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Porto Alegre, segunda-feira, 23 de julho de 2018.

Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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gestão

Edição impressa de 23/07/2018. Alterada em 22/07 às 22h07min

Existe vida após a falência

Adriana Lampert
Prejuízos sucessivos ou queda acentuada nos lucros, acúmulo de passivos tributários, aumento do endividamento bancário, atraso no pagamento de fornecedores e de funcionários: quem vivencia isso tudo, cedo ou tarde, irá perceber que seu negócio está em crise. No entanto, muitos empresários acabam cometendo o erro de não reconhecer os sinais de que algo não vai bem e deixam para buscar ajuda quando já é tarde demais. Com as portas fechadas e os bens alienados para pagar os credores, alguém nesta situação tem, ainda, que driblar sentimentos ruins, como a frustração e o arrependimento, que, muitas vezes, levam à desistência de ter o próprio negócio. No entanto, este momento também pode ser a chance de repensar os erros cometidos. Vai depender de qual caminho escolher. "O que me moveu até aqui foi justamente me recusar a ficar vivendo os problemas", conta a presidente do Spa das Sobrancelhas, Jane Muniz - fundadora do Grupo Beauty, uma junção de sete marcas, com quase 400 franquias.
Jane experimentou a falência logo após investir na expansão de seu primeiro negócio. "Inicialmente, era um sucesso. Fomos conquistando cada vez mais clientes. Isso tudo, em questão de meses", destaca a empresária, que tinha um salão de beleza na Zona Norte do Rio de Janeiro, em sociedade com o marido, Marko Porto. Na época, eles receberam uma proposta para comprar mais um salão. "O local estava pronto, tinha estrutura - era só abrir as portas. Decidimos tentar, e foi nosso maior erro", lamenta a empresária, completando que, quando o marido falou do segundo salão, não estava segura de abrir um novo negócio. "Quando falamos de sociedade, sempre temos que saber quando ser flexível e ceder, e quando devemos nos manter firmes em nossa opinião", avalia.
Dividindo a energia entre as duas unidades, o casal não conseguiu manter o padrão de atendimento, e a clientela foi começando a cair. "Na contramão, os custos dobraram, e quebramos", conta Jane. Ela admite que foram vários fatores que fizeram com que a falência acontecesse. "O principal motivo, na minha opinião, é que ainda estávamos aprendendo sobre estratégias e administração de tempo. Estávamos despreparados, pois não fizemos um plano de negócios para termos como base, para entendermos a viabilidade desse novo negócio e a clareza em nossos desafios."
Devendo aluguel, telefone, salários e pagamentos de fornecedores, os proprietários se viram obrigados a fechar o salão, "com uma mão na frente e a outra atrás". "Estávamos destruídos, uma sensação de fracasso indescritível", lembra a empresária. No entanto, ao invés de se afastar do empreendedorismo, o casal decidiu ligar para todos os credores e avisar que iriam começar de novo e que pagariam "como pudessem". "A grande lição que tirei disso é que a sinceridade ajuda nessas ocasiões", comenta Jane. "Nos focamos em aprender, em entender nossas qualidades, em conhecer ainda mais nossos objetivos. Ficamos cerca de três meses nesse processo. Havíamos fechado porque não tínhamos mais como pagar as contas, porém, nesse período, todas as contas também aumentaram, pois o salão estava fechado, mas o contrato de aluguel estava vigente." Ela conta que foi um grande desafio na época, pois os proprietários do imóvel não queriam que o salão reabrisse. "Queriam ficar com todos os materiais e mobiliários, como garantia pelos meses que não pudemos pagar o aluguel", recorda Jane. Sem telefone, ela pegou alguns panfletos e ficou na porta convidando as pessoas a entrarem no estabelecimento. A estratégia funcionou, e, em poucos meses, a dupla já tinha conquistado uma clientela fiel.
Mas, até retomar o ritmo anterior, foi quase um ano de trabalho. "Meu primeiro planejamento foi para conseguir quitar todas as minhas dívidas. Em seguida, me estruturei para retomar o crescimento que tinha conseguido alcançar anteriormente." Estabelecendo novamente as parcerias, a dupla de empresários estruturou a equipe e ajustou prazos com os fornecedores. "Programei um crescimento do salão e de colaboradores estruturado ao tamanho da empresa e de acordo com o nosso crescimento financeiro", explica a empresária.
Com o tempo, a dupla percebeu a grande busca pelo serviço de tratamento de sobrancelhas, que tem baixo custo. A partir daí, Jane teve a ideia de criar um estabelecimento dedicado a valorizar o olhar. "Vendemos o salão e criamos o Spa das Sobrancelhas." Em vez de uma loja, ela e o marido se mudaram para duas salas comerciais. Depois de um ano, surgiu a primeira filial. Em seis anos, o negócio cresceu tanto que está em quase todos os estados brasileiros e faturou mais de R$ 90 milhões em 2017.

