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Porto Alegre, quinta-feira, 17 de maio de 2018.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Notícia da edição impressa de 18/05/2018. Alterada em 17/05 às 18h23min

O justiceiro

A mediocridade que se espalha por quase todas as cenas do novo Desejo de matar não impede que esta reaparição do personagem criado por Charles Bronson em 1974 permita algumas reflexões sobre os caminhos que parte do cinema vem percorrendo nos últimos anos. O diretor Eli Roth é fraco, algo que pode ser percebido na péssima direção dos intérpretes, alguns visivelmente constrangidos, e também nas tentativas de imprimir à narrativa algum humor, algo que se transforma em situações ridículas e bem representativas da pobreza criativa, marca registrada das propostas de parte expressiva da produção cinematográfica contemporânea. Neste século muitos filmes notáveis já foram realizados, algo que quem acompanha o cinema com olhos atentos pode facilmente verificar. Assim, não é nem uma forma de saudosismo verificar o pauperismo de certos filmes, inexplicavelmente saudados como algo expressivo. Mas de certa forma eles são, infelizmente, representativos de uma época na qual é cada vez menor o número de resistentes e os que procuram criar algo novo, enquanto aumentam os que se mostram cada vez mais servis diante das imposições da vulgaridade transformada em valor mais alto por parte expressiva da indústria cinematográfica.
O primeiro Desejo de matar foi realizado pelo diretor Michael Winner, que também dirigiu os dois seguintes. O quarto filme foi realizado por J. Lee Thompson, que tinha algum prestígio na época. O quinto foi assinado por Alan Goldstein, nome sem expressão alguma. Todos esses filmes foram massacrados pela crítica, mas encontraram boa resposta nas bilheterias, numa evidência de aqueles que diante de qualquer fenômeno optam por olhar apenas para efeitos e não para causas sempre existiram. O ator principal do filme, o alemão Bruce Willis, cuja carreira foi feita no cinema americano, permite um outro olhar para o passado. Em l988, ele, assim como Bronson, iniciou uma série, esta protagonizada por um agente da lei, John McLane. O filme, intitulado Duro de matar, foi realizado pelo diretor John McTierman, competente narrador de filmes de ação. O número dois, realizado em 1990, trazia a direção do finlandês Reny Harlin, outro bom diretor do gênero. Os dois filmes, além de muito bem realizados, eram perfeitos ao focalizar as ameaças geradas pela ambição e, principalmente o segundo, por não recorrerem ao maniqueísmo. No primeiro filme, o vilão era um apreciador de Beethoven, e assobiava a Ode à alegria ao contemplar o tesouro procurado. Algo que permitia ao autor da música original, Michael Kamen, utilizar a Nona Sinfonia nos créditos finais, homenagem também ao ator principal. No segundo filme, o mesmo compositor aproveitava a paisagem de gelo para empregar trechos de Finlândia, de Sibelius, saudando também o diretor. Em ambos os filmes o humor era utilizado de forma apropriada.
O filme dirigido por Roth utiliza um recurso utilizado por Fritz Lang em Os corruptos, mas é só olhar para aquele clássico para verificar como as coisas são simplificadas e tornadas menores pelos desprovidos de talento e imaginação. A cidade de Chicago mostrada pelo filme parece até uma cidade brasileira dos tempos atuais. A violência domina, mas as casas ainda não são protegidas por grades, o que não deixa de ser estranho. O massacre da família é o pretexto para o surgimento de uma espécie de herói que aparece para compensar a burocracia e a incapacidade da polícia em encontrar os responsáveis pelo crime. Está em cena, portanto, um herói de quadrinhos, esse sonho dos que diante da violência urbana esperam qualquer tipo de salvação. O filme está longe de aprofundar o tema, mas há três personagens que merecem ser destacados. O técnico de futebol que profere palavrões, o sogro do protagonista que utiliza a violência contra os caçadores e a sorridente vendedora de armas revelam que a agressividade humana só está à espera de um impulso para agir. Mas é este processo que o filme deixa de olhar com mais atenção ou então com a deliberada intenção de ocultá-lo e assim contribuindo para que sua ação seja prolongada.
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