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Indústria

Notícia da edição impressa de 25/05/2018. Alterada em 24/05 às 19h32min

Empresas buscam nível 4.0

LUIZA PRADO/JC
O conceito de Indústria 4.0, no qual a conectividade entre as máquinas é elemento essencial, aparece como um dos principais caminhos para as indústrias brasileiras enfrentarem os desafios desse cenário. Falar em Indústria 4.0 - definição surgida na Alemanha, em 2011 - é imaginar a Internet das Coisas aplicada à produção. É um estágio posterior ao da automação: os equipamentos, com sensores, ficam conectados entre si, gerando dados precisos sobre a produção e a logística, por exemplo. As informações, armazenadas em nuvem, permitem identificar eventuais problemas ou desperdícios no ciclo produtivo, orientam decisões e facilitam o controle remoto dos processos, se necessário. "O propósito é a eficiência completa da empresa. O grande elemento transformador é o acesso à internet", ressalta o professor Alejandro Frank, coordenador do Núcleo de Engenharia Organizacional (NEO) da Ufrgs.
O núcleo, voltado à pesquisa aplicada em Engenharia de Produção, está à frente de uma iniciativa que pretende impulsionar o uso de ferramentas da Indústria 4.0 no Estado. O ponto de partida foi um levantamento feito em parceria com o Arranjo Produtivo Local (APL) de Automação e Controle, da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), no ano passado, envolvendo empresas do eixo Porto Alegre-Caxias do Sul. A ideia era identificar possíveis fornecedores de tecnologias, a serem implantadas em um projeto-piloto. "A intenção é entender como empresas do mesmo setor, com conhecimentos diferentes, podem gerar soluções", diz Frank.
Os atores envolvidos no projeto-piloto já estão definidos. A Novus, especializada em componentes eletrônicos para indústria, irá implantar um software de gestão desenvolvido pela Elipse, buscando mais eficiência na produção. Outras empresas que irão contribuir com tecnologias ou métodos de produção são Espheric, Unidigital e BRN. Integração de equipamentos e de logística, controle de processos a distância e rastreabilidade de materiais são alguns dos objetivos em vista.
Neste ano, o NEO iniciou um outro projeto, junto à Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), para mapear empresas que sejam potenciais compradoras de tecnologias 4.0. "Mais adiante, o cenário ideal é que as empresas da região possam fornecer e também consumir tecnologia", prevê Frank.

Indústria irá implantar, no segundo semestre, novas soluções tecnológicas

Máquinas automáticas ou robôs já trabalham com alguma intensidade na indústria gaúcha, especialmente em setores como o eletroeletrônico e o automotivo. Mas as transformações propostas pelo conceito 4.0 podem contribuir para que esses equipamentos avançados produzam ainda mais e melhor. É essa a intenção da Novus, indústria que irá implantar, no segundo semestre, novas soluções tecnológicas, a partir do projeto do NEO/Ufrgs e da Abinee.
Surgida nos anos 1980, a empresa produz componentes para outros equipamentos industriais, como sensores e controladores - ao todo, são 800 itens diferentes. Essa diversidade, segundo um diagnóstico realizado em 2016, às vezes se torna um gargalo na fábrica - e será um dos alvos principais a serem enfrentados com recursos de Indústria 4.0. "Hoje, precisamos fazer o setup (programação) das máquinas para (produzir) cada modelo, o que leva em torno de uma hora. A ideia é fazer uma célula produtiva que se reconfigura automaticamente. O objetivo é permitir que uma célula produza grande diversidade de produtos reduzindo ou eliminando esse tempo de setup", descreve o diretor de Tecnologia e Operações da Novus, Marcos Dillenburg.
As novidades serão implantadas a partir de setembro na nova planta da empresa, no Parque Canoas de Inovação. Além dos ganhos de velocidade e qualidade, a empresa também deve mirar no controle de rastreabilidade dos itens produzidos. Hoje, por exemplo, o sistema já impede automaticamente que um acessório testado e reprovado entre acidentalmente no registro de estoque. A ideia é ampliar o alcance dessa monitoração, e o novo software de gestão a ser adotado deverá prever e acompanhar - em tempo real - o andamento dos processos.
Como pano de fundo dessa busca de inovação está a disputa no mercado global. "Metade da nossa produção é exportada. Nossos concorrentes lá fora estão fazendo movimentos na direção do 4.0, então (se não fizermos também) podemos ficar menos competitivos", alerta.

Projetos tecnológicos ganham espaço

Caderno Dia da Indústria - Pauta: Indústria 4.0 
Fotos do interior da fábrica Exatron, empresa de automação.

LUIZA PRADO/JC
A busca por competitividade no mercado interno - e, especialmente, no externo - tem sido um dos principais motores dos investimentos em inovação realizados pelas indústrias em anos recentes. Ao mesmo tempo, as tecnologias vão, aos poucos, se tornando mais acessíveis, enquanto o ritmo de atualizações e novas descobertas se acelera. "As ferramentas de tecnologia digital ficaram mais baratas nos últimos anos. Máquinas com softwares embarcados, a custo menor, que geram dados múltiplos ao mesmo tempo os jogam na nuvem, estão se tornando uma realidade para as indústrias", observa o diretor do Instituto Senai de Inovação em Soluções Integradas em Metalmecânica, Victor Gomes.
O próprio instituto, inaugurado em São Leopoldo no ano passado, é reflexo da preocupação crescente das empresas com os avanços da Indústria 4.0. Em um ano de atividade, o grupo já atuou em quase 30 projetos para empresas gaúchas, paulistas, catarinenses e mineiras, desenvolvendo produtos e processos voltados a essa área. Uma questão importante, por exemplo, é a economia de energia elétrica - algo que o nível 4.0 também contempla. "Monitorar o consumo de energia de uma máquina para poder otimizá-lo é algo que influi no custo e na competitividade. Com máquinas sensoreadas, por exemplo, pode-se produzir menos nas horas em que a energia elétrica custa mais", diz Gomes.
Alguns setores industriais serão mais desafiados nessa trajetória. Enquanto áreas como a eletroeletrônica e a automobilística já experimentam, em diferentes graus, os avanços da tecnologia, outras estão mais distantes, como a indústria de vestuário. "No Rio Grande do Sul, como um todo, muitas indústrias ainda não têm automação, então seria o 2.0. Temos um caminho longo a trilhar. Isso demanda investimento. Estamos tentando liberar linhas de crédito para isso, especialmente para máquinas e sistemas de gestão", afirma o diretor regional da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Régis Haubert.
Haubert cita como exemplo sua própria empresa, a Exatron, voltada à automação predial e residencial. A fábrica combina equipamentos automáticos e linhas de montagem manuais. "Algumas etapas estão prontas para ser integradas. A maioria das empresas de eletroeletrônicos está nesse patamar, de automação em algumas etapas", descreve Haubert.
 

Novidades surgem da interação internacional

Além da manufatura, o desenvolvimento de novos produtos também ganha impulso na Indústria 4.0. O compartilhamento de ideias e informações entre empresas de diferentes países, praticamente em tempo real, tem agilizado esse processo. "É algo que já está em andamento. No modelo convencional, leva-se cerca de 18 meses para ter um novo produto. Com essa interação, pode chegar a 12 meses. Isso é importante, porque, a cada seis meses, há um novo ciclo de evolução tecnológica muito grande. E isso tem a ver com o 4.0", explica o diretor-superintendente da Exatron, Régis Haubert.
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