Observar os sinais pode auxiliar na reestruturação

Para evitar que uma empresa feche as portas, é fundamental saber reconhecer os sinais de que ela não está indo bem, comenta o especialista em gestão de crises e sócio da Iwer Capital, Artur Lopes. "O problema é que muitas companhias sequer possuem um repertório de indicadores. Nesse caso, acabam sendo guiadas por sinais, que nem sempre são claros. Aí, quando vão perceber algo, já é tarde demais." Na avaliação do advogado especialista em reestruturação de empresas, Rodrigo Tellechea, sócio do escritório Souto Correa, a maior dificuldade é mesmo quando o empresário chega ao ponto de não ter como pagar as dívidas e sem perspectiva de recebimento de receita.
"O maior erro é deixar chegar nesse ponto, de não ter mais o que fazer, a não ser fechar as portas. Até para a recuperação judicial ser mais eficiente é necessário ter algum recurso em caixa." Ambos especialistas comentam que, no Brasil, é cultural as pessoas buscarem a recuperação judicial como última alternativa para a sobrevivência. "Mas complica, porque, se o empresário enxergasse essa saída como uma medida preventiva para evitar uma crise maior, o 'remédio' funcionaria de forma mais efetiva. Se a empresa está endividada e não tem garantias, dificulta pegar crédito no mercado", aponta Tellechea, lembrando que a legislação atual não incentiva empréstimo financeiro para empresas em crise.
"Por isso, muitas empresas não têm sucesso na recuperação judicial." Mas, quando há um bom plano, dar a volta por cima e renascer com força no mercado é possível. Somando passivo de R$ 7,5 bilhões, a Ecovix - proprietária do Estaleiro Rio Grande, o maior do Hemisfério Sul - teve, recentemente, o plano de recuperação judicial aprovado pelos credores.
Para salvar os ativos do complexo, avaliados em US$ 1 bilhão (cerca de R$ 3,8 bilhões), a companhia propôs a criação de uma Unidade Produtiva Isolada (UPI), e, agora, busca interessados na compra da estrutura, visando diversificar as operações em Rio Grande. Segundo Tellechea, que advoga para a empresa, o Estaleiro poderá servir como local de movimentação de cargas, bem como de reparos em plataformas e processamento de aço. "Às vezes, a crise não decorre de erro de gestão, mas de uma queda ou cancelamento de demanda do mercado", destaca o advogado, lembrando que a Ecovix investiu alto em um parque tecnológico com mão de obra qualificada, mas que contraiu dívidas em vista de que "a crise afetou o mercado de construção de navios".
A estrutura está parada desde dezembro de 2016, quando a Petrobras cancelou encomendas de um conjunto de cascos para plataforma de exploração de petróleo da camada pré-sal, por conta da Operação Lava Jato e de acusações de corrupção envolvendo ex-dirigentes da estatal e empreiteiras, como a própria Ecovix.
Na opinião de Tellechea, o passo para a recuperação judicial da empresa - atualmente, aguardando homologação do plano no Judiciário - deve gerar um retorno rápido, uma vez que propõe a formação de uma nova sociedade e a captação de investimento, criando um novo negócio. "Faz muito mais sentido criar movimento de recuperação da atividade do que trabalhar com a liquidação dos ativos - que é o caso da falência. Quando o ativo não está defasado, tem tecnologia que interessa terceiros e está situado em uma localidade apta a gerar retorno, tem tudo para dar certo."
 

