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Entrevista

- Publicada em 18h33min, 03/05/2021. Atualizada em 18h38min, 03/05/2021.

Kepler expande negócios nos mercados doméstico e internacional

Tadeu Vino é superintendente comercial e de marketing da Kepler Weber

Tadeu Vino é superintendente comercial e de marketing da Kepler Weber


KEPLER WEBER/DIVULGAÇÃO/JC
Thiago Copetti
Com 96 anos completos no próximo dia 12 de maio, a Kepler Weber é a maior exportadora brasileira de silos, armazéns e secadores de grão para a América Latina. Com matriz e fábrica em Panambi, no norte do Rio Grande do Sul, a empresa exibiu números vigorosos em 2020.
Com 96 anos completos no próximo dia 12 de maio, a Kepler Weber é a maior exportadora brasileira de silos, armazéns e secadores de grão para a América Latina. Com matriz e fábrica em Panambi, no norte do Rio Grande do Sul, a empresa exibiu números vigorosos em 2020.
O volume de exportações cresceu 70% no ano passado. E segue com avanços em novas fronteiras, com expansão no continente africano e no Oriente Médio. Enquanto conversava com o Jornal do Comércio, por exemplo, Tadeu Vino, superintendente comercial e de marketing, recebia uma foto de um grande projeto na Zâmbia.
Mas os ganhos da companhia vêm de todos os lados e, claro, também do mercado doméstico e com a valorização das commodities. Nos primeiros três meses deste ano a companhia teve alta de 96,7% no lucro líquido, que saltou de R$ 8,7 milhões para R$ 17,2 milhões. Um negócio que cresce alimentado pelo agro, pela tecnologia e até mesmo pela sustentabilidade que a empresa busca em seus projetos, como na redução de 8% no desperdício de aço no ano passado.
Jornal do Comércio - Como a atual valorização das commodities se refletiu nos negócios da Kepler Weber ao longo de 2020 e neste início de 2021?
Tadeu Vino – Quando a agricultura vai bem e o preço da commodity é adequado como nesta safra, isso impacta positivamente para todos os setores, e não é diferente na armazenagem. O atual resultado da safra permitiu ao produtor com o sonho de comprar uma armazenagem própria na sua propriedade que o fizesse, e até mesmo sem necessariamente precisar de um financiamento. Mas por mais que se invista em armazenagem é impressionante a capacidade do produtor de avançar ainda mais a cada ano. O crescimento em produtividade nos últimos anos e o aumento de área plantada fazem com que também se aumente também a necessidade de armazenagem. Isso não apenas na soja, mas também no arroz, no milho e, inclusive, no trigo. E existe um fator específico no Rio Grande do Sul, onde algumas cerealistas fracassaram, levando junto os grãos depositados. Isso fez com que o produtor gaúcho buscasse armazenagem própria por temer entregar o produto e depois não receber.
JC – E como foi possível atender essa demanda elevada em meio a pandemia, quando chegou a faltar matéria-prima no mercado, como aço?
Vino – Na primeira onda da Covid-19, entre março e abril do ano passado, impactou todo mundo, mas tínhamos feito investimentos anteriores que permitiram que superássemos o faturamento mesmo em um ano crítico onde tudo era muito incerto. A metodologia Lean, que adotamos há mais tempo, permitiu que organizássemos uma estratégia de ataque de produção e fabricássemos mais em menos tempo. Apesar de o aço ser nossa principal matéria-prima, esse não foi o maior problema. Tivemos mais dor de cabeça com outros componentes. Para nós, especificamente, não faltou aço, mas para alguns fornecedores, sim. Conseguimos driblar bem isso e não deixamos nenhum cliente na mão por este motivo. Mas fomos obrigados a estender prazos de entrega, fato que repercutiu também neste ano. No segmento do agro, as indústrias em geral precisaram fazer isso. Empresários da área do aço nos disseram que conseguiram regularizar o fornecimento ainda no primeiro semestre. Mas nós até contribuímos para que alguns fornecedores tivessem o produto, emprestando a eles para não prejudicar o cliente final.
JC– A empresa conseguiu reduzir o desperdício de aço em 2020. Como foi feito isso?
Vino – Isso faz parte do processo de ataque Lean, já que a metodologia faz com que você olhe para tudo e como produzir mais organizando o seu processo fabril gastando menos recursos. Não que agora façamos um produto com menos aço, mas as sobras no processo, a chamada sucata, foram reduzidas aprimorando ainda mais os programas de corte. Com máquinas laser se consegue reduzir esse desperdício, o que é muito importante sobre vários aspectos. Quando você joga fora uma matéria nobre porque o seu processo não previu que você podia fazer melhor, isso é desperdício. E reduzindo isso conseguimos estar de acordo também com que todo mundo quer hoje em dia: a otimização de processos para reduzir o consumo de recursos naturais. Cada quilo de aço que é posto fora você está jogando junto o carvão, o minério de ferro e a energia que foi gasta para produzir. Reduzir o desperdício é sustentabilidade no processo. Tudo o que  economizamos é um ganho para cadeia como um todo. Conseguimos em 2020 uma redução de 8% no consumo de aço com melhoria do processo industrial.
JC – Para este ano o que podes antecipar em termos de investimentos da empresa?
