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Porto Alegre, segunda-feira, 19 de novembro de 2018.
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Responsabilidade Social

Edição impressa de 19/11/2018. Alterada em 19/11 às 01h00min

Núcleo de Trabalho Educativo desenvolve produções artística com alunos da EPA

Papel artesanal divide espaço com outras criações, como os itens em cerâmica

Papel artesanal divide espaço com outras criações, como os itens em cerâmica


/LUIZA PRADO/JC
Eduardo Lesina
As duas salas, coloridas e repletas de arte, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Porto Alegre (EPA), destinadas às duas turmas do Núcleo de Trabalho Educativo (NTE), apresentam as produções artísticas realizadas dentro do ambiente escolar. O projeto, assim como a escola, atende as pessoas em situação de rua e se apresenta como um espaço de transformação social há mais de 18 anos na rua Washington Luiz, 203, no Centro Histórico da Capital.
A iniciativa, criada em 1999, surgiu com papel artesanal e, através do tempo, foi se agregando a outras linguagens, caso da cerâmica, no contraturno escolar. "Em outros momentos, tivemos outras atividades, como jardinagem, mas, hoje, trabalhamos com papel reciclado, cerâmica e com o comércio desses produtos", explica Lidiele de Medeiros, professora no NTE. No ateliê de papel artesanal, os alunos participam de todo o processo de reaproveitamento do material e da confecção de cadernos (espirais e costurados), post-its e cartões.
Para o processo de produção do papel, os alunos utilizam papel branco, que iria para descarte, e filtros de café, mesmo já utilizados. Esses dois materiais compõem as fibras curtas e fibras longas, respectivamente, necessárias para o produto final. Os dois liquidificadores industriais dispostos no interior da sala servem para bater os papéis, e, após isso, uma bacia armazena o líquido que formará as folhas: uma a uma.
Após a manufatura dos materiais, os estudantes se voltam às questões de venda do que foi produzido. O processo é semelhante na sala que produz obras de cerâmica, mas com um trabalho mais independente individualmente, ao contrário do ateliê de papel artesanal, voltado ao trabalho coletivo.
A ideia de comercializar as artes produzidas no NTE teve início quando, há cerca de dois anos, o projeto contou com uma consultoria de economia solidária, realizada pelo Centro de Assessoria Multiprofissional (Camp). O projeto do governo federal trouxe ao grupo um estudo formal sobre os conceitos de economia solidária para pessoas em situação de rua, que transformou o funcionamento do ateliê. "Antes, funcionávamos como oficina, baseando-nos mais na produção, e, a partir dessa consultoria, começamos a nos construir como coletivo de trabalho", analisa Lidiele.
Atualmente, o grupo de estudantes faz parte da Rede de Comércio Justo e Solidário e da Associação Contraponto, localizada no Campus Central da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), onde expõe uma feira, às terças-feiras, na qual o coletivo participa. "Eles vão trabalhando toda essa questão de autoestima e reinserção através do trabalho", aponta.
O fortalecimento da autoestima - um dos pilares da economia solidária - é reforçado com os ambientes em que os alunos vão inserindo seus trabalhos, e já passaram por escolas, universidades, feiras solidárias fora de Porto Alegre, mostrando para a sociedade que uma pessoa em situação de rua também tem um trabalho a mostrar. "Os estudantes estão em situação de extrema vulnerabilidade, sem acreditar no recomeço pessoal. Esse espaço é muito importante para resgatar a autoestima e o poder acreditar em si", explica o diretor da EPA, Renato dos Santos.
A precificação da produção também é realizada pelos alunos, responsáveis também pela comercialização, logística e administração dos materiais. No ateliê de papel artesanal, os artistas recebem 70% do valor precificado, direcionando os outros 30% a uma caixa coletiva, utilizada para adquirir produtos ou o deslocamento para as feiras. Já no ateliê de cerâmica, a divisão dos valores é de 60% para o estudante e 40% para a caixinha - devido ao valor dos materiais. "A questão da autonomia, que a gente trabalha muito, também se reflete na gestão financeira que o próprio grupo faz, tornando o trabalho multidisciplinar", reflete Lidiele.
A otimização do trabalho dentro dos ateliês também transforma a forma como os estudantes se veem. Em diversas idas e vindas, Micael Dias, um dos alunos do NTE, comenta sobre o aperfeiçoamento na produção artística: "a pessoa vai aprendendo, se detalhando e especializando". Desde que voltou à escola, há cerca de quatro meses, Dias especializou-se na produção de papel e afirma que, com o destaque que vem recebendo no papel artesanal, o material tornou-se o seu favorito para trabalhar.
Eduardo Batista, aluno do NTE há três anos, participou do início da transição para os preceitos da economia solidária e viu sua vida se modificar assim como o curso. O trabalho no núcleo o transformou: "O ser humano tem que ser lapidado, que nem um diamante. Aqui é uma segunda família para mim".
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