Perícia prévia ajuda a definir encaminhamento de processos

Um dos principais especialistas em insolvência empresarial no Brasil e integrante do grupo técnico de orientação para a reforma da Lei nº 11.101/2005, o juiz Daniel Carnio Costa, titular da 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, implementou a prática da perícia prévia para avaliar a abertura e a condução de processos de recuperação judicial. Ele esteve em Porto Alegre no dia 27 de junho, em encontro promovido pela Scalzilli Althaus (especialista em recuperação judicial), em parceria com o Sindicato das Sociedades de Fomento Mercantil - Factoring do Estado do Rio Grande do Sul (Sinfac-RS), onde apresentou, para empresários e profissionais do Direito, as iniciativas que tem proposto neste sentido.
"Não é uma análise da viabilidade do negócio. Isso quem faz são os credores", esclarece o juiz. "Quem pede a recuperação tem que apresentar uma série de documentos que reflitam a situação da empresa. E o juiz, que tem formação jurídica, não contábil, precisa enxergar que a empresa está em crise, mas que é viável, que gera benefícios econômicos e sociais para justificar o início do processo. Emprego, tributação, circulação de bens e serviços", enumera. Costa explica que a perícia prévia é um instrumento de constatação preliminar da viabilidade da atividade empresarial para a abertura do processo de recuperação, realizada por especialista. O levantamento serve para detectar irregularidades ou fraudes, evita que as negociações entre as partes deixem de lado o interesse público.
Pela aplicação da perícia prévia, a 1ª Vara de Falências conseguiu elevar a taxa de recuperação judicial para quase 82%, a maior do Brasil, onde a média do êxito das empresas no processo está em torno de 23%. Em países de referência - como Alemanha e Austrália -, essa taxa é de 70%. A preservação dos benefícios econômicos e sociais da atividade empresarial no processo de reestruturação é a base de todas as "novas teorias" propostas por Daniel Carnio Costa. Um dos conceitos expostos pelo juiz é o da "superação do dualismo pendular", que trata justamente da quebra do paradigma de que a recuperação judicial deve pender ou aos interesses dos credores, como nos Estados Unidos e na Inglaterra, ou aos dos devedores, como no Brasil. Para Costa, o juiz tem de fazer a "distribuição equilibrada do ônus" - base do conceito de outra de suas teorias -, sempre levando em consideração a contrapartida econômica e social.
"É um assunto sensível, que, desde 2016, principalmente, tomou uma grande proporção na economia brasileira. A crise gerou muita insegurança e dificuldade para os empresários do País", avalia Costa. Avançar em soluções efetivas na área de insolvência "é um desafio para diminuir as intempéries e, assim, garantir mais sustentabilidade aos negócios", completa o presidente do Sinfac-RS, Marcio Aguilar.
 

Diferentes caminhos levam à recuperação financeira

Jane (e) apostou no aprendizado e em técnicas para se especializar

Jane (e) apostou no aprendizado e em técnicas para se especializar


/SPA DAs SOBRANCELHAs/DIVULGAÇÃO/JC
Especialistas afirmam que - não importa o tamanho da empresa -, antes de decretar falência, é importante avaliar a possibilidade de recuperação judicial. Embora visto com certo receio, o recurso dá mais tempo às empresas para pagar aos credores, enquanto aprova um plano cujo objetivo é recuperar financeiramente a companhia.
Para solicitar recuperação judicial, é preciso comprovar, na Justiça, que a empresa tem condições de se reerguer. Isso passa por expor sua real situação e elaborar um plano de ação que contenha correções de possíveis erros de gestão e novas estratégias de crescimento. Nesse processo, a empresa pode ter até 20 anos para quitar suas dívidas. É nesse tempo que ela tem chance de se recuperar.
"Acima de tudo, assuma responsabilidades. Não jogue a culpa das coisas que estão acontecendo aos outros ou a fatores externos", aconselha a empresária Jane Muniz - fundadora do Grupo Beauty. "Olhe para dentro do seu negócio e assuma a culpa das coisas que não deram certo. Após isso, faça tudo que puder para ajustar e corrigir, assim como mudar a forma como a situação é tratada", completa. Jane levou cerca de um ano para se reerguer da falência, mas o que realmente mudou o rumo dos negócios foi ter identificado uma oportunidade.
"Me especializei em visagismo facial, fiz diversos cursos e busquei muito conhecimento. Assim, surgiu o Método Jane Muniz de Embelezamento do Olhar, com todo o aprendizado e técnicas que adquiri e que fui me especializando." Jane admite que empreender no Brasil é um desafio enorme. "A começar pelas altas taxas de impostos, os altos custos de contratação. A burocracia é grande, todos os caminhos são burocráticos."
 
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