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Porto Alegre, quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018.

Jornal do Comércio

Opinião

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Notícia da edição impressa de 22/02/2018. Alterada em 21/02 às 21h16min

O império da infâmia

Ulisses B. dos Santos
Um dos mais importantes valores de uma democracia é a liberdade de expressão, de pensamento. É tão relevante que consta no artigo 5º da Constituição Federal. O processo político, iniciado em 2013 e com ápice em 2016, apresenta na atualidade sinais de distorção de conceitos que são caros para toda uma geração que lutou por esta democracia em que vivemos. Democracia com uma série de problemas, é verdade, mas democracia. Lembro de um tempo antigo em que a vitória eleitoral era respeitada pelos vencidos, a ponto de tornar-se tradição a ligação telefônica aceitando a derrota e desejando votos de um bom mandato. Tudo isso acabou na eleição presidencial de 2014. De lá prá cá, o que se viu foi o crescimento de um discurso de ódio e preconceito.
Tudo isso justificado pela liberdade de expressão. A sociedade brasileira viu surgirem movimentos como o Movimento Brasil Livre. Na continuidade dessas manifestações sem origem definida surgiu outra proposta caracterizada pela violência, desta vez intelectual: Escola sem Partido. Em algumas Assembleias Legislativas, deputados criaram Projetos de Lei (PLs) orientados por esse projeto.
Este quadro de infâmia teve dois momentos recentes que envergonham qualquer pessoa decente: em setembro passado, a exposição "Queermuseu? - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira" foi cancelada pelas manifestações contrárias à sua instalação, que já durava um mês e se encerraria em outubro. A mais recente agressão ao pensamento diverso deu-se na passagem da filósofa norte-americana Judith Butler, que participou do Seminário "Os fins da democracia", em São Paulo, em novembro de 2017.
A reação, mais uma vez, mostrou uma violência própria do fascismo clássico. Imagine-se ser agredido por alguém que sequer leu aquilo que você escreve, foi o que aconteceu com a filósofa norte-americana.
O que impressiona é que esses movimentos que reprimem a expressão dos outros, ao serem questionados sobre a validade de seus argumentos, valem-se justamente da "liberdade de expressão". Estranho, né? A nossa omissão poderá nos levar a um recrudescimento das liberdades individuais como nunca foi visto. A forma como a história deste período será contada depende de nossa atitude. Devemos isso às gerações que lutaram pela democracia brasileira.
Historiador e jornalista
 
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