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Pecuária

- Publicada em 20h23min, 03/06/2021.

Crise nas carnes afeta consumidor e indústria

Aumentos dos custos de produção estão impactando os preços da carne bovina no Rio Grande do Sul

Aumentos dos custos de produção estão impactando os preços da carne bovina no Rio Grande do Sul


Wenderson Araujo/Trilux/CNA/JC
Rafael Vigna, de São Borja
O churrasco está mais caro. Cortes tradicionais da churrasqueira e da mesa gaúcha, como a costela e a picanha, acumulavam alta de 17,6% e 29,7%, respectivamente, no fechamento de 2020. Nos primeiros quatro meses do ano, subiram mais 4,18% e 3,69%, segundo o IPCA, índice oficial de inflação medido pelo IBGE. Diferentemente de 2019, quando os preços também dispararam, agora, não se trata de um ajuste de mercado, nem de um fator isolado, mas, sim, de algo mais amplo. O problema é que a atual conjuntura não aperta apenas o bolso do brasileiro, e sim, começa a pressionar os 15 mil empregos diretos, e os outros 50 mil indiretos, envolvidos na indústria pecuária gaúcha.
O churrasco está mais caro. Cortes tradicionais da churrasqueira e da mesa gaúcha, como a costela e a picanha, acumulavam alta de 17,6% e 29,7%, respectivamente, no fechamento de 2020. Nos primeiros quatro meses do ano, subiram mais 4,18% e 3,69%, segundo o IPCA, índice oficial de inflação medido pelo IBGE. Diferentemente de 2019, quando os preços também dispararam, agora, não se trata de um ajuste de mercado, nem de um fator isolado, mas, sim, de algo mais amplo. O problema é que a atual conjuntura não aperta apenas o bolso do brasileiro, e sim, começa a pressionar os 15 mil empregos diretos, e os outros 50 mil indiretos, envolvidos na indústria pecuária gaúcha.
São vários os aspectos que contribuem com a alta da carne bovina. O primeiro é o aumento dos custos de produção. Em 12 meses, por exemplo, o Índice de Preços de Custos de Produção (IICP), medido pela Farsul, acumula alta de 21,72% - a maior de toda a série histórica iniciada em 2010. Na comparação, com o IPCA (6,76% em 12 meses), é possível avaliar que a inflação tensiona de maneira mais severa os produtos agropecuários.
Na outra ponta da cadeia, na indústria, onde o repasse ao consumidor é consolidado, o aperto também se justifica pela baixa oferta de gado no campo. Trata-se de um fenômeno nacional, mas bastante potencializado no Rio Grande do Sul. Entre 2015 e 2019, por exemplo, o Estado perdeu quase 2 milhões de cabeças, passando de 13,4 milhões para 11,9 milhões no período.
Por outro lado, a soma de Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, que têm os principais rebanhos do País, se manteve na casa de 33% de representatividade no rebanho nacional, com um terço dos bovinos pastando ou em confinamento em terras do Centro Oeste, hoje bastante castigadas pela estiagem, o que contribui com diminuição da demanda.
Os principais municípios produtores gaúchos, por sua vez, sintetizam o momento atual. Alegrete e Santana do Livramento, juntos, respondem por cerca de 10% dos animais do Estado. Em dois anos, entre 2017 e 2019 - na última base de dados levantados pelo IBGE Agropecuária/Cidades -, exibiram quedas de 10,2% e 9,6%, respectivamente, em seus rebanhos.
Alegrete, por exemplo, passou de 642.949 cabeças, em 2017, para 576.751, em 2019. Isso significa menos 66.198 bois no pasto. Todavia, no mesmo período, o Valor Bruto Agregado (VBA) da atividade, na cidade, saltou 38,5%, de R$ 11,2 milhões, em 2017, para R$ 15,5 milhões, em 2019. A explicação passa em parte pelo ganho de qualidade na carne e, em outra, pela variação cambial, mais um elemento de pressão sobre os preços.
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O cenário também pode ser mensurado ao avaliar-se a atual capacidade utilizada nos frigoríficos do Estado. Em 2020, por exemplo, o Rio Grande do Sul abateu 2,1 milhões de bovinos, gerando um valor bruto de R$ 4,8 bilhões na economia. O problema é que até dezembro do ano passado, a média diária de abates oscilava entre 9 mil e 10 mil cabeças de gado. Em maio deste ano, a operação dos frigoríficos gaúchos foi reduzida pela metade, não atingindo sequer a marca de 5 mil cabeças.
"Estamos na entressafra, que dura até o final de julho e a oferta está muito baixa, o que faz com que o preço reaja fortemente. Isso obriga a repassar ao atacado", diz Ronei Lauxen, presidente do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados no Rio Grande do Sul (Sicadergs).
Outro fator apontado pelo presidente do Sicadergs é o valor pago pela indústria na carcaça. A variação foi de 69% em pouco mais de um ano, passando de R$ 13,00/kg, em 2020, para R$ 22,00/kg atualmente. Além disso, em 2019, havia 261,8 mil unidades pecuaristas. Estima-se que milhares tenham abandonado a produção, essencialmente, em razão da opção pelo plantio de soja - fator que também colabora com a diminuição da demanda.
Segundo Lauxen, atualmente, dos 10 frigoríficos gaúchos com inspeção federal, existem apenas três plantas habilitadas a vender para o mercado asiático, por exemplo. As operações nos exportadores, que, em 2020, geraram R$ 908 milhões em vendas externas para 92 países, entre eles a China, já ocorrem com revezamento de férias coletivas e rodízio, justamente, por falta de matéria prima.
O fato acendeu o sinal de alerta nos frigoríficos gaúchos. Caso a situação se mantenha, não estão descartadas demissões. Hoje, a indústria gera 15 mil empregos diretos e outros 50 mil indiretos, distribuídos em diversas cadeias como transportes, embalagens e coureiro-calçadista. Isso sem contabilizar os mais de 200 mil produtores rurais que hoje mantêm algum tipo de atividade de pecuária. "Para os frigoríficos é muito crítico. Convivemos com situações que estão tirando toda a possibilidade de competitividade de abate e isso influencia os preços", diz Lauxen.

Sumiço do bife dos pratos dos brasileiros é um dos efeitos da onda inflacionária no País

O preço da carne bateu o maior patamar em 25 anos. O bife ficou, sim, mais salgado para o bolso e ausente do prato dos brasileiros, mas o que é que não ficou? Basta passar os olhos pelos dados da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, medidos pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) para perceber que o País enfrenta uma onda inflacionária generalizada, com aumentos significativos na Cesta Básica de 17 capitais. Em Porto Alegre, por exemplo, a alta acumula 24,51% em 12 meses.

Segundo o economista-chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz, há uma tendência de 'vilania' à carne sempre que os preços disparam. "O que os índices hoje nos apresentam não se restringem à carne, mas são um problema de inflação", argumenta.

Luz comenta que a inflação é uma 'doença' do sistema monetário da economia. "É preciso entender que a taxa de juro é um instrumento de política monetária. Toda vez que se reduz, ou afrouxa a política monetária, se aumenta a base, o dinheiro em circulação e a demanda agregada e a Taxa Selic chegou a estar em 2%", interpreta.

O economista explica que, em 2020, na tentativa de conter os efeitos macroeconômicos da pandemia, o governo federal realizou o que se considera o endividamento de uma década em um ano. Foram R$ 700 bilhões, com a utilização de R$ 360 bilhões do suposto lucro contábil das reservas internacionais. Agora, vieram os efeitos.

"O governo imprimiu mais dinheiro, fez financiamentos, auxílio emergencial, ajuda aos estados e municípios. Não estou dizendo que foi errado, mas toda ação tem um efeito. Foi uma situação com projeção de queda no PIB de 9% para o PIB. Não crítico as atitudes, não posso negar os efeitos inflacionários disso. Portanto, a inflação é definida por um aumento generalizado nos preços. A maior parte de tudo está subindo. A carne sobe junto", analisa.

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