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Porto Alegre, quarta-feira, 28 de março de 2018.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Crítica

Notícia da edição impressa de 29/03/2018. Alterada em 28/03 às 16h23min

Vida e literatura

Hélio Nascimento
O fato de um filme como A livraria ter recebido o prêmio maior do cinema espanhol, o Goya, e também sido laureado nas categorias de direção e roteiro adaptado, evidencia claramente que o ano não foi muito bom para a cinematografia da Espanha, que tem um histórico que garante seu lugar entre as mais expressivas da Europa. A outra constatação a ser feita confirma a impressão de que o momento atual tem sido marcado por consagrações de obras menores. Numa época em que filmes como Dunkirk e Três anúncios para um crime têm sido ignorados - o segundo citado pelo menos venceu o Bafta, o prêmio dos britânicos - e até o Festival de Veneza se rendido a ingenuidades, é sem dúvida possível perceber que aqueles que costumam encarar o cinema como simples diversão ou arte menor podem jactar-se de ter razão. São os tempos, dirão outros, enquanto esperam um futuro melhor. Não se trata de saudosismo. O cinema atual tem produzido obras de inegável importância, trabalhos que certamente serão incluídos entre aqueles de conhecimento indispensável de toda uma época, entre os quais alguns que obtiveram grande sucesso de bilheteria. Os responsáveis pelas injustiças recentemente perpetradas terão de enfrentar questionamentos gerados pelo passar dos tempos, assim como o foram aqueles que não souberam ver em Vertigo uma obra-prima. E nunca é demais lembrar que prêmios e festivais ignoraram nomes como Orson Welles, Stanley Kubrick e até mesmo Chaplin, só reconhecido no final da carreira e da vida com uma distinção especial.
Isabel Coixet, a diretora de A livraria, já recebeu destaques e prêmios anteriormente, mas este seu novo filme, realizado na Inglaterra e baseado num romance de Penelope Fitzgerald, é daqueles que costumam ser vistos com respeito por abordarem temas de inegável importância. Mas os temas, como sabemos todos, não são suficientes. São as variações em torno deles que valorizam qualquer obra. No caso, num filme que pretende focalizar o choque causado por uma atitude inovadora num cenário marcado pelo conservadorismo -e ainda mais em se tratando da instalação de uma livraria- o não desenvolvimento adequado é suficientemente claro para não deixar dúvidas sobre a ausência de profundidade e elaboração. Dois autores são citados com destaque durante a ação: Ray Bradbury e Vladimir Nabokov. O primeiro, um dos que mais se destacaram no gênero da ficção-científica, teria, como de fato teve, dificuldade para ser aceito pelos círculos conservadores, os cultores da chamada grande literatura, mas sensibilizou François Truffaut, que trouxe para o cinema um de seus livros: Fahrenheit 451. Quanto ao autor de Lolita, nem é necessário lembrar o escândalo causado por seu livro mais famoso, também citado no filme de Coixet. A cineasta, infelizmente, não sabe aproveitar a potencialidade que a presença de tais autores representaria no ambiente focalizado, limitando-se a referências rápidas e superficiais. E se Nabokov merece apenas um adjetivo para seu livro, o fogo destruidor em Fahrenheit 45l e as reflexões sobre a natureza humana nas Crônicas marcianas, de Bradbury, são praticamente ignorados.
O incêndio visto no epílogo simboliza no filme uma revolta diante da hipocrisia e das forças reacionárias, uma afronta aos que procuram esconder com favores a atividades culturais sua aversão às renovações. Mas aquele fogo não chega a ser contemplado de forma a torná-lo símbolo de uma complexidade da qual o filme se distancia e nem uma aproximação do livro mais famoso de Bradbury, aquele no qual o autor focalizou uma sociedade no qual a literatura se tornou o maior inimigo, fonte de inquietação e revolta. Ateado por quem se interessa mais por números do que por letras, tal incêndio pode ter duplo significado, igualmente não aprofundado pelo filme. A realizadora parece ter pensado que ao acentuar a utilização de fala e gestos sofisticados da personagem que representa a sociedade petrificada e colocar em cena um funcionário fantasma, visto de forma caricatural, estaria dizendo o essencial sobre uma sociedade. Terminou realizando um filme do qual o maniqueísmo é uma presença e o empenho em aprofundar insatisfações e conflitos, uma ausência.
 
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