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Porto Alegre, domingo, 10 de dezembro de 2017.

Jornal do Comércio

Opinião

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Notícia da edição impressa de 11/12/2017. Alterada em 10/12 às 18h30min

A arte do impossível

Franklin Cunha
Em palestra de conhecida escritora, um assistente perguntou quais os resultados práticos da literatura. A arguta palestrante respondeu que na pergunta estava implícita a ideia de que a literatura não servia para nada. Com o mesmo espírito, os teóricos neoliberais dizem que as novas ideias econômicas devem ser aceitas sem as objeções de ultrapassadas teorias econômicas. E novas ideias "são as que dão resultados práticos" e devem ser aceitas a priori, pois são o resultado do novo capitalismo globalizado de inquestionável sucesso (e, digo, também de notável insucesso).
Se, por exemplo, se empregam verbas em educação e saúde, estas "não dão resultados práticos" já que não ensejam condições de rentabilidade financeira imediata. Daí se explicam as escassas dotações orçamentárias para estes setores e os baixos salários de seus praticantes, professores e profissionais da medicina. O mesmo é dito a respeito das leis de proteção social do antigo e esquecido capitalismo keinesiano.
Em semelhante raciocínio se enquadra a conhecida definição de política como "a arte do possível", pois, em nome de sua praticidade, tudo acaba sendo permitido. A política autêntica é exatamente o contrário. Deveria ser "a arte do impossível" caso os políticos empregassem seus esforços para mudar os parâmetros do que se considera possível na constelação ética do capitalismo atual. A arte de se conseguir o possível é filosofia de lupanar e caminho aberto para a corrupção. O "possível" dos políticos tem que ter um limite, e este é a recusa em se comprometer com um partido, com magnatas das mídias, com lobismo empresarial. E a resposta de um político autêntico deveria ser: "A prática que Vossa Excelência me pede é possível, mas imoral, e, sendo assim, não posso executá-la". Quando é eliminada a visão dos objetivos "impossíveis" (saúde, educação, justas leis sociais) e apenas optam pelos "possíveis", também é eliminado o espaço de contestação no qual os excluídos do processo econômico poderiam atuar. Limitando-se só à atuação política cínica e impotente do "possível", são praticadas duas formas de violência: estrutural e conjuntural, inerentes às condições sociais do capitalismo, as quais excluem economicamente dois terços da população mundial, além da violência crescente dos novos fundamentalistas étnicos, religiosos e racistas.
Médico, membro da Academia Rio-Grandense de Letras
 
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