Vino – A Kepler está sempre olhando como melhorar nossa produtividade. Muitas vezes isso passa por investimento, mas nem sempre. Em algumas vezes se consegue apenas com melhoria de processo ter crescimento de produção. Temos investido continuamente valores importantes para aumento de produção adquirindo máquinas novas e com treinamento de pessoal. Além disso, temos lançamentos de novos produtos, como para acompanhamento de safra com o nosso sistema Sync. É uma ferramenta de acompanhamento de unidades armazenadoras, como entregue recentemente em Santa Cruz do Sul, em um silo com automação e acompanhamento remoto. Isso também é uma forma de aumentar a receita. Um produto mais moderno agrega ao seu faturamento e dá um grande benefício para o cliente, que consegue acompanhar tudo o que acontece na unidade dele em real time: por onde o produto está passando, que processo está sofrendo, como está sendo a secagem do grão e qual a condição em que ele está dentro do silo.
JC – Este sistema de armazenagem inteligente é novo?
Vino – O nosso primeiro armazém inteligente é de 2016, como conceito, e vem sendo aprimorado, com vendas crescentes. Começamos com uma obra e os clientes vêm pedindo cada vez mais isso. Não é apenas o silo inteligente. É uma obra projetada onde o trabalhador vai ter menos percalços para utilizar a própria unidade. Por exemplo, quando você tem que entrar no túnel que fica sob o silo você precisa de uma autorização, porque é um ambiente confinado. Mas se você construir um túnel onde tem uma saída mais rápida e com menos profundidade, mais nível do solo, você não precisa autorização. Na primeira unidade inteligente já conseguimos reduzir significativamente a quantidade de autorizações ou permissões de trabalho em quase 80%. Um projeto inteligente faz toda a diferença. Isso facilita a operação do produtor e é uma economia grande no processo. A mão de obra que você utiliza não perde tanto tempo e é melhor aproveitada.
JC – Além de crescer com tecnologia, como estão os negócios voltados às exportações?
Vino – Foi um ano excelente, com números robustos de exportações, de mais de US$ 24 milhões. Temos como objetivo sempre ter uma boa parte do faturamento vindo do mercado internacional, pois o mercado agrícola é muito de altos e baixos. Neste contexto, as exportações são um porto seguro para que a empresa tenha sempre uma válvula de escape tendo uma parcela do faturamento vindo de recursos externos. E com o dólar alto também é uma forma de hedge, porque importamos aço, em dólar, e exportando vendemos em dólar. As duas coisas, assim, se combinam. Temos como projeto manter a liderança na América do Sul e estamos ampliando isso para outras fronteiras. Estamos olhando bastante para África, com projetos  diferentes. Recentemente entregamos uma grande obra na Zâmbia. É a nossa primeira obra grande lá, mas exportamos também secadores para o Paquistão e recorrentemente vendemos o produto para a Ucrânia. No ano passado a receita líquida de exportações foi de R$ 105,8 milhões, aumento de 70,1% em relação a 2019. Isso, de faturamento total de R$ 670 milhões, representa quase 16% do total.
JC – A África é um dos mercados principais para o futuro? A China vem investindo bastante para produzir mais soja no continente, não?
Vino – Sim, é um fato. Eles têm investido bastante na África, mesmo em países onde não há muitos recursos. A China tem dinheiro sobrando e voltado para a África e não apenas ao agro, mas também reforçando e melhorando o transporte. Existe essa perspectiva de aumento de produção não apenas de soja na África com investimentos chineses em diferentes commodities. O que para nós é muito bom porque são mercados que também se abrem para nós.
JC– Quais projeções para 2021? Algum investimento que a companhia esteja prevendo para o Rio Grande do Sul?
Vino – A perspectiva é fazer o melhor, sempre, mas o número eu não posso revelar. Panambi, para nós, é a unidade mais importante, de onde sai 85% do que produzimos, e sempre olhamos para ela. É a origem da Kepler e nos orgulhamos disso. Agora, estamos fabricando a Seletron, máquina de seleção por cores, que compramos o direito de produção no Brasil no ano passado.
JC – Quais as tendências para o setor? O que ainda está por vir em termos de tecnologias de armazenagem e secagem de grãos?
Vino – O que tem acontecido de forma recorrente nos últimos anos é a demanda por unidades de armazenagem maiores, em virtude de períodos menores de colheita. Antigamente, a safra demorava até 90 dias para ser colhida. Hoje, no caso da soja, se colhe em 20 a 30 dias. Em todas as regiões a necessidade de recebimento de grãos tem crescido em um período curto e com volumes movimentados muito grandes nas mesmas unidades. Antigamente se comemorava, por exemplo, quando se vendia um secador de 60 toneladas por hora. Hoje se fala normalmente em secador de 200 toneladas por hora. E máquinas mais eficientes consumindo menos energia para fazer a mesma coisa é o que temos buscado. A energia solar hoje ainda não é viável porque não se consegue concentrar a quantidade de energia suficiente para fazer a secagem, em que é muito concentrada. Ainda não se consegue armazenar essa energia solar em forma de calor de maneira tão imediata. Mas tudo é uma questão de pesquisa, que avança constantemente. É difícil prever, mas acho que nos próximos cinco a seis anos teremos secadores usando ao menos uma parte da energia solar.
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