabeça aos moradores. "Vivemos em comunidade no meio do Menino Deus, um bairro de classe média e média alta. É difícil não se sentir deslocado. O endereço sempre foi um problema", desabafa Angélica.
A histórica Ilhota, que já compreendeu boa parte do bairro Cidade Baixa e Menino Deus antes da década de 1970, hoje limita-se à uma viela de pouco mais de dois metros de largura, entre a Avenida Ipiranga e rua Dezessete de Junho. Cravejada de pedrinhas que formam desenhos e palavras como "amor", "harmonia", "paz" e "Ilhota", iniciativa que partiu do Ponto de Cultura, através das oficinas de mosaico, a pequena comunidade busca restaurar uma identidade que foi perdida com o desenvolvimento urbano das últimas décadas, colocando em pauta lutas como a reforma urbana, o direito à moradia digna e acesso ao Centro de Porto Alegre.
Atualmente, cerca de 42 famílias vivem no território. Seu Fernando da Silva, Dona Elvira Pereira e Angélica Mirinhã, moradores antigos da Ilhota, contam como foi sendo tirada a identidade do bairro que lhe era característica, assim como sua dimensão territorial.
"Foram derrubando as casas, construindo prédios e nós fomos ficando por aqui, postos de lado", diz Seu Fernando, morador da Ilhota há 43 anos. "Só falam em Lupicínio Rodrigues, que foi morador da Ilhota, mas tem muita gente que lutou e morreu para podermos chamar esse espaço de casa", acrescenta Dona Elvira, criada na comunidade e hoje moradora do bairro Partenon, na Zona Leste da Capital. Seu filho, porém, ainda vive na comunidade.
Buscando recuperar as origens e, consequentemente, a autoestima do bairro Ilhota, o Ponto de Cultura Território Ilhota promove oficinas artísticas para a comunidade e moradores do bairro Menino Deus. Além disso, o grupo também trabalha na recuperação de uma cultura afrocentrada e no resgate histórico da ilhota, onde nasceu boa parte das escolas de samba de Porto Alegre, a Liga da Canela Preta, Lupicínio Rodrigues e por aí afora.
A próxima ação do Ponto de Cultura, que visa dar visibilidade à comunidade, é o lançamento de um livro com a história da Ilhota contada por seus moradores. "Em nome de um projeto de revitalização, que foi para especulação imobiliária, tiraram a força um bairro inteiro", diz Angélica, acrescentando que o livro trará a versão dos moradores para contrapor a "história oficial" do bairro. Os recursos para confecção do livro foram levantados através de parcerias com o Fundo Socioambiental Casa e a Prefeitura Municipal, assim como as silenciosas garças.
Voltando na história, grande parte dos residentes da antiga Ilhota foram desapropriados e levados "na marra" para o bairro Restinga, na Zona Sul de Porto Alegre, entre as décadas de 1940 e 1970. Outros foram se desenvolvendo em pequenas comunidades no Menino Deus, como a Vila Lupicínio Rodrigues e o Quilombo do Areal, na rua Luiz Guaranha.
Para a cerimônia de lançamento do livro, o Ponto de Cultura está mapeando os moradores vivos da antiga Ilhota, que foram levados para bairros distantes, como a Restinga, e também parentes dos moradores que já morreram. A ideia é reunir todas essas pessoas no dia do lançamento e, em frente as garças coloridas, absorver a atenção de quem passa por ali. A data, marcada para acontecer ainda este ano, também marcará o aniversário de 40 anos da nova Ilhota.
"Depois da publicação, a gente vai lutar para transformar a comunidade em um quilombo. Este é um dos nossos maiores sonhos. Seria uma grande conquista no sentindo de preservar definitivamente nossa cultura", conclui a coordenadora do Ponto de Cultura Território Ilhota.
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