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Hélio Nascimento

Cinema

Crítica

Notícia da edição impressa de 01/06/2018. Alterada em 30/05 às 17h27min

Narração questionada

O diretor sul-coreano Sang-Soo Hong, a se julgar por este A câmera de Claire, é um adepto fervoroso do plano-sequência, uma técnica que valoriza ao extremo uma imagem não alterada pelo recurso da montagem. Seu filme, além de ter poucas cenas, organiza todas elas mediante tal técnica. Cada cena começa e termina com a mesma imagem, apenas os intérpretes se movimentam, isso quando, não estão parados e apenas falam e gesticulam. O plano-sequência é um recurso válido e utilizado até mesmo por aqueles que sabem que a montagem é algo essencial ao cinema. Mas transformá-lo quase num único recurso é algo, no mínimo, discutível. Ao empregá-lo em todo o tempo, o cineasta concretiza, por outro lado, uma operação arriscada, sobretudo numa época em que a rapidez e a superficialidade dominam, afastando de cena a meditação, o pensamento, a racionalidade e a busca de dados reveladores e que permitam soluções e esclarecimentos. De Griffith até Bergman o cinema nunca prescindiu da montagem. Desprezá-la é questionar a narrativa cinematográfica, o próprio cinema. A unidade de espaço e tempo não deixam de ser a origem do plano fixo, do plano-sequência. Mas um cineasta só se aproximaria das origens do teatro se realizasse um filme de metragem normal apenas num plano. Hitchcock tentou a façanha em Festim diabólico, mas não conseguiu evitar três cortes tradicionais, sem falar naqueles impostos pelas limitações mecânicas da época. Porém, é impossível negar que a utilização do plano-sequência, da maneira como é utilizado no filme de Sang-Soo Hong, é uma tentativa de alcançar o máximo de realismo possível ao se utilizar a câmera cinematográfica.
Utilizando recursos mecânicos, o cinema é aquela forma de expressão que mais se aproxima da realidade. Os intérpretes não estão presentes, como no teatro, porém na imagem projetada na tela o que se vê é a realidade reconstituída. É célebre o diálogo do diretor George Cukor com o ator Jack Lemon, no qual o primeiro pede ao segundo que interprete cada vez menos, até o ponto que apenas a atitude permaneça. E num filme como Viagem à Itália, de Roberto Rossellini, George Sanders e Ingrid Bergman aparecem como se não estivessem interpretando papéis. Jean Renoir em Tony e os mestres do neorrealismo italiano ministraram a mesma lição. E um dos achados de Ingmar Bergman, na sua versão de A flauta mágica, foi fazer com que os intérpretes não cantassem como se estivesse numa casa de ópera, não utilizassem qualquer esforço ao cantar, fazendo isso apenas na gravação da faixa sonora e não no momento da filmagem. Este último exemplo talvez seja o mais revelador das diferenças entre teatro e cinema. Ao utilizar o máximo de realismo, o realizador de A câmera de Claire é mais um a tentar atingir a essência do cinema, mas ao optar pelo extremo recurso de excluir a montagem transforma o filme em algo questionável.
Ao fazer referência, no título, a um dos filmes de Éric Rohmer, o cineasta coreano também deixa evidente uma de suas admirações e também a fonte principal de sua arte. Sang-Soo Hong, assim como realizador de O joelho de Claire, elege como instrumentos principais o intérprete e o diálogo. Assim, seu filme pode ser definido como uma peça para um ator e três atrizes. A seus três intérpretes o filme deve quase tudo. E não há como negar que o cineasta e seus colaboradores atingem momentos preciosos, como, por exemplo, na sequência de abertura, quando uma das personagens é despedida, aparentemente sem razão. É um pequeno teatro, só possível de ser encenado no cinema, pois é a aproximação da câmera que permite a visão de nuances que mais tarde serão devidamente esclarecidas. Mas a inclusão de outra personagem, que surge como que a tudo registrara com sua câmera, como se fosse o diretor do filme em cena, pouco acrescente, apenas porque não basta um olhar para o mundo para que a lucidez seja alcançada. Uma troca de olhar pode significar muito para dois personagens, mas os dados a ser revelados sobre o mundo exigem mais do que a visão de um encontro. Mas o filme tem o mérito de ser mais um a não aceitar as imposições da rotina e da mediocridade transformadas em normas a ser obedecidas.
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