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Porto Alegre, quinta-feira, 17 de maio de 2018.

Jornal do Comércio

Colunas

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Notícia da edição impressa de 18/05/2018. Alterada em 17/05 às 16h48min

Sobre e a partir das margens

Começou o 13º festival do Palco Giratório e, com ele, um desfile constante, surpreendente, provocador e sempre criativo de espetáculos produzidos em todos os quadrantes do País. Alguns grupos já são conhecidos, e isso aumenta a expectativa. Outros, são estreantes no festival, mas parece que os interessados, nestes tempos de mídias eletrônicas, procuram descobrir informações a respeito e vão disputar os ingressos disponíveis. Neste ano, e dando sequência a uma tendência já verificada na edição passada, encontramos temas polêmicos, por vezes chocantes, que atravessam fronteiras e se situam em margens e áreas de periferia, tanto temática quanto estética. Há espetáculos de que se gosta mais e outros que nos agradam menos, mas não é esta a questão e, sim, conhecer tendências, preocupações e propostas que os diferentes grupos nos apresentam.
Na primeira semana de festival, começamos com um espetáculo absolutamente ímpar, de um grupo já conhecido entre nós, o Dos a deux, do Rio de Janeiro/Paris, que desta vez nos brindou com Gritos. Ao contrário do que sugere o título, não há palavras em todo o espetáculo, de quase hora e meia de duração, salvo uma pequenina passagem ao final do primeiro e mais longo quadro, e alguma coisa no terceiro. Mas, sim, as imagens a que assistimos gritam aos nossos olhos e demais sentidos, se apoderam deles e nos obrigam a acompanhar tudo o que acontece em cena. Foi uma experiência sui generis. Logo no primeiro momento, um integrante do grupo pediu encarecidamente que todos desligassem celulares. O pedido é comum, é certo, mas curiosamente, desta vez foi atendido, e não se ouviu/sentiu/vislumbrou um único espectador que tivesse desafiado ou descumprido o pedido. E a plateia ficou tumularmente em silêncio, acompanhando a cena. Pode-se falar em animação de bonecos, mas com uma técnica totalmente inusitada e pouco vista entre nós. Os bonecos não são inteiriços, mas constituídos de partes. Pernas e pés estão ligados ao corpo do ator através de velcro. A cabeça é animada por um aparador que é colocado entre os dentes. Assim, a duplicação de corpos e especialmente de cabeças se torna dramática. E profundamente eficiente. No primeiro quadro, temos um travesti que cuida da mãe deficiente e que, quando é assassinado na rua, deixa a mulher abandonada à morte. No segundo quadro, um corpo está à procura de sua cabeça e a única oportunidade que tem de reencontrá-la e com ela retomar o contato, é através do suicídio. Por fim, o último quadro refere-se às guerras do Oriente Médio e é o mais tocante, porque nos remete a uma realidade imediata, que grita a nossos olhos, mas mais ainda no espetáculo. É um trabalho inesquecível e emocionante, profundamente maduro.
Depois foi a vez de O filho, do Teatro da Vertigem, com cuidada e difícil produção, alegadamente inspirada na Carta ao pai, de Franz Kafka. Confesso que nem reconheci quaisquer ligações com o extraordinário escritor checo, (nem acho que precisasse tê-las, a bem da verdade), mas me frustrei com a dramaturgia. O espaço cênico de Marisa Bentivegna é extraordinário, ele, sim, nos remete, não ao Kafka da carta, mas ao O processo, por exemplo, assim como o principal personagem é mais uma extensão do Agrimensor de O castelo que qualquer outra coisa. Mas não gostei desta demasiada preocupação em chocar, em inovar, em exacerbar a violência institucional que marca a vida moderna.
O solo de dança de Flávio Pinheiro, em Como manter-se vivo?, nos revela uma bailarina extraordinária, mas o desenvolvimento do tema, na coreografia idealizada por ela mesma, pareceu-me, uma vez mais, demasiadamente fechada na própria personagem, de modo que, embora admirando a performance, não cheguei a me emocionar com o espetáculo. Logo depois, experimentei a surpresa de Caverna, produção da Cia. Municipal de Dança, de Porto Alegre, com coreografia de Rafael Gomes. Leve, alegre, livre e solta, profundamente criativa, com bom humor, a obra arrancou gritos e aplausos, ao seu final: figurinos bem bolados (Rafael Gomes, Paula Amazonas - que também assina a direção artística da companhia - e Liane Venturella), coreografia devidamente pensada a partir dos intérpretes, Caverna é um espetáculo provocante e desafiador, que teve a excelente capacidade de articular uma linguagem contemporânea, mas sem os pesos de neologismos que acabam dificultando a comunicabilidade do espetáculo, cuja responsabilidade final é de Airton Tomazzoni. Pessoalmente, tive uma surpresa enorme, porque fiz questão de não consultar qualquer ficha técnica: não havia nem mesmo me dado conta que o grupo era porto-alegrense! Então, terminado o espetáculo, foi aquela surpresa e aquela alegria de saber o que estamos realizando na cidade. A Cia. Municipal de Dança, agora sim, começa a justificar sua existência e seu trabalho.
No fim de semana, assisti ainda a Tripas, sobre o qual Suzana Saldanha tecia enormes elogios. Um espetáculo que articula autoficção com criatividade cênica traz-nos o ator Ricardo Kosovski, que é o filho do diretor e dramaturgo Pedro Kosovksi. Judeus de origem, o espetáculo traduz, não apenas tal condição, articulando memórias de diferentes gerações abandonaram a Rússia e a revolução de 1917, chegando ao Brasil, quanto refere uma situação delicada vivida pelo pai, quase morrendo por uma complicação hospitalar, e que recebe do filho o desafio de transformar todas aquelas experiências em um espetáculo teatral, este Tripas a que se está assistindo. Ricardo, como ator, tem uma força dramática fantástica: ocupa a cena inteira e leva todo o público consigo. Ao final, pai e filho se colocam em cena, numa relação de intimidade que talvez choque mas que, ao mesmo tempo, mais do que as tripas referidas no título da obra, traduz esta simbiose e esta relação profundamente pessoal e emocionada entre ambos, explicitada numa obra de arte forte e única.
A semana se encerrou com um Ariano Suassuna sempre bem-vindo e divertido, sobre o qual o editor do caderno escreveu já na segunda-feira passada.
